Segundo o historiador francês Marc Ferro, no livro A colonização explicada a todos, existiram duas fases ao longo do período colonial. A primeira durante o século 16 até o início do século 19, quando aconteceu a descolonização nas Américas. Esses quase três séculos são marcados pelas navegações transoceânicas, ocupações territoriais, escravidão e atividades que visavam ao ganho econômico através da exploração de recursos naturais e minerais.
Já a segunda fase da colonização vai de meados do século 19 até a metade do século 20, quando começa o período das descolonizações na África e Ásia. O período também é chamado de imperialismo e, além de manterem a expansão de posses territoriais e lucros econômicos, os impérios passam a intensificar o discurso civilizatório como forma de manter sua dominação. É nesse período que o esporte moderno se espalha pelo mundo e passa a ser utilizado como um vetor dos valores ocidentais, ferramenta colonial de opressão e discurso civilizatório.
As práticas esportivas eram vistas como forma de superioridade corporal, mental e hierárquica, visando implementar a dominação cultural do Ocidente frente aos demais povos, na qual modalidades europeias como futebol e críquete eram consideradas superiores a práticas locais dos nativos, muitas vezes marginalizadas ou ressignificadas, como aconteceu com o lacrosse nas Américas. O discurso civilizatório e o tom educacional também foram outras características da difusão do esporte nas colônias, já que essas práticas iriam civilizar os ditos “selvagens” e disciplinar seus corpos e mentes.
Exemplos dessa relação entre esporte e colonialismo podem ser vistos ao longo da história em diferentes momentos. As principais entidades esportivas internacionais mantiveram vínculos e relações com a ideologia e lideranças coloniais. Cabe recordar que essas entidades nascem principalmente na Europa, mergulhadas no seio da aristocracia e do colonialismo, sendo reprodutoras do comportamento social da época.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) foi uma das entidades que mais reproduziu este comportamento colonial, através de seus presidentes e suas ações. O COI foi fundado em 1894, e na icônica foto de nascimento da instituição apenas homens brancos aristocratas estão à mesa. Principal idealizador do Movimento Olímpico, o francês Pierre de Coubertin, sempre se manteve imerso na ideologia colonial. Membro da aristocracia europeia, foi entusiasta do colonialismo francês e próximo a figuras importantes da época como o rei Leopoldo II da Bélgica, um dos personagens mais nefastos do colonialismo e patrocinador do Movimento Olímpico.
Os eventos esportivos, principalmente os Jogos Olímpicos, foram outro espaço onde essa ligação entre colonialismo e esporte se fez presente. Um dos casos mais conhecidos foi a realização de um evento chamado Dias Antropológicos dentro da programação da edição de 1904 em Saint Louis, nos Estados Unidos. Essa “competição” reuniu dezenas de homens de populações originárias de diversas partes do mundo para uma versão olímpica, em que o principal objetivo era compará-los com atletas brancos e comprovar que esses indivíduos eram inferiores física e mentalmente.
Cabe citar também que os atletas foram figuras importantes nessa relação do esporte com o colonialismo. Em alguns casos eram tratados como parte importante dos interesses da nação colonial para reforçar a ideologia, caso do jogador de futebol Eusébio, nascido em Moçambique, mas alçado ao posto de ídolo máximo do esporte português pela ditadura salazarista. Porém, existe o outro lado da moeda, no qual atletas que se colocavam contra a colonização eram considerados subversivos quando ousavam contestar o status quo, caso dos jogadores argelinos que abandonaram seus clubes na França para formar uma equipe de futebol na Argélia e se juntar na luta pela libertação.
Porém, o colonialismo não se encerrou após o processo de descolonização na África e na Ásia ao longo do século 20. Kwame Nkrumah, primeiro presidente de Gana, escreveu o livro Neocolonialismo: o último estágio do imperialismo, em que aponta que, mesmo independentes, os Estados recém-libertos seguiram sendo explorados. E de fato essa ideologia soube se adaptar aos novos tempos para seguir se perpetuando.
Comportamentos e práticas coloniais seguem sendo exercidas até hoje. O chamado neocolonialismo está presente em diversos espaços sabotando a soberania nacional e, muitas vezes, atuando de forma imperceptível para a sociedade, como ocorre no esporte. Para muitos a supremacia de clubes de futebol da Europa ou a liderança dos países desenvolvidos no quadro de medalhas olímpico são apenas efeitos de uma questão econômica ou tradição. Porém, refletem os efeitos do colonialismo no campo esportivo.
No livro Sociologia do futebol, o sociólogo inglês Richard Giulianotti afirma que, atualmente, os atletas são tratados como uma espécie de mercadoria e reproduzem, assim, uma dinâmica que lembra os tempos coloniais. Nas palavras de Giulianotti, “os produtos mais finos são enviados para serem consumidos pelo afluente mercado ocidental; o resíduo inferior é deixado para a população local”. Algo que se tornou comum nos últimos anos, principalmente no futebol profissional masculino, em que os melhores jogadores são vendidos pelos clubes formadores para as potências europeias.
Essas representações neocoloniais se mostram no esporte atual de diversas formas, como em centros de clubes europeus para formação de jogadores em outros continentes, na desumanização de corpos não brancos, na discriminação sistêmica de Israel em relação aos atletas palestinos, e tantos outros que nos fazem pensar mais sobre estas conexões e que podem ser melhor analisados em futuros ensaios.
________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



