Em cartaz no Teatro da USP, releitura do mito grego aborda – sem o recurso da palavra – o corpo, a dor, a matéria e a morte
Por Manuela Trafane*

O ator Vinicius Torres Machado viu no guerreiro grego Filoctetes – que, de acordo com a mitologia grega, foi abandonado na ilha de Lemnos por causa de uma profunda ferida na perna – uma espécie de “herói inesperado”, alguém que lida diariamente com uma persistente dor, assim como o próprio ator, que convive com uma cicatriz na perna resultante de um câncer diagnosticado em 2005. Esse paralelo entre Filoctetes e Machado deu origem à peça Filoctetes em Lemnos, que estreia nesta sexta-feira, dia 12, na sala do Teatro da USP (Tusp) no Centro MariAntonia, em São Paulo.
A peça tem duração de cerca de uma hora. O único personagem é o herói grego Filoctetes, interpretado por Vinicius Machado, que fica o tempo inteiro em silêncio. A ausência de falas é um recurso cênico familiar para Machado e para a diretora da peça, Marina Tranjan. Já no curso de graduação em Artes Cênicas na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, eles se dedicaram a pesquisas sobre a expressividade no teatro para além do discurso falado. “Para nós, essa ausência da palavra é normal”, afirma Tranjan. “Acredito que o interesse por outras camadas de expressividade, outras formas de criar, já é parte de quem somos como artistas.”
Os poucos objetos espalhados pelo palco coberto de terra – uma mesa, uma cadeira e algumas plantas –, unidos a uma iluminação intensa e aos sons reproduzidos, passam a sensação de vazio, imitando uma ilha deserta. Com isso, o cenário contribui para dar a sensação de isolamento de Filoctetes em Lemnos.

A narrativa não segue necessariamente um sentido lógico. “Ela trabalha um universo mais voltado ao surrealismo, ao explorar imagens desconexas de uma pessoa em uma ilha”, conta Machado. Na peça, Filoctetes vive o seu cotidiano, tentando interagir com os elementos à sua volta: sente dor, bebe água e veste calça, mas na maior parte do tempo está nu.
O recurso à nudez tem como objetivo mostrar as cicatrizes do seu corpo. “Filoctetes tinha uma ferida, e eu também tenho uma ferida aberta, já há mais de 20 anos”, diz o ator, referindo-se a uma fístula causada por complicações da radioterapia. “Ver a ferida é quase como ver a morte, ela é a matéria ao avesso”, acrescenta, lembrando que essa exposição pode provocar certo desconforto no público por apresentar um “desafio à percepção”, já que ninguém quer ficar cara a cara com a morte.
Mesmo com esse desconforto, Marina Tranjan ressalta que Filoctetes em Lemnos não causa uma reação rápida, mas necessita de tempo para ser “digerida”. “As reações que ouvimos foram todas muito interessantes”, destaca a diretora. “Pelo fato de a peça não ser tão assertiva, as pessoas depois refletem muito sobre seus significados.”
Para contribuir com essas reflexões, depois de cada espetáculo o público recebe um livreto de 62 páginas com um texto de Vinicius Machado, intitulado Sobre Como Encenei Meu Pé. Nele, o ator conta a história de seu câncer, que dá à encenação uma nova perspectiva. “Sempre pensei que todos nós temos uma ferida sobre a qual o espírito se assenta”, escreve Machado no livreto. “A minha estava ali, bem onde meu corpo se assenta. Embaixo do ísquio.”

Herói de si mesmo
Filoctetes em Lemnos foi concebida quando Vinicius Machado estava na Dinamarca, em 2023, fazendo uma residência no Cross Pollination, um espaço internacional de pesquisa em artes que reúne pesquisadores de diferentes nacionalidades para desenvolverem seus trabalhos. No início, a obra foi apresentada como uma performance, que depois se transformou numa peça. Também em 2023, em coautoria com João Pedro Ribeiro, Machado escreveu o livro Em Tempo – Introdução à Performatividade na Grécia Antiga, o que fez com que ele, em contato com a mitologia grega, descobrisse na história de Filoctetes “um espelho” da sua própria imagem.
Citado na Ilíada e na Odisseia – os dois monumentos da literatura grega antiga atribuídos a Homero –, o mito de Filoctetes foi levado aos palcos por dramaturgos de diferentes épocas e origens, entre eles o grego Sófocles, do século 5 antes de Cristo, e o alemão Heiner Müller (1929-1995). “No imaginário popular, um herói é aquele ser inatingível, que salva os outros, mas Filoctetes é o herói de si mesmo. Os guerreiros que abandonaram Filoctetes em Lemnos não suportavam seus gritos de dor, o cheiro da ferida, a morte escancarada. Por estarem indo para a guerra, queriam negar a presença da morte”, destaca Machado. “Quando tive câncer, eu falava que era como ser o herói de mim mesmo.”
A peça Filoctetes em Lemnos fica em cartaz de 12 de setembro a 5 de outubro, sempre às sextas-feiras e sábados, às 20 horas, e domingos, às 19 horas, na sala do Teatro da USP (Tusp) instalada no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Os ingressos devem ser retirados no local a partir de uma hora antes da sessão. Mais informações estão disponíveis no site do Tusp.
* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro


