Quando os educandos se sentem bem, em relação às suas habilidades, ficam mais dispostos a assumir riscos e lidar com desafios
Por Isabella Lopes*


Raiz quadrada, trigonometria, fórmula de Bhaskara e equação do segundo grau podem ter sido termos que tiraram seu sono durante a escola. Cerca de 60% dos estudantes brasileiros de 15 anos relataram sentir ansiedade enquanto estudam matemática, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), de 2022. O estudo demonstra que, assim como outros países participantes, reações de aversão e medo dificultam o aprendizado escolar, com destaque para a área das disciplinas exatas.
A ansiedade é uma emoção natural humana e foi essencial para a sobrevivência da espécie, seja na atenção para ameaças ou ataques de predadores e inimigos e falta de alimentos ou território. Está relacionada às sensações de imprevisibilidade, medo e insegurança, por exemplo, que geram respostas de “luta” ou “fuga” no organismo e podem evoluir para transtornos ansiosos, os quais são diagnosticados por profissionais da saúde e da psicologia.

De acordo com uma análise feita em 2024 pela Folha de S.Paulo, com base na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa de pacientes de 10 a 14 anos atendidos com transtornos de ansiedade é de 125,8 a cada 100 mil. Para adolescentes, o número é de 157 a cada 100 mil ocorrências. No contexto escolar, a condição tem relação com a comparação, as expectativas, o desempenho escolar e relações negativas com os colegas, como o bullying. As sensações também podem acarretar falta de concentração, dificuldades, perda de foco, baixa autoestima e, consequentemente, resultados ruins na escola.
Na disciplina de matemática, um letramento satisfatório está relacionado às habilidades que envolvem a resolução de cálculos e outros algoritmos mais elaborados — que passam pela interpretação, comunicação, criação, dedução e argumentação. Além disso, é importante entender a aplicação desses conhecimentos para compreender o dia a dia, conta Raquel Milani, professora da Faculdade de Educação (FE) da Universidade de São Paulo. “É ler, interpretar e agir no contexto no qual se está inserido. As crianças já sabem o que é Pix e cartões de crédito”, explica.
Autoria para desenvolver
A autoestima é definida como a capacidade de um indivíduo de perceber a si próprio, sejam aspectos positivos ou negativos, e sentir-se confortável com o que percebe. Está ligado à confiança, característica importante no processo de aprendizagem — quando está em equilíbrio, ou seja, quando os educandos se sentem bem em relação às suas habilidades, ficam mais dispostos a assumir riscos e lidar com desafios. Cerca de 50% dos estudantes brasileiros que participaram do último Pisa, por exemplo, concordaram com a afirmação de que “algumas pessoas não são boas em matemática, não importa o quanto estudem”.
A frustração é outro sentimento que permeia esse processo, a qual é considerada um tipo de dor. Para Raquel, a ansiedade ligada à matemática se relaciona à falta de conforto, à pressão por notas boas e a uma sequência de “fracassos”: “Essa ansiedade pode ser fruto de uma experiência negativa, como o modo que um aluno recebeu um resultado ruim e a consequente dificuldade de sair desse ciclo”.
Segundo a professora, é preciso olhar para o estudante como um sujeito em formação — tanto educacional quanto psicologicamente — e o processo que ele vive antes de colocar luz apenas nas pontuações. Além disso, ela destaca que o desenvolvimento de outras competências, como a leitura, faz parte do caminho para entender a matemática. “É importante entender os algoritmos e as fórmulas, mas também é importante saber como se usa e interpreta um texto”, explica.
Inserir o educando no processo da aprendizagem de matemática e considerar sua autoria podem facilitar o ensino e, em consequência, trazer ganhos. Assim, a especialista expõe que uma ação positiva é considerar os diferentes raciocínios para resolver uma questão, sem reproduzir apenas um mesmo caminho: “Se a gente quer sujeitos autônomos, críticos e criativos, precisamos incluir isso no processo de escolarização”. Legitimar outros métodos e tipos diferentes de inteligências, para Raquel Milani, seria uma forma de reduzir a ansiedade e a frequência de notas vermelhas em relação à matéria.
Novos encantos
O afastamento dos estudantes é observado conforme as etapas de escolarização são avançadas. Quando mais novas, nota-se o entusiasmo em contar objetos, desenhos ou outros recursos, que dão lugar a imagens impressas e traços no papel conforme crescem. Segundo Raquel, essa mudança é mais nítida na transição entre Ensino Fundamental 1 e Ensino Fundamental 2, ou seja, entre o quinto e o sexto ano da escola.
As transformações físicas e psicológicas próprias da pré-adolescência e adolescência são algumas das causas elencadas pela professora. “Elas [as crianças] começam a se interessar por outras coisas, ainda mais com as mídias e a internet. É natural ter outros focos”, comenta.
As mudanças nas abordagens e o aumento do número de professores — o que diminui o contato diário com os estudantes — para cada componente curricular também contribuem para esse cenário. Para a profissional, existe uma perspectiva de que, ao passar para outra etapa da vida escolar, é preciso deixar para trás “o empírico, o concreto, o lúdico e o brincar” para dar lugar a uma “matemática mais séria e abstrata”. Entretanto, é preciso enxergar os alunos de acordo com suas idades: “A gente precisa considerar que eles ainda são crianças e que precisam da experiência com o fazer, com objetos e com o meio para aprender a matéria”.
O uso de tecnologias no ensino das disciplinas pode produzir resultados satisfatórios: “A gente tem que somar as inovações, seja lápis, papel, régua, compasso e outros materiais didáticos para ensinar matemática, mas também as mais recentes”. Softwares e aparatos de gamificação — como atividades colaborativas, quizzes interativos e trocas de papéis, por exemplo — surgem como aliados no engajamento e motivação para quem ensina e aprende.
Investimentos
A professora defende maiores investimentos no sistema educacional para favorecer o entendimento da matemática. A formação de professores que enxerguem a autoria na aprendizagem é uma das vertentes: “É preciso formar profissionais que olhem para a diversidade de caminhos. Acho que isso acarreta uma diminuição do fracasso escolar e da aversão sobre a disciplina”.
Raquel Milani destaca que recortes socioeconômicos permeiam cada escola, o que não é representado de forma específica nas pesquisas. O Pisa de 2022, por exemplo, demonstra que estudantes com performances piores em matemática e maiores níveis de ansiedade estavam inseridos em países/economias com instabilidades.
Uma parcela dos estudantes brasileiros tem na merenda escolar a única garantia de alimentação no dia, fato que gera implicações na concentração e memória dessas pessoas. “Muitas vezes, não tem uma estrutura física e familiar na casa, que deem condições para a criança pegar o caderno e fazer suas tarefas”, expõe.
*Sob supervisão de Cinderela Caldeira
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