Essa dinâmica favorece a formação profissional, acadêmica e cidadã, amplia repertórios, potencializa habilidades técnicas, científicas e humanas, além de promover ações transformadoras voltadas à democratização do conhecimento e à construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
Na USP, essa concepção se concretiza em uma ampla variedade de iniciativas distribuídas pelos diferentes campi. Em São Paulo, destacam-se o Projeto Micro: Aprender para Empreender (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária/FEA), que oferece consultorias gratuitas e capacitações a microempreendedores; o Perfil de Ingressantes em Ciências Sociais (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas/FFLCH), voltado à investigação das desigualdades educacionais; o Dilema Teoria e Prática na Educação Física e Esporte (Escola de Educação Física e Esporte/EEFE), que aproxima o aprendizado acadêmico das demandas sociais; a Escola Avançada de Engenharia Mecatrônica (Escola Politécnica/EP), que proporciona experiências práticas em robótica e extensão tecnológica; o Laboratório de Tradução de Filosofia (FFLCH), que realiza traduções coletivas de obras inéditas em português, democratizando o acesso ao pensamento filosófico; o Competec (Escola de Artes, Ciências e Humanidades/EACH), que ensina programação a estudantes de ETECs; o Projetos de Engenharia (Poli), que promove a aplicação de conhecimentos técnicos em cenários reais; a Ocupação Intelectual Preta (FFLCH), que valoriza a intelectualidade preta no meio acadêmico; e o CinePET (Faculdade de Direito/FD), que fomenta debates acadêmicos a partir da exibição de obras cinematográficas.
Em Piracicaba, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), a Escola Avançada de Genética e Biotecnologia Agrícola aproxima estudantes da rede pública do ambiente universitário; o Vem Pro Horto integra educação ambiental e práticas comunitárias; e o Vem pra Esalq incentiva estudantes do ensino médio da rede pública a conhecer, ingressar e permanecer na universidade. Em São Carlos, o CodifiKids (Instituto de Ciências Matemática e de Computação/ICMC) ensina programação a crianças, com atenção especial à inclusão de meninas; e o Festival da Química (Instituto de Química de São Carlos/IQSC) leva experimentos a praças públicas, aproximando ciência e cotidiano de forma lúdica.
Em Pirassununga, os grupos PET da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) desenvolvem projetos como o Alimentando o Futuro, que promove experiências de ciência e tecnologia de alimentos em escolas, e o Minhocário na ETEC, que alia sustentabilidade, produção animal e educação ambiental. Já na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), destacam-se o OSC – Portas Abertas, que auxilia pessoas em situação de vulnerabilidade a conquistarem uma vida digna, e o Sorrindo na Infância, que promove atividades lúdicas e educativas com crianças no Hospital Estadual de Bauru.
Em Ribeirão Preto, o Cursinho Popular da Medicina (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/FMRP) amplia o acesso de jovens em situação de vulnerabilidade ao ensino superior; o PET na Escola (Faculdade de Direito de Ribeirão Preto/FDRP) realiza palestras em escolas públicas sobre os caminhos de ingresso e permanência na universidade; o Enfermagem e Ação Educativa em Primeiros Socorros (Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/EERP) desenvolve oficinas de ressuscitação cardiopulmonar e primeiros socorros no ambiente comunitário; e o Festival da Química (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/FFCLRP) aproxima o conhecimento acadêmico da população por meio de experiências interativas e sensoriais.
Esse conjunto de práticas revela que a Educação Tutorial na USP é plural e inovadora, articulando diferentes áreas do conhecimento em projetos que formam sujeitos críticos, criativos e socialmente comprometidos, fortalecendo o papel da universidade pública como espaço de produção de saber e transformação social.
Essa vocação ficou evidente no 1º Congresso do PET da USP (Cepetusp), realizado em Piracicaba, no dia 16 de agosto. O encontro propôs refletir sobre o potencial do programa para repensar os cursos de graduação. Os projetos mencionados reúnem características centrais de um ensino superior de qualidade, como aprofundamento científico, produção de pesquisa, resposta a demandas sociais, resolução de problemas, divulgação de conhecimento e desenvolvimento de competências. Tais dimensões se combinam de maneiras variadas, sem que se espere que todas estejam presentes em cada projeto, prerrogativa própria dos cursos de graduação, que, por sua estrutura e duração, podem assumir esse compromisso de forma plena. O PET, como se nota, constitui um exemplo eloquente de curricularização da extensão, ao integrar as atividades acadêmicas às necessidades concretas das comunidades, promover a articulação entre teoria e prática, favorecer a formação cidadã e expandir o impacto social da universidade. Ainda assim, é clara a vinculação entre o que se espera da formação universitária e o que se realiza nos grupos PET da USP.
É nesse ponto que dois conceitos oriundos da teorização curricular pós-estruturalista ajudam a aprofundar a reflexão: subjetivação e singularização. A maior parte das atividades previstas nos currículos de graduação busca imprimir determinadas marcas ou modos de ser, moldando o perfil profissional almejado nos projetos pedagógicos, processo que chamamos de subjetivação. Já as vivências em que estudantes são protagonistas, identificando problemas, planejando soluções, articulando saberes acadêmicos e extra-acadêmicos e produzindo respostas próprias, configuram experiências de singularização, que não visam moldar sujeitos a um padrão, mas reconhecer e valorizar diferenças.
Muitas e muitos petianos relatam que, enquanto certas aulas podem soar monótonas, as reuniões do grupo PET são momentos em que suas ideias, conhecimentos e modos de ser são bem-vindos e incorporados. O programa oferece um espaço de respiro no currículo, no qual não é necessário provar a todo instante competência ou inteligência, mas onde vínculos com pessoas e saberes podem perdurar por toda a vida.
Na atual gestão, a Pró-Reitoria de Graduação tem incentivado Comissões de Graduação e as Comissões Coordenadoras dos Cursos a conceber currículos mais integrados e flexíveis, adotar métodos de ensino participativos e propor experiências alinhadas às demandas contemporâneas. O PET é a síntese desse movimento. Ampliar a divulgação do programa entre docentes e discentes significa potencializar seus efeitos e multiplicar benefícios dentro e fora da USP, algo que se tornou ainda mais evidente nas apresentações realizadas durante o Cepetusp.
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