O painel, lançado pelo governo do Estado de São Paulo, se vale de dados em tempo real para realizar um melhor controle e prevenção da saúde das comunidades

Foi lançado recentemente pelo Governo de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (SES), o painel de monitoramento de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA), que permite acompanhar em tempo real o número de surtos de DTHA no Estado, o total de pessoas doentes, a distribuição espacial, as prováveis fontes de contaminação (água, alimento ou ambos) e os principais fatores associados. O painel visa a reforçar a transparência e o papel da vigilância dessas enfermidades ao disponibilizar informações de fácil acesso para a população.
A professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, Maria Tereza Razzolini, diz que “as doenças de veiculação hídrica ou de transmissão hídrica são aquelas em que as águas, inclusive as residuárias, transmitem ou veiculam micro-organismos patogênicos e a via de exposição é a ingestão dessa água contaminada com esses patógenos. A transmissão por alimentos também acontece, especialmente os que são consumidos crus. Uma coisa que é importante ressaltar e comentar é que a nossa cobertura de coleta e tratamento de esgotos ainda é bastante baixa e esse cenário se dá em todo o território brasileiro.”

Ela prossegue :“Esse cenário favorece a disseminação de patógenos de veiculação hídrica, tanto em águas para consumo humano quanto para recreação de contato primário. Os patógenos podem ser bactérias, como, por exemplo, Salmonella não tifóide, Escherichia coli, Enterococcus, os vírus, como o vírus da hepatite A, os adenovírus e o norovírus, inclusive esse último responsável pelo surto recente na Baixada Santista, e protozoários, como Giardia, Cryptosporidium, Toxoplasma e também parasitas como ascaris. Considerando a transmissão por alimentos, além dos patógenos já citados, pode adicionar a bactéria Listeria. Essa transmissão pode ser tanto, por exemplo, por serem irrigadas com fontes de água contaminada, mas também devido a sua manipulação, seu preparo e também armazenamento inadequado”, completa Maria Tereza.
A vigilância dessas doenças é fundamental para proteger a saúde, permitindo a detecção de surtos, identificação de agentes etiológicos, orientação de medidas preventivas e regulatórias. Assim, os sistemas de vigilância integrados são essenciais para aumentar a sensibilidade e a rapidez na resposta a esses eventos.
Condições de saneamento básico no País e objetivo do painel
Do ponto de vista da gestão pública, a professora Ana Paula Fracalanza, do Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, comenta a respeito do que essas doenças revelam sobre as condições de saneamento básico e as desigualdades sociais no País, e qual é o principal objetivo do painel. “Os surtos das doenças de transmissão hídrica e alimentar estão diretamente associados a condições de saneamento, como acesso à água tratada e a esgotamento sanitário. Assim, são áreas, na sua maioria, onde há populações vulnerabilizadas e marginalizadas, com condições precárias de saneamento, que estarão sujeitas a maior número de surtos dessas doenças.”

“De acordo com o próprio Governo do Estado de São Paulo e também pelos dados divulgados no painel, o objetivo principal é a transparência, com a divulgação de dados sobre doenças de transmissão hídrica e alimentar para a população. É aquilo que chamamos de transparência ativa, quando os dados são disponibilizados de maneira espontânea, nesse caso, pelo Governo do Estado de São Paulo”, afirma Ana.
O painel faz parte da iniciativa Núcleo de Informações Estratégicas em Saúde (NIES), do Governo de São Paulo, que reafirma o compromisso da gestão com a transparência. Além disso, a população pode acessar informações sobre coberturas vacinais, atendimentos realizados nos programas de Saúde Digital Paulista, casos de doenças e outras informações, através dos painéis de dados.
Utilização do painel para combater as DTHA
As informações fornecidas pelo painel são essenciais para a elaboração de medidas para minimizar o impacto dessas doenças. “Facilitam a elaboração de medidas de prevenção e proteção à saúde, pois possibilitam tomadas de decisão mais focadas. Além disso, essas informações podem balizar a mobilização de recursos para o controle e a mitigação de riscos, contribuindo para a redução da incidência de doenças e assim proteger a saúde da população, especialmente daquelas mais vulnerabilizadas. Enfim, esse painel deve fortalecer as atividades e ações das vigilâncias ambiental, epidemiológica e sanitária, para se desenhar estratégias de prevenção e proteção e promoção em saúde “, diz a professora de saúde pública.
É essencial pensar também em uma articulação entre as secretarias de saneamento, saúde e meio ambiente do Estado, uma integração horizontal, onde ocorra a fusão de serviços e unidades de saúde de mesma natureza ou especialidade, para pensar em soluções para essas problemáticas. “O importante é estabelecer como prioridade questões vinculadas à saúde pública, como saneamento básico e a saúde das populações mais pobres. Assim já se tem um bom caminho para minimizar os surtos de doenças de transmissão hídrica alimentar para essas populações, unindo, além da questão de saúde pública e saneamento ambiental, a questão de preservação dos ecossistemas, preservação ambiental também”, finaliza Ana Paula.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
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