Nova edição da revista traz artigos sobre textos inéditos de Gilda de Mello e Souza, análises de Mário de Andrade sobre racismo, o Movimento Bandeirista, a história das mulheres, entre outros temas
Por Luiz Prado

Artistas, escritores e intelectuais são os sujeitos e os objetos das narrativas, histórias e representações que permitem entender o Brasil como uma realidade ao mesmo tempo concreta e simbólica, como destacam os editores da nova edição da Revista do IEB – publicação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP –, que acaba de ser lançada. O arquivamento e a institucionalização das suas produções é um momento importante desse processo e parte dele acontece justamente nas coleções sob a guarda do IEB. Em sua nova edição, de número 91, a revista reúne artigos que partem justamente de documentos para tratar das pessoas e de suas obras. A revista está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP.
Um dos artigos – intitulado Vestir o Corpo com Palavras: Moda e Literatura nos Escritos de Gilda de Mello e Souza – parte de dois textos inéditos da filósofa e professora da USP Gilda de Mello e Souza (1919-2005), encontrados no acervo do IEB, para analisar o desdobramento da teoria de Gilda sobre moda. Os dois textos, intitulados Bricolage e Moda, mostram uma autora interessada em ir além das discussões filosóficas sobre moda que já apareciam em sua tese de doutorado A Moda no Século XIX, de 1950, que daria origem ao livro O Espírito das Roupas: a Moda no Século Dezenove, publicado em 1987, segundo os autores do artigo, o doutorando da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP Brunno de Almeida Maia e a professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Silvana de Souza Ramos.
Outro artigo, O Arquivo Pessoal e a Biblioteca de Paulo Duarte na Unicamp: a Origem de Uma Política de Aquisição de Acervos Pessoais, conta a história da incorporação do acervo do intelectual, arqueólogo e professor da USP Paulo Duarte (1899-1984) – com cerca de 11 mil livros e milhares de documentos – à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com isso, Luccas Eduardo Maldonado, doutorando em História na Unicamp, discute também a formação de uma política institucional de aquisição de acervos particulares no País.
Maldonado explica que a compra do acervo de Duarte pela Unicamp – vendido pelo próprio professor, em 1970, depois de ter sido aposentado compulsoriamente da USP em 1969, nos expurgos promovidos pela ditadura militar na Universidade – foi um passo importante da instituição. Era um momento em que a então jovem universidade do interior paulista procurava se firmar, tendo sido fundada em 1966, e ainda se organizava para reunir professores e montar bibliotecas e laboratórios. “O arquivo e a biblioteca de Duarte foram o primeiro acervo adquirido pela Unicamp na tentativa de estruturar o seu corpo material para a área de humanidades”, escreve o pesquisador. “A iniciativa, que naquele momento não tinha nada de programático, foi o primeiro passo de uma política de aquisição de arquivos e bibliotecas pessoais que se tornou uma das características das ciências humanas dessa universidade a partir da década de 1970.”
O artigo Mário de Andrade, Estudioso do Preconceito e da Linha de Cor no Brasil parte de documentos guardados no IEB para analisar como o escritor modernista Mário de Andrade identificou na sociedade brasileira um preconceito de cor que hoje chamaríamos de racismo institucional. Angela Teodoro Grillo, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), trabalha com materiais que mostram três facetas de Mário: o estudioso cultural, o diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo e o ensaísta.
A pesquisadora parte do manuscrito Preto, do projeto das comemorações do Cinquentenário da Abolição e do texto Estudos sobre o Negro. “No Brasil, a falácia da democracia racial, motivada pelo Estado Novo, ocultava ações que denominamos atualmente como racistas”, escreve Angela. “Mediante pesquisas, criações artísticas e atuação política, Mário de Andrade constatou que, no final da década de 1930, 50 anos após a Abolição da Escravatura, mantinha-se no País a imposição de lugares sociais de subalternidade a serem ocupados pela população negra, em uma sociedade econômica e culturalmente dominada por brancos.”
Para Angela, o reconhecimento da violência racial no Brasil atravessa o pensamento de Mário de Andrade, aprofundando-se enquanto ele intensifica seus estudos e, ao mesmo tempo, sofre as consequências do racismo. Mário era neto de mulheres negras, possuindo inclusive a pele mais escura, lembra a pesquisadora. “O estudo de documentos do polígrafo, voltados para o reconhecimento e a valorização da cultura negra brasileira, demonstra o crivo crítico do pesquisador interessado em compreender as violências do racismo e propor mudanças”, aponta Angela. “Embora dispersos em diferentes seções do Arquivo do IEB, esses materiais estão interligados por um diálogo intrínseco, que permite identificar conexões significativas entre suas partes.”
Mário volta a ser o centro das atenções na contribuição de Filipe Augusto Galeti Mauro, doutor em Literatura Francesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Mas, no artigo No Tacho de Piaimã – Gigantes de Rabelais e Mário de Andrade, a proposta é retomar as aproximações feitas entre Macunaíma e as sátiras romanescas de François Rabelais em Gargântua e Pantagruel.
Não se trata de um tema novo e, na verdade, como o próprio autor indica, a presença de Rabelais na obra de Mário “talvez seja um raro ponto consensual na tradição crítica bastante polêmica e bem explorada de Macunaíma”. Até Haroldo de Campos e Antonio Candido, que discordaram praticamente em tudo na leitura andradiana, lembra Mauro, entraram em acordo sobre o “aspecto paródico de linhagem (…) rabelaisiana”, segundo Campos, e a “féerie rabelaisiana”, de acordo com Candido.
Mauro retoma algumas das principais leituras que aproximaram os dois trabalhos e viram na figura do gigante Piaimã relações com os personagens do autor francês. “A obra cômica e popular de Rabelais oferece formas de moralização por meio de périplos, jornadas e viagens impregnadas de sabedoria popular, de dialetos e de provérbios das pilhérias dos jovens, das bocas dos humildes e dos loucos”, escreve o pesquisador. “Já o ‘carnaval de dicas, tiradas, disparates, gozações, sátiras, paródias’, todo o ‘acesso de alegria incontida’ que Darcy Ribeiro leu em Mário de Andrade participa de uma transformação dos meios originais de vida pela violência, marcando a integração agressiva do primitivo ao moderno e do moderno ao primitivo através da composição e recomposição de uma existência fragmentária sobre o corpo de um herói.”
O artigo Entre Reproduções e Exposições: a Circulação de Independência ou Morte!, de Pedro Américo vai para outra instituição da USP dedicada à guarda e preservação: o Museu Paulista (MP). Michelli Scapol Monteiro, pós-doutora pelo MP, apresenta um estudo sobre a circulação da tela que se tornou símbolo da Independência, pertencente ao museu. Michelli recorre a notícias de jornais e correspondências do próprio Pedro Américo para mapear a participação da tela e de eventuais reproduções em exposições no Brasil e no exterior. “A despeito de ter sido elaborada mais de 60 anos após a proclamação da Independência e com a pretensão de ser uma obra de arte que homenageava e celebrava o primeiro imperador do Brasil, muitas vezes ela é confundida com um documento visual da Independência”, explica a pesquisadora. “O principal motivo para que a representação conquistasse o imaginário social foi a ampla circulação da obra e de reproduções de sua imagem.”
Antes mesmo de ocupar o edifício-monumento que viria a sediar o Museu Paulista, conta Angela, o quadro de Pedro Américo foi visto na Europa e ganhou exposições no Brasil. Reproduções fotográficas foram exibidas ao público e gravuras ganharam as páginas dos livros, como na reedição de 1889 da Enciclopédia. As décadas seguintes tornariam suas reproduções presenças frequentes nos livros didáticos, potencializando a identificação da tela como documento visual. “Até hoje, em todo 7 de Setembro a imagem criada por Pedro Américo é utilizada em publicidades, charges e materiais de internet, demonstrando a potência que a representação ainda mantém”, escreve Angela. “Graças à constante e perene circulação da sua imagem, a representação continua a ser apropriada e ressignificada, motivo pelo qual permanece como peça central no imaginário social da história do Brasil.”
Enquanto o artigo sobre Independência ou Morte! trata de um tema amplamente conhecido, o texto de George Leonardo Seabra Coelho, professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), intitulado Movimento Bandeira e Propaganda Eleitoral: a Campanha em Prol da Eleição de Armando de Salles à Presidência da República (1936-1937), investiga um assunto pouco falado da história paulista: o Movimento Bandeira.
Contando com a adesão de nomes como Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Paulo Prado, Paulo Setúbal e Valdomiro Silveira, o movimento surgiu nos anos 1930 com pretensões de reestruturação da vida cultural do País. Mas teve também horizontes políticos, atuando em prol de um Estado forte e da democracia social nacionalista – forma de combater o comunismo, o integralismo e a democracia liberal. Nessa perspectiva, nutria esperanças na eleição de Armando de Salles Oliveira para a Presidência da República em 1938, que consolidaria o projeto político e econômico de São Paulo. Oliveira foi interventor de São Paulo – equivalente hoje ao cargo de governador – entre 1933 e 1935 e assinou o decreto de criação da USP, em 1934.
“Ao se posicionarem na política na década de 1930, os ‘novos bandeirantes’ se baseavam em quatro diretrizes fundamentais: incorporar a modernidade sem comprometer as tradições; exaltar a cultura brasileira, especialmente a língua; rejeitar os estrangeirismos; e, finalmente, a arte com um viés político”, escreve Coelho. “Ao utilizar o ‘mito bandeirante’ como emblema para seu projeto político-cultural, os bandeiristas estabeleceram uma conexão única entre o tempo – passado e presente – e o espaço – a região de São Paulo –, além, é claro, de estabelecer uma conexão entre a tradição e o contemporâneo.”

O pesquisador analisa como Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia utilizaram as páginas da revista S. Paulo para fazer propaganda do governo de Armando de Salles Oliveira, enquanto articulavam sua pré-campanha eleitoral à Presidência. Também investiga o jornal Anhanguera – outra publicação na qual havia a assinatura da dupla –, principal veículo das ideias bandeiristas, que não só promovia Armando de Salles Oliveira, mas combatia seus opositores José Américo, Plínio Salgado e Getúlio Vargas.
“O discurso publicitário é permeado de elogios à administração do governador, colocando-a como um momento dinâmico, inovador e produtivo”, conta Coelho a respeito da revista S. Paulo. “Os editores compreendiam as iniciativas armandistas como um poderoso impulso que ligava de maneira admirável o presente à tradição – em resumo o governo de Armando de Salles daria origem a um novo bandeirismo.”
De acordo com Coelho, o Movimento Bandeira propunha a recuperação do passado regional paulista como chave para criar uma estrutura cultural nacional no presente. “Os ‘novos bandeirantes’”, escreve o pesquisador, “apesar de se posicionarem além e acima dos partidos, apoiaram a candidatura de Armando de Salles à Presidência da República acreditando que ele poderia concretizar o ideário bandeirista”.

Mas não são apenas os intelectuais, artistas e políticos que ganham espaço nas páginas da Revista do IEB. No artigo do professor da Universidade de Brasília (UnB) Juarez José Tuchinski dos Anjos, são as vozes das crianças que têm vez. Escrituras Infantis nas Colunas da Jornalista Yvonne Jean (Brasília, 1962) apresenta a pesquisa de Anjos a respeito de um conteúdo inusitado das páginas do jornal Correio Braziliense do início dos anos 1960: redações escritas por crianças da escola primária.
Yvonne Jean foi uma jornalista belga radicada no Brasil que assinou diversas colunas no periódico de Brasília. Conforme conta Anjos, Yvonne mostrava nos textos seu conhecimento do que se passava no ambiente escolar, desde o jardim de infância até a universidade – ela era funcionária do Centro de Extensão Cultural da Universidade de Brasília (UnB). Muitas vezes, apresentou aos leitores as práticas da escola primária, como as redações dos alunos.
Para analisar o que as crianças de Brasília estavam dizendo em 1962, Anjos trabalha com dois grupos de escritas infantis publicadas por Yvonne. São redações com os temas “Se eu fosse presidente da República” e “O que pretendo ser”, realizadas por estudantes de sete a 14 anos. “No seu conjunto, pode-se afirmar que, nas escrituras infantis aqui interrogadas e postas em circulação na coluna da jornalista Yvonne Jean, as crianças de Brasília falavam de seu cotidiano, dos obstáculos que a cidade modernista em formação vinha enfrentando, dos problemas que encareciam a vida dos adultos, das necessidades das próprias crianças, dos seus sonhos e projetos de vida”, escreve o pesquisador. “Falavam, assim – na tensão entre escritas disciplinadas e escritas infantis –, de um mundo conforme percebido e apreendido pela sua ótica.”
Integram ainda a revista contribuições sobre a história das mulheres e do feminismo no Brasil. Cartas pela Liberdade: Escritas de Mulheres Escravizadas em Minas Gerais no Século XVIII apresenta e situa a edição das cartas de Joanna Jacinta e Maria Thereza, mulheres escravizadas que redigiram com as próprias mãos cartas para tratar da sua liberdade. “Se já são raras as cartas de mulheres na América Portuguesa que foram conservadas e podem ser estudadas atualmente, mais raras ainda são as dessas duas remetentes”, escrevem as autoras Beatriz de Freitas Cardenete e Vanessa Martins do Monte, respectivamente doutoranda e professora do Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da FFLCH. “Ambas são mulheres escravizadas que escrevem no século 18 desde a capitania de Minas Gerais para lutar por sua liberdade e tentar fugir das violências que lhes eram impostas. Bem distante da ideia de tagarelice mundana ligada às cartas na França do mesmo período, manuscritos como esses mostram que, em terras ‘brasileiras’, a escrita epistolar tinha funções bem diversas e poderia configurar uma forma de sobrevivência e resistência.”
Completa a edição um estudo comparativo, feito pela Professora Emérita do IEB Telê Ancona Lopez, entre obras do pintor Francis Bacon e o poema A Balada do Cárcere de Reading, de Oscar Wilde. A revista ainda homenageia Flávio Império, artista plástico, cenógrafo, figurinista e professor da FAU, cujos trabalhos integram a Coleção de Artes Visuais do IEB. Desenhos, esboços e cartazes de trabalhos produzidos por Império acompanham os artigos ao longo de toda a edição.
Revista do IEB, número 91, Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. A revista está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP


