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como Recife e Londres se planejam para enfrentar as enchentes? – Jornal da USP


Estudo realizado na USP comparou as ações das duas metrópoles e identificou que apenas a capital pernambucana se planeja com base na justiça climática

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Em 2022, as chuvas em Recife causaram deslizamentos e alagamentos que resultaram em 144 mortes – Foto: Clauber Cleber Caetano/PR/CC BY 2.0

 

Separadas pelo Oceano Atlântico e localizadas em hemisférios diferentes, Recife e Londres têm algo em comum. As duas cidades estão passando por enchentes e ondas de calor cada vez mais intensas. Porém, enquanto Recife fala em justiça climática no seu planejamento urbano, Londres não leva em conta a questão da pobreza como algo relevante nos planos de adaptação à mudança do clima. A análise vem da tese de doutorado de Marcos Tavares, doutor em Ciência Ambiental pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP. Ele alerta: enquanto Londres não melhora os planos de redução de alagamentos, a metrópole britânica caminha para se tornar tão vulnerável a esses eventos quanto a capital pernambucana.

A justiça climática é um conceito que busca garantir que as respostas à crise do clima sejam equitativas, inclusivas e protejam as populações mais vulneráveis e historicamente marginalizadas, como pessoas negras, indígenas e ribeirinhas, que sofrem os impactos da mudança climática de forma desproporcional.

Selfie do peqsuisador Marcos. Ele é um homem negro, de olhos castanho-escuros, barba e bigode e cabelo pretos. Seu cabelo é curto e liso e está penteado para o lado. Ele sorri.
Marcos Tavares de Arruda Filho – Foto: Lattes

Tavares estuda mudanças climáticas há 15 anos. Segundo ele, é preciso pensar no fator humano desses estudos, porque as pessoas não são atingidas igualmente pelos eventos de risco. “A justiça climática é como uma junção da justiça social com esse elemento climático. As injustiças sociais são potencializadas pela questão climática. Não aumentadas, mas agravadas”, explica o cientista.

A tese de Marcos Tavares compara as reações aos eventos do clima das duas cidades, estuda como a justiça climática aparece em diferentes lugares e como os governos lidam com os grupos mais vulneráveis aos extremos do clima. Tavares considera o tema de suas pesquisas complexo, já que é preciso passar por várias áreas do conhecimento para esgotar o assunto. Então, no percurso do doutorado, ele investigou sites acadêmicos, analisou leis, entrevistou pessoas e usou biologia misturada com ciências sociais.

Recife: uma cidade sob águas

Recife fica em uma planície de inundação, que é um terreno pouco inclinado e formado pelos sedimentos trazidos por rios. Como o próprio nome diz, a geografia da cidade e seus mais de 100 corpos d’água fazem com que ela tenha tendência a inundar. Isso, somado a um mau planejamento urbano, torna o local uma área de alta vulnerabilidade a extremos do clima.

A fragilidade do local a esses fenômenos é tanta, que pesquisas acadêmicas, órgãos do governo e jornais atribuem a Recife o lugar de 16ª cidade mais vulnerável a eventos climáticos do mundo. Mas uma investigação do pesquisador chegou à conclusão de que essa informação é falsa. O dado geralmente é creditado ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) ou ao relatório de 2014 do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), instituições que não fazem esse tipo de ranking. “Eu descobri que essa informação é, na verdade, um grande telefone sem fio”, diz o especialista.

O mal-entendido não descarta as crises que a cidade enfrenta quando a chuva cai. Tavares mora em Recife e estava lá em 2022, quando fortes chuvas e deslizamentos resultaram em 144 mortes e deixaram 122 mil pessoas desalojadas. O desastre aconteceu anos depois da criação do Plano Local de Ação Climática do Recife (Plac-Recife), em 2020. De acordo com a tese, o plano foi o primeiro do Brasil a ter justiça climática como base, mas falhou durante a elaboração ao não dialogar diretamente com a população mais atingida pelos eventos extremos no dia a dia.

“Houve um período de boom, com várias políticas públicas, vários estudos, a prefeitura participando de vários eventos sobre mudanças climáticas. Depois, isso foi se diluindo e simplesmente sumiu. Agora, o Plac não tem mais um amparo”, comenta Tavares. Nas entrevistas, ele ouviu relatos de pessoas que moravam em áreas de morro e que ainda não conseguiram voltar às suas casas após o desastre de 2022.

Londres: justa demais para pensar em justiça?

O mapa mostra a divisão entre os países do Sul Global, em laranja, e do Norte Global, em azul. O sul envolve as Américas do Sul e Central, a África, a Ásia e algumas ilhas da Oceania. Já o Norte envolve a América do Norte, a Europa, a Rússia, a Austrália e a Nova Zelândia. Há algumas exceções, como o Japão, que é do Norte Global.
Mapa com a divisão dos países do Norte Global, em azul, e do Sul Global, em laranja – Imagem: Criada com MapChart

 

Tavares concluiu que Londres não adota a justiça climática como parte de seu plano do clima, o Climate Emergency Action Plan, de 2022. Segundo o pesquisador, a cidade é uma das mais resilientes aos eventos climáticos, mas também uma das mais vulneráveis a eles. Ele estudou o local durante sua estadia em 2023 no Reino Unido, onde realizou um doutorado sanduíche na University of Surrey.

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Londres tem sofrido com alagamentos nos últimos anos, que vêm tanto da chuva quanto do mar, por conta do aumento do nível do oceano. Calor e frio extremos também são questões que causam preocupação: entre 23 de junho e 2 de julho deste ano, a cidade registrou 263 mortes por ondas de calor, segundo o jornal Independent. Ainda de acordo com um levantamento de 2024, do Departamento de Trabalho e Previdência do Reino Unido, mais de 30% das crianças britânicas vivem em situação de pobreza relativa.

Recife e Londres têm elementos em comum em seus planos de emergência do clima, como redução de desigualdades, sustentabilidade e adaptação. Algumas divergências indicam as diferenças de realidade entre os locais, como a preocupação com saneamento básico, que só aparece no documento brasileiro, ou a adaptação às ondas de frio no Reino Unido. Uma questão exclusiva da região pernambucana, que chama a atenção do cientista, é a justiça social.

Dentro dos limites do seu estudo, o especialista percebeu que “justiça climática não é uma preocupação [no Norte Global] dentro do âmbito de gestão municipal. Não se fala em pobreza, por exemplo, em mudanças climáticas. A preocupação é se as ruas vão alagar ou não, se vai ter quantidade de mortos por ondas de calor”. Segundo Tavares, os países desenvolvidos veem a justiça social como uma “política internacional para salvar o mundo”, que aparecem em suas pesquisas, mas não são discutidas na política interna.

Quem vai por água abaixo?

Tavares explica que os morros de Recife “são diferentes, por exemplo, de aglomerações urbanas como a Rocinha, que são em morros também, mas que duram muito tempo. Cai uma chuva e aquela rocha se mantém. No caso de Recife, não tem essa sustentação, então a tendência é que os morros se dissolvam”, explica. Dependendo de onde se mora, as consequências dos eventos do clima podem ser mais intensas e mais prolongadas.

As áreas com maior risco de desabamento são ocupadas, em sua maioria, por pessoas de baixa renda. É essa mesma população que tem menor capacidade de se recuperar após as inundações, que ocupam quase toda a cidade. Além da distribuição de renda, pessoas LGBTQ+, por exemplo, “têm uma vulnerabilidade maior de compor a população em situação de rua, de serem colocadas para fora de casa. Isso aumenta, também, a vulnerabilidade. A população em situação de rua é a mais vulnerável que temos na sociedade”, comenta o estudioso.

A foto mostra uma rua totalmente alagada, com dois carros submersos até a altura dos pneus. O local é rodeado por árvores. Ao fundo, há uma ponte. Em primeiro plano, uma placa com um triângulo vermelho e um ponto de exclamação no centro diz "road liable to flooding", que significa "estrada sujeita a inundações".
Em 5 de maio de 2012, a maré alta inundou o bairro londrino de St. Margarets, no distrito de Richmond, à beira do Rio Tâmisa – Foto: Maxwell Hamilton/Flickr

 

Essas desigualdades não só aparecem entre regiões de cidades, como também se estendem para a escala global. Os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, como o Brasil, são os que mais sofrem com as mudanças climáticas, mas o Norte Global é o maior responsável pela crise do clima.

Contraditoriamente, foi no Norte Global que surgiu o conceito de justiça climática. “Na Primeira Cúpula Nacional de Liderança Ambiental para Pessoas de Cor, ocorrida em 1991, em Washington D.C., foram criados 17 princípios de Justiça Ambiental, sendo o primeiro deles o da afirmação da Sacralidade da Mãe Terra”, escreve Tavares.

 

*Estagiária sob supervisão de Antônio Carlos Quinto e Silvana Salles



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