Barreiras no desenvolvimento comprometem combate a doenças como dengue, oropouche, febre amarela, zika e chikungunya
Por Vitória Gomes*

A produção de vacinas e antivirais contra arboviroses ainda enfrenta obstáculos que travam o desenvolvimento desses recursos e comprometem o combate a doenças transmitidas por mosquitos e carrapatos, como dengue, oropouche, febre amarela, zika e chikungunya. Especialistas apontam que a falta de investimento, a escassez de formulações em fase de desenvolvimento para testes e a necessidade de mais estudos sobre a biologia dos vírus estão entre as principais barreiras.
Atualmente, para cuidar de pessoas acometidas por essas doenças, a abordagem clínica se baseia apenas no alívio dos sintomas, com uso de paracetamol ou dipirona, o que mantém a alta incidência de casos e torna o cenário preocupante. Vacinas contra algumas arboviroses existem, como a Qdenga e a Dengvaxia, contra a dengue, e a vacina contra a febre amarela, disponíveis na rede pública. No entanto, o avanço na produção de novos imunizantes e medicamentos antivirais é essencial para reduzir ou impedir a replicação dos vírus no organismo.

A solução para conter as arboviroses endêmicas no Brasil passa por investimentos no desenvolvimento de vacinas e antivirais. Há doenças que podem ser mitigadas com imunização, mas também há arboviroses negligenciadas e de baixa ocorrência, para as quais uma vacina não seria a alternativa mais viável. “Vacinas são essenciais para prevenir infecções graves. Em casos de arboviroses menos frequentes, como o oropouche, torna-se mais viável o uso de antivirais”, afirma Rafael Elias Marques, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).
Desafios no combate às arboviroses
Segundo o pesquisador, a grande dificuldade para elaboração de vacinas e medicamentos antivirais está no estudo da patogênese do vírus. “Hoje a principal barreira começa com o conhecimento básico. A maioria das doenças arbovirais é pouco estudada, no sentido de não conhecer a biologia do vírus e qual impacto a doença causará na população”, diz.
Marques afirma que a falta de investimentos em pesquisa contribui para o negligenciamento dessas doenças. “Arboviroses são negligenciadas em vários pontos, desde o aspecto acadêmico até o monitoramento das doenças pelo poder público.” Outro fator, relata o biólogo, é o número reduzido de formulações candidatas a vacinas ou antivirais em desenvolvimento para chegar aos estudos clínicos, aliado ao desconhecimento da população brasileira sobre infecções virais que a afetam.
Além disso, o pesquisador destaca que para facilitar a descoberta de um antiviral eficiente é preciso muita tecnologia e esforço para encontrar uma molécula capaz de combater o vírus. “Em um estudo de compostos antivirais que realizamos, utilizamos mais de 7 mil compostos e achamos somente um composto potente com atividade antiviral para continuar a pesquisa”, explica.
Ainda de acordo com o professor, alguns compostos antivirais estão em fase de teste e não há previsão de quando o medicamento será liberado. Ele afirma que a resposta para o enfrentamento de casos é focar na produção de vacinas para arboviroses mais comuns e no desenvolvimento de antivirais para as menos frequentes, com empenho de aplicação financeira de instituições governamentais.
Impactos na qualidade de vida

Para o professor Benedito Antônio Lopes da Fonseca, especialista em Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, ao contrair doenças virais a complicação se dá na evolução do vírus. “No caso da dengue, a doença acomete múltiplos órgãos, incluindo disfunção do fígado, perda da capacidade de filtração dos rins e distúrbios de coagulação sanguínea.”
Fonseca ressalta que a gravidade dessas moléstias afeta a qualidade de vida das pessoas acometidas. “Os sintomas da doença resultam em restrições de atividades físicas e da vida diária, levando o indivíduo ao sofrimento psicológico com manifestações de depressão, ansiedade e variações de humor.”
Para reduzir o aumento de casos de doenças arbovirais, Fonseca aponta a adesão à imunização em regiões com alto risco. “A vacinação pode reduzir a incidência da dengue sintomática e grave, reduzindo o número de hospitalizações em cenários de alta transmissão.”
*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Rose Talamone
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.




