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Pesquisas buscam mapear relação entre hanseníase e caça ilegal de tatus no Brasil


  • O Brasil é o segundo país do mundo em número de casos de hanseníase, ficando atrás apenas da Índia. Apesar da alta prevalência da doença, cientistas desenvolvem novas pesquisas para mapeá-la com maior precisão.

  • Um dos principais objetivos dos novos estudos é comprovar a característica zoonótica da enfermidade, que pode ser transmitida aos humanos que caçam tatus selvagens ilegalmente e manipulam a carne do animal para o consumo.

  • Um estudo publicado em maio com participação de pesquisadores brasileiros forneceu dados que revelam “forte associação” entre o contato direto com tatus e o risco elevado de contrair hanseníase no Brasil.

  • A pesquisa, que serviu de base para um novo projeto multinacional financiado pela Leprosy Research Initiative, dos EUA, também reforça o papel da conservação para conter a disseminação de doenças zoonóticas, encorajando novas diretrizes ambientais e sanitárias no país.

Segundo registros históricos, a lepra acomete os seres humanos há milhares de anos, com referências diretas à doença encontradas até em passagens bíblicas. A dúvida que persiste, e ainda gera discussões no presente, diz respeito à origem da enfermidade — ainda é incerto para a ciência se ela veio da Ásia ou da África.

Seu nome moderno, porém, tem uma história bem rastreável. Em 1873, o médico norueguês Gerhard Armauer Hansen identificou o bacilo causador da lepra, chamado Mycobacterium leprae. Assim, a doença foi rebatizada em homenagem ao pesquisador, tornando-se conhecida na literatura científica como “hanseníase”.

Mais de um século e meio após a descoberta de Hansen, seus achados seguem em pauta no Brasil por estarem no centro de uma crise de saúde pública: o país é o segundo em número de casos registrados da doença, ficando atrás apenas da Índia.

Parte do problema está na transmissão, que ocorre quando as vias respiratórias são atingidas por gotículas de saliva de indivíduos infectados. A propagação desses fluidos corporais, por sua vez, costuma ser facilitada pela tosse e pelo espirro.

A bactéria é silenciosa, o que dificulta sua detecção: o microrganismo pode levar anos — ou até mesmo décadas — para se manifestar. Uma vez ativo, afeta os nervos periféricos e a pele, podendo causar manchas, lesões, formigamento e até a perda de sensibilidade em algumas partes do corpo.

Uma outra dúvida paira sobre a hanseníase. Apesar de muitos indícios apontarem para essa direção, a ciência brasileira ainda não encontrou consenso para classificá-la como uma zoonose — uma vez que episódios de transmissão ainda são considerados anômalos e bastante localizados.

Agora, novos estudos buscam ligar os pontos para ampliar o escopo de classificação, o que pode ser crucial para a criação de estratégias de prevenção em todo o território brasileiro.

Brasil vai atrás dos caminhos da hanseníase

Em regiões tropicais, evidências científicas mostram que diferentes espécies de tatus — como o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), o tatu-peba (Euphractus sexcinctus) e o tatu-bola-da-caatinga (Tolypeutes tricinctus) — atuam como “reservatórios zoonóticos”. O termo é utilizado para definir indivíduos que carregam organismos patogênicos — em muitos desses casos, os que causam a hanseníase.

Esses organismos se tornam vetores infecciosos em um processo conhecido como spillover, ou infecção por transbordamento. No caso dos tatus, o conteúdo infectado que transportam pode “saltar” para os seres humanos pelo contato físico durante a caça. Os riscos aumentam durante o manejo e o consumo da carne contaminada do animal abatido. Em certas áreas rurais do Brasil, é costume comer de tatu.

Tatu-bola-da-caatinga (Tolypeutes tricinctus) capturado durante pesquisa de campo em Sumidouro, próximo à Chapada Diamantina, no estado da Bahia. Foto: Olívia dos Anjos/Instituto Tamanduá.

Apesar de ser uma prática comum no país, a caça de tatus é proibida em todo o território nacional e pode ser punida com multas e até prisão. As penas variam entre seis meses e um ano de detenção, ao passo que as punições financeiras podem chegar a 5 mil reais caso o delito envolva uma espécie ameaçada.

“Alguns estudos demonstraram a existência de transmissão zoonótica entre tatus e humanos nos Estados Unidos. Entretanto, no Brasil, não foram feitas até agora pesquisas que realmente comprovassem [essa relação]”, disse a bióloga e ecóloga molecular Naiara Sales, brasileira que atua na Universidade de Salford, no Reino Unido.

“Detectou-se a bactéria nos tatus. Porém, não foi possível dizer se a mesma bactéria que ocorre nesses animais também é vista nos humanos. Assim, surgiu a pergunta: isso é ocasional? Ou será que há transmissão zoonótica?”, disse Sales.

As doenças zoonóticas são aquelas transmitidas entre animais e humanos. Elas também podem ter apenas origem zoonótica — quando vêm de algum organismo patogênico presente em animais, saltam para o corpo humano, mas, depois de se estabelecerem ali, não requerem mais a presença do hospedeiro.

Segundo Paula Prist, bióloga e coordenadora na União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a investigação dessas doenças é crucial para seu devido mapeamento e para que a ciência se antecipe a surtos de transmissão.

“Se há um novo patógeno — como a covid-19, por exemplo, que era desconhecida [antes da pandemia] —, deve-se investigar suas origens: quem é o reservatório, quem é o hospedeiro e como ocorreu a transmissão. Se é uma zoonose conhecida, há um monitoramento para observar potenciais surtos que podem voltar a ocorrer, ou mesmo começar a ocorrer, em uma nova região”, disse Prist à Mongabay.

Nesse sentido, pelos próximos três anos, pesquisadores de várias instituições de 10 países — entre eles, o Brasil — vão desenvolver projetos de pesquisa financiados pelo Leprosy Research Initiative, dos Estados Unidos, para identificar a condição zoonótica da hanseníase em território brasileiro.

Iniciada em abril, a iniciativa estabelece uma rede colaborativa para obtenção de amostras de carcaça e de sangue de espécies de tatus em todo o Brasil. Os elementos coletados passarão por análise para detectar possíveis bactérias.

“Queremos fazer o sequenciamento genômico [da bactéria]. Portanto, buscamos informações não apenas sobre um fragmento de seu genoma, mas outros dados extensos. Adiante, faremos uma análise comparativa com as bactérias que são detectadas em humanos. É por meio dessa similaridade genética que será possível entender se realmente há transmissão zoonótica ou não”, disse Sales, que integra a equipe de cientistas à frente do novo projeto.

De acordo com a pesquisadora, o trabalho pode tirar conclusões importantes para a ciência nacional. “A hanseníase ainda é considerada uma doença não zoonótica no Brasil. Há correlação, há indícios [dizendo o contrário], mas não há evidências concretas.”

Pesquisadores coletam material biológico de um tatu-bola-da-caatinga no estado da Bahia. Foto: Olívia dos Anjos/Instituto Tamanduá.

Novas descobertas podem auxiliar medicina

Especialistas dizem que a comprovação dos aspectos zoonóticos da hanseníase pode, entre outros fatores técnicos, resultar em diagnósticos e tratamentos mais precisos.

“É uma doença difícil de se diagnosticar. Às vezes, algumas pessoas têm sintomas, até mesmo na fase mais avançada, mas há poucos indícios [das formas de contágio]”, descreve Sales. “Saber das relações entre a doença e a caça pode ajudar agentes de saúde a suspeitar [dessa forma de transmissão]. Eles poderão perguntar se a pessoa tem relação com a prática ou se convive com alguém que a exerce.”

Segundo a bióloga, isso permitirá que pacientes iniciem os tratamentos com mais agilidade — o que pode ajudar a “interromper os ciclos de transmissão”, disse.

Publicado em maio de 2025, um dos estudos que embasou a criação do novo projeto sobre a zoonoticidade da hanseníase no Brasil envolveu pesquisadores brasileiros e estrangeiros de diversas instituições, incluindo a Universidade Federal de Rondônia, a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas), entre outros.

Por meio de análises biogeográficas, que mostram como a caça ilegal contribui para a prevalência da doença, cientistas buscam fornecer dados para que órgãos de saúde atuem em pontos críticos de contaminação.

De acordo com a investigação, vários estudos de caso “mostraram consistentemente uma forte associação entre o contato direto com tatus selvagens e um risco elevado de contrair hanseníase, especialmente entre caçadores e consumidores desses animais”.

O estudo analisou cerca de 326 mil casos de hanseníase notificados no Brasil pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2013 e 2022, cruzando essas informações com dados da caça de 554 tatus selvagens em 175 municípios. Para o mapeamento completo, a pesquisa utilizou registros de atividades de caça nas redes sociais.

Post em grupo sobre caça no Facebook

A bactéria M. leprae foi detectada em 376 tatus, coletados em 97 municípios, resultando em uma prevalência de 38,5%. “Os dados foram usados para construir modelos espaciais que avaliam o risco de infecção relacionado à caça, sendo integrados como variável em um modelo linear, juntamente com fatores socioeconômicos, climáticos e ambientais, para avaliar seus efeitos na prevalência da hanseníase humana”, descreve a pesquisa.

Dados de desnutrição, densidade populacional, cobertura natural de vegetação, condição socioeconômica e até a variação de chuvas em diferentes regiões foram considerados.

Pesquisadora em Ecologia e Saúde Pública em Málaga, Alisa Aliaga-Samanez, uma das coautoras do material, disse à Mongabay que os resultados podem criar ferramentas técnicas importantes para diversos países das Américas onde há incidência de casos de hanseníase.

“Criar esses modelos foi importante para todo o continente, principalmente para o Brasil. Antes do estudo, não havia uma ideia clara sobre se a caça era realmente uma via de transmissão tão significativa.”

Conservação é peça-chave para combater contaminações

A pesquisa mostra que os fatores que mais contribuem para a existência da caça aos tatus são a alta densidade populacional e a disponibilidade para a posse de armas de fogo. O estudo também destaca a degradação ambiental como um fator capaz de “amplificar riscos de infecção”.

A contaminação pela caça ao animal aparece como o segundo maior indicador da prevalência da hanseníase humana, representando cerca de 25% dos casos em todo o Brasil. O número, no entanto, sobe para 40% em áreas com “alto índice de desmatamento”.

As conclusões fortalecem evidências prévias sobre como alterações no habitat, como o desmatamento e a conversão de biomas em pasto, podem aumentar a exposição humana à vida selvagem potencialmente infectada.

Tatu-peba (Euphractus sexcinctus) caminhando à noite em região de mata em Petrolina, Pernambuco. Foto: Adeilson Melo, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Segundo os especialistas, as novas pesquisas buscam estimular a revisão de políticas públicas nacionais, de forma a reduzir a caça ilegal e aumentar a vigilância sanitária em áreas de risco. A disseminação de informações científicas sobre os riscos zoonóticos também mira o combate a prováveis quadros de subnotificação de casos de hanseníase no Brasil.

Para Paula Prist, da IUCN, a preservação da biodiversidade é indispensável para evitar que novos organismos patogênicos entrem em contato com o ser humano, uma vez que cerca de 75% das doenças emergentes infecciosas documentadas são originárias de animais silvestres, explica.

“Geralmente, novas doenças surgem quando há contato entre os seres humanos e os animais. A biodiversidade, assim, funciona como uma proteção: quanto mais biodiversa a área, menor a abundância de espécies que são reservatórios [zoonóticos] e menor a prevalência dos patógenos que carregam. Quando uma área é desmatada, espécies que transmitem doenças podem ser ‘selecionadas’ — assim, tornam-se dominantes junto de seus patógenos.”

Em todo o mundo, o conceito de “saúde única” tem ganhado reconhecimento. Segundo essa abordagem, há uma conexão entre a saúde humana, animal e ambiental. Estruturadas sobre um mesmo pilar, essas três frentes precisam de proteção para que haja equilíbrio.

“A crise climática é algo sério. Vai ser catastrófico para a nossa saúde. Estamos indo para um caminho em que esses patógenos vão ficar cada vez mais comuns e vão apresentar riscos maiores. Não estamos preparados para isso”, disse Prist.

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Imagem do banner: Tatu-galinha (Dasypus novemcinctus) em um parque em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Foto: Jair da Costa Moreira, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons







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