quarta-feira, março 18, 2026
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uma homenagem ao colega que partiu – Jornal da USP


Na manhã de quarta-feira, 10 de setembro, recebi a notícia de que meu colega, com quem dividia a rotina, havia falecido subitamente. Clayton Augusto Pinto era Técnico para Assuntos Administrativos na Superintendência de Comunicação Social da USP, assim como eu. E eu não conhecia ele.

Antes que a declaração soe deselegante, esclareço: esse “não conhecia” não carrega um sentido adversativo. Pelo contrário, trata-se de uma estranha constatação que me ocorreu algumas horas após a notícia, quando vi outro colega, com os olhos marejados e a voz embargada, contestar a informação que acabara de ouvir.

“Ele conhecia o Clayton”, pensei. Para conhecer e gostar de alguém, não é necessário um grande grau de intimidade, mas certamente a intimidade ajuda. Nos mais de dez anos em que compartilhamos o mesmo ambiente de trabalho, Clayton sempre esteve entre os colegas mais educados com quem convivi. Sua primeira reação ao encontrar qualquer pessoa era abrir um sorriso, seguido de um cumprimento e, quando o tempo permitia, de uma risada contida.

O tempo, porém, quase nunca permitia que ele se perdesse em conversas comigo. Minha percepção era de que seu trabalho, enquanto funcionário administrativo, era ingrato. Quem conhece o universo do funcionalismo público sabe: lidar com licitações, contratos e assuntos de infraestrutura não costuma ser tarefa que arranque sorrisos.

Clayton carregava a responsabilidade de garantir que o espaço estivesse adequado, a equipe equipada e os contratos assinados em tempo hábil. Qualquer atraso – muitas vezes motivado pela burocracia que sustenta os serviços públicos – recaía sobre seus ombros. E, encarnando o princípio da impessoalidade, ele mantinha discrição diante de tudo o que escapava ao seu alcance.

Como muitos trabalhadores invisíveis das estruturas públicas, Clayton tinha um poder que nunca o beneficiava. Lembro de um encontro remoto de funcionários em que, distraído no fundo da sala, vi ele anotando com cuidado as falas do palestrante. Eram informações que, de fato, diziam mais respeito ao trabalho dele do que ao meu. Ainda assim, me impressionava perceber que, depois de 23 anos dedicados à Universidade, ele mantinha a humildade de saber que sempre havia algo novo a aprender sobre um trabalho que já fazia há tanto tempo.

Ainda que sinta que não conhecia Clayton, eu o admirava como colega que desempenhava um trabalho difícil, sem vaidade. Mas, preso às amarras invisíveis da burocracia, nunca encontrei tempo para me aproximar. O tempo que, nas brechas do expediente, nos permite descobrir quem são de fato nossos colegas. Saber o que o outro gosta (especialmente, fora do trabalho) é o melhor atalho para construir relacionamentos.

Naquela manhã, diante da morte, pensei com meus colegas que ela não acontece com quem partiu. No sentido de que o verbo “acontecer”, aplicado à vida, exige consciência. E, na morte, pelo que sabemos, a consciência se extingue. Assim, a morte de alguém próximo acontece apenas para os que ficam.

É com eles que permanece a ausência. Uma ausência que passa a ocupar espaço no ambiente de trabalho. Diante disso, o que cabe a nós, que continuamos, é lembrar que, em vida, sempre há tempo de conhecer melhor nossos pares. E de gostar deles.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



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