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Angela Ro Ro exorcizou a dor e a delícia da vida queer – 08/09/2025 – Ilustrada


Década de 1990. Boate Le Boy, na época o maior ponto de encontro carioca da comunidade LGBTQIA+ —muito antes de a sigla existir—, em Copacabana. Sentada diante de um piano, com um infalível copo de uísque ao alcance das mãos, Angela Ro Ro, morta nesta segunda-feira aos 75 anos, dizia, entre uma canção e outra: “Vocês sabem, sou a única cantora de MPB lésbica do Brasil!”

Seguiam-se gargalhadas, assovios e aplausos de um público mais do que ciente do quanto a música popular brasileira sempre foi prodigiosa em grandes cantoras homossexuais. A fala ressaltava características da artista tão peculiares como sua voz possante —o autodeboche e o humor ferino.

Diferentemente das outras divas da MPB, evasivas quando questionadas sobre sua sexualidade, Angela sempre foi de uma desconcertante transparência a esse respeito. Desde que lançou o primeiro álbum, em 1979, deixava isso claro em tudo: sua figura, suas entrevistas, seus shows. Por décadas, os trechos no palco em que conversava com a plateia, relatando as dores e delícias de suas experiências amorosas, eram tão aguardados quanto seus grandes sucessos, como “Amor Meu Grande Amor” e “Tola Foi Você”.

Ao menos até o fim dos anos 1990, também os excessos eram elementos do espetáculo —Ro Ro já aprontou um bocado de confusão depois de exagerar nos entorpecentes. Podia fazer shows irrepreensíveis, mas também perdia a linha.

Mas se jogar uísque na plateia ou abandonar shows pela metade podiam ser —legitimamente— vistos como gestos desrespeitosos de uma artista, em geral eram sobretudo compreendidos como partes inalienáveis da personalidade de uma mulher que se desnudava diante de seu público. E que não tinha medo de expor seus próprios demônios e nem de se entregar. Ao amor, ao ódio, ao álcool, ao prazer.

Os admiradores queers não costumavam se sentir afrontados. Entendiam que aquilo era uma forma de ser, um traço de autenticidade e transgressão. Que são qualidades que sempre cobram um preço, e Angela pagou caro. Problemas de saúde, a restrição profissional a certos nichos, os escândalos midiáticos. E havia ainda questões mais corriqueiras, comuns no dia a dia de homossexuais no Brasil —Angela dizia que foi agredida por policiais cinco vezes, por homofobia, e em uma delas teve a visão comprometida para sempre.

Seu conturbado romance com Zizi Possi, no começo dos nos 1980, terminou com agressões, delegacia e todos os ingredientes que faziam a felicidade da imprensa sensacionalista. Mas o entrevero nunca soou ao público queer como uma simples ocorrência policial.

Independentemente do quanto Angela possa ter errado ali, o que entrou para o imaginário dos gays e lésbicas foi algo menos factual, mais simbólico —a existência de um amor homossexual para além das boates e locais de pegação. A revelação pública de que duas grandes estrelas haviam se amado. E tido um fim de romance dramático, é bem verdade, mas saber da existência desse amor infeliz era melhor que nada. Até as aproximava dos fãs, porque humanizava as duas divas —e mostrava que a vida real de cada admirador não era lá tão diferente assim.

O estilo de vida que por anos fez tão mal à cantora também lhe foi dialeticamente benéfico. Sua total franqueza diante da entrega aos próprios instintos e desejos a tornava uma espécie de anti-heroína que aumentavam sua mitologia. Angela exorcizava, de certa forma, questões muito caras ao público queer.

Em suas músicas, muita irreverência e amores proibidos —que, se em diversas ocasiões eram inespecíficas sobre um romance gay ou hétero, para bons entendedores não havia dúvida alguma. Fosse na inclusão de seu repertório de “Bárbara”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, ou “Cheirando a Amor”, de sua própria autoria.

Ela contava e cantava histórias de amores intensos, desesperados, sofridos. Mesmo diante do fim do mundo —na canção “Nosso Amor ao Armagedon”, o eu-lírico lésbico espera pela amante até após a Terra ser destruída, a qualquer momento, de qualquer maneira, mesmo “queimadinha de radioatividade”.

O trágico e o cômico andavam juntos em sua poética, e talvez por isso sua obra falava com tanta força à sensibilidade da comunidade queer, já historicamente acostumada a aproveitar ao máximo os momentos de prazer, diante da constante possibilidade da tragédia e do fim. Mas, sempre, com muito bom humor.

A entrega ao gozo e à autodestruição —desejo de vida e morte jorrando nas veias. Angela Ro Ro encarnou como nenhum outro artista brasileiro a essência de toda uma comunidade.



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