A corrida para inovar ou melhorar o tratamento de doenças, inclusive doenças oculares, não é como uma corrida de 100 metros, observa Eduardo Rocha
O tema desta coluna do professor Eduardo Rocha são os novos tratamentos para problemas oculares, que parecem surgir com frequência e rapidez nas clínicas, hospitais e farmácias. De acordo com ele, há naturalmente muita expectativa que novos remédios resolvam problemas oculares que não tenham solução hoje em dia, seja para substituir os tratamentos que não estejam funcionando bem ou que tenham muitos efeitos adversos, custo elevado ou não estejam disponíveis onde o paciente mora. “As novas terapias podem vir de três fontes: pesquisas experimentais que ampliam conceitos sobre os mecanismos das doenças, em pesquisas geralmente geradas nas universidades com investimentos governamentais, vindos de impostos pagos ou podem vir de observações de efeitos inesperados de remédios aprovados e em uso para outras finalidades, geralmente pacientes e médicos atentos acabam levantando essas possibilidades, que não são infrequentes; e, por fim, podem vir de uma ideia que ficou esquecida no passado, quase sepultada depois de uma tentativa ou mais, por falta de maneiras de torná-la uma solução viável, mas que, com avanços que ocorrem em paralelo, permitem que aquela ideia possa agora se tornar um tratamento eficaz e seguro.”
Rocha observa que a corrida para inovar ou melhorar o tratamento de doenças, inclusive doenças oculares, não é como uma corrida de 100 metros, na qual há uma saída simultânea e um ponto de chegada comum para todos os concorrentes. “O tratamento das opacidades da córnea, a lente anterior do olho, com o transplante, foi imaginado e concebido pelo menos no século 18. Dois séculos depois, o transplante passou a ser comum nos hospitais e ainda não atingiu a perfeição, pois a cada dez ou 20 anos ele passa por uma modernização relevante. Os tratamentos da catarata e da degeneração da mácula receberam ajuda de avanços de outras áreas científicas e rapidamente atingiram excelente patamar no século 21 para muitos casos, sem falar em tratamentos que surgem como grandes esperanças, são convincentes do ponto de vista científico, acabam sendo aprovados pelos órgãos governamentais, que liberam esses novos remédios, e depois de um tempo caem no esquecimento por causa de efeitos ruins não previstos ou porque são pouco eficazes. Recentemente foi aprovado no Brasil o uso de transplante de membrana amniótica para ajudar em cicatrizes de feridas oculares. Esse uso foi relatado na literatura médica pela primeira vez em 1944 e voltou no início dos anos 2000, sempre promissor, mas só agora recebeu de vez essa aprovação. A ideia da membrana estava lá, dormente, aguardando a viabilidade para seu reúso como cicatrizante depois de servir na gestação de um bebê. Antibióticos, hormônios e anti-inflamatórios descobertos e usados em outras áreas médicas ganham a forma de colírio e são bem adaptados, muitos acabam virando tratamentos úteis para doenças oculares.”
Fique de Olho
A coluna Fique de Olho, com o professor Eduardo Rocha, vai ao ar quinzenalmente, quarta-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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