sábado, maio 16, 2026
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Luis Fernando, sempre “verissimo” – Jornal da USP


Ao longo de sua vida, Luis Fernando Verissimo cultivou paixões reais – como pelo Internacional de Porto Alegre e sua querida Lúcia –, brincou com paixões imaginárias e fez amizades verdadeiras e duradouras. Sobre as paixões inalcançáveis, elas mudaram de época para época – mas mantinham o bom gosto. Uma das primeiras musas foi a atriz Patrícia Pillar – em uma das crônicas, Verissimo declara: “O pudim de laranja é a única prova convincente da existência de Deus. Além da Patrícia Pillar, claro”. Depois vieram Luana Piovani, Patrícia Poeta. E Luíza Brunet. Sobre a ex-modelo, ele disse:

“Escrevi uma vez que era um cético que só acreditava no que pudesse tocar: não acreditava na Luiza Brunet, por exemplo. Cruzei com a Luiz Brunet num dos camarotes deste carnaval. Ela me cobrou a frase, e disse que eu podia tocá-la para me convencer da sua existência. Toquei-a. Não me convenci. Não pode existir mulher tão bonita e tão simpática ao mesmo tempo. Vou precisar de mais provas.” 

E sobre as amizades reais e duradouras, elas são muitas. Com os já citados aqui Frei Betto e Ruy Carlos Ostermann. Mas há muitos outros, como o jornalista Zuenir Venta e o já falecido escritor Moacyr Scliar. Os três, em um momento de carência, chegaram a fundar o “Clube dos sem netos”. Mas aí, Scliar morreu e Luis Fernando e Zuenir ganharam os netos que tanto desejavam e o clube se desfez naturalmente.

Ainda com Zuenir, amigos de mais de quatro décadas, os dois gostavam de protagonizar um diálogo insólito, com um quê de quinta série anacrônica. Quem lembrou disso foi Mauro Ventura, filho de Mestre Zu, em suas redes sociais:

“Nos debates, eles tinham um número que costumavam usar. Meu pai dizia: ‘Já rolou de tudo entre nós – menos sexo.’ No que Verissimo devolvia: ‘Assim mesmo porque você não quis’. E meu pai retrucava: ’Por enquanto’. Ou, numa variante: ‘Mas você também não insistiu’”. Cenas explícitas de peraltices verbais que só uma longa amizade pode proporcionar. 

Pode-se dizer, para usarmos um termo bem atual, que Luis Fernando Verissimo foi um criador multimídia avant la lettre. Escreveu livros e mais livros de crônicas – inicialmente publicadas em jornais como Zero Hora, Jornal do BrasilO Globo e O Estado de S. Paulo –, cedeu aos apelos editoriais e passou também a escrever, a partir de finais dos anos 1980, romances e novelas, foi cartunista com suas cobras e com a Família Brasil (que ele assinava apenas com as iniciais LFV), fez roteiros para programas de humor como TV Pirata e Casseta & Planeta Urgente e sua Comédia da Vida Privada foi levada para a TV e virou um programa com 21 episódios. Está bem assim? E ainda tinha tempo de ouvir jazz, que fazia sem distrações – “música é sentar e ouvir” – e tocar seu saxofone. Outras de suas paixões bem reais.

Fã de Charlie Parker, Verissimo chegou a dizer, certa vez, que se lembrassem dele pelo saxofone “estaria satisfeito”. Exageros à parte, ele chegou a integrar, em 1995, o grupo Jazz 6, “o menor sexteto do mundo, com apenas cinco integrantes”. Gravaram CDs e fizeram shows – tudo dependendo da agenda de seu saxofonista famoso. Verissimo ainda tocou sax em uma faixa de um CD de Kleiton e Kledir, lançado em 2015. Quem quiser conhecer essa faceta musical de Luis Fernando Verissimo, pode ouvir no link abaixo o programa especial do Manhã na USP, da Rádio USP, dedicado a ele e apresentado pelo radialista Cido Tavares.

 



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