segunda-feira, março 16, 2026
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Uma das principais divulgadoras do País, Sabine Righetti fala sobre os desafios de comunicar a ciência – Jornal da USP


Entre os 15 maiores produtores de ciência do mundo, o Brasil ainda sofre com um paradoxo: gera cerca de 100 mil artigos científicos por ano, mas a população pouco conhece essa produção. Quem faz essa avaliação é a jornalista, pesquisadora e professora doutora da Universidade de Campinas (Unicamp) Sabine Righetti, uma das principais vozes da divulgação científica no Brasil.

Para ela, a espinha dorsal dessa explicação está na comunicação – ou na ausência dela: sem receber informação de pesquisa a sociedade não apenas desconhece a ciência brasileira como não se conecta com ela e com quem a produz. O resultado é a falta de valorização das instituições de pesquisa e o aumento do negacionismo. “Precisamos mudar a forma com que se faz ciência. A comunicação tem que ser parte da produção científica. É preciso pensá-la a partir do momento da pergunta de pesquisa, da submissão do projeto”, diz.

Fundadora e coordenadora da Agência Bori e membro-presidente do Conselho Consultivo do Ranking Universitário Folha (RUF Folha), Sabine foi convidada a ministrar a aula inaugural da disciplina Divulgação Científica para Pesquisadores. A formação está sendo oferecida neste semestre pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP, em parceria com a Escola de Comunicações e Artes (ECA), a Superintendência de Comunicação Social (SCS) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA).

Nesta entrevista ela defende a criação de cursos como esse em todas as universidades do País, para que pesquisadores sejam treinados a falar com a imprensa, a se comunicar com a sociedade e a entender a importância da divulgação de seus trabalhos. Também comenta a tendência de mudança no processo de avaliação da pesquisa e iniciativas que podem ajudar a ampliar o impacto social e econômico da produção científica. “Para a pesquisa chegar em uma tomada de decisão, em um projeto de lei, é preciso se comunicar de maneira estratégica com cada interlocutor. Não podemos esperar que o tomador de decisão vá ler o artigo científico. Isso jamais irá acontecer”, afirma.

Confirma a entrevista na íntegra:

Para divulgar a pesquisa brasileira a Agência Bori realiza mapeamentos periódicos da produção científica nacional. Com esses dados você pode traçar um perfil da ciência no Brasil? Quem e onde se produz, o que mais se pesquisa?

Sabine Righetti: A ciência brasileira é gigante. Considerando artigos científicos com pelo menos uma pessoa ligada a uma instituição de pesquisa do Brasil, estamos entre os 15 maiores produtores do mundo. Traduzindo em números, em 2024 produzimos cerca de 100 mil artigos científicos. Isso é muita, muita coisa.

Nossa produção é distribuída em todas as áreas do conhecimento, mas é mais forte em saúde pública – desde nutrição, enfermagem, doenças tropicais, odontologia etc. – e meio ambiente – biodiversidade, Amazônia e outros biomas. Outra característica é que cerca de um terço da produção científica é publicada em periódicos científicos editados no Brasil, mantidos com recursos públicos. Nós produzimos e publicamos ciência sobretudo com recursos públicos.

Em termos de gênero, há um equilíbrio atualmente: mais ou menos metade homem, metade mulher – considerando o gênero de maneira binária, a partir dos nomes de quem publica os artigos científicos. O mesmo não se pode dizer em termos regionais. Temos uma concentração gigantesca na região Sudeste, principalmente no Estado de São Paulo. Quase metade da produção científica brasileira está aqui, muito carregada pela USP, seguida pelas outras duas estaduais paulistas e as três federais. Essa desigualdade regional na produção científica reflete muito o grau de institucionalização das universidades: as mais antigas produzem e conseguem ter mais fôlego institucional.
Em termos de raça, não conseguimos saber como é a distribuição da produção científica porque esses dados não existem. Não dá para atribuir raça ou identificá-la a partir dos nomes nos artigos. Algumas editoras internacionais têm começado a coletar esses dados, mas eles não são de preenchimento obrigatório, então sempre tem um número grande de não resposta. Aqui, o país simplesmente não sabe como é a produção científica em termos de raça.

Apesar de o Brasil ser um dos maiores produtores de ciência do mundo, os brasileiros conhecem muito pouco sobre a pesquisa nacional. Por quê?

SR: Esse é um dos dados que mais me chocam. Estamos entre os 15 maiores produtores de ciência do mundo, mas a população não sabe disso. As pesquisas periódicas de percepção pública da ciência, feitas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e parceiros, mostram que a maioria da população não sabe dizer o nome de um cientista ou de uma cientista. Quando diz, menciona cientistas que já morreram há muito tempo, como Oswaldo Cruz, Santos Dumont. As pessoas também não conseguem mencionar o nome de instituições de pesquisa; pouquíssimas são lembradas – é o caso da USP, Fiocruz, Instituto Butantan. Ou seja, não há uma conexão com o que está sendo produzido hoje: 95% da produção científica brasileira é feita em universidades públicas, mas praticamente só a USP é lembrada.

Isso se deve a uma série de fatores, mas a espinha dorsal dessa explicação está na comunicação. Só podemos falar sobre aquilo que alguém nos informou. E o principal: não se trata só de saber que existe, mas também de se conectar com aquela instituição, conhecer um cientista e valorizar o que essa universidade faz, se interessar por isso, se engajar. E aí, se houver algum tipo de ameaça, algum tipo de sinalização de corte de recurso, as pessoas vão se manifestar. Isso porque “ficaram sabendo”, se conectaram, valorizaram.

A comunicação não é um caminho unilateral. O que vemos hoje se deve à própria construção da institucionalização da pesquisa no Brasil, em que a comunicação não faz parte do dia a dia. Comunica-se se sobrar tempo, se sobrar recurso. E, caso isso não aconteça, está tudo certo. Os indicadores olham para número de artigos científicos, não para se esses artigos estão sendo comunicados para a sociedade, por exemplo.

Como mudar esse cenário?

SR: Para conseguir romper essa desconexão e, de fato, se conectar com a sociedade precisamos mudar a forma que se faz ciência. A comunicação tem que ser parte da produção científica. É preciso pensá-la a partir do momento da pergunta de pesquisa, da submissão do projeto.

Mesmo que depois a estratégia de divulgação seja das equipes de comunicação das universidades (quando elas existem, porque no Brasil a maioria delas não tem jornalistas, ou no máximo tem um ou dois), o cientista é um elemento-chave. É ele que tem a informação da pesquisa, que sabe o momento de divulgá-la. E ele tem que saber como falar com a imprensa.

Por isso iniciativas como a disciplina que a USP está oferecendo, de comunicação para pesquisadores, é fundamental – e raríssima. Eu nunca tinha visto uma iniciativa como essa no Brasil. Essa preparação do pesquisador tem que ser feita de maneira institucional, periódica, com todos os perfis de pesquisadores da instituição, de todas as áreas do conhecimento.

A sociedade entende as universidades como instituições apenas de ensino e não como também de pesquisa?

SR: O que a gente observa é que as pessoas mencionam atividades de ensino porque, de alguma maneira, ouviram falar ou têm alguém da família que está prestando vestibular, Enem. Muitas vezes também mencionam os serviços, como um hospital daquela instituição. O vestibular tem todo ano, mas a pesquisa é como se fosse uma coisa que está rondando, mas ninguém entende direito o que faz.

Sempre lembro de uma conversa que tive quando fui para Natal e peguei um táxi a caminho da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Perguntei para o taxista o que se faz lá na universidade e ele falou: “Ah, eu não sei o que faz, mas eu acho que faz coisa muito importante”. É uma coisa desconectada, encastelada. É muito grave. Eu acho que isso tinha que estar na preocupação principal das universidades.

Como o aumento do negacionismo da ciência e a rejeição às universidades públicas, ambos os fenômenos crescentes na última década, estão relacionados a essa desconexão? É possível resgatar a confiança nessas instituições?

SR: Esse movimento do negacionismo, da desinformação é muito complexo. Ano passado publiquei um livro chamado Negacionismo científico e suas consequências, no qual eu e o Estevão Gamba, coautor, tentamos entender o que está acontecendo, sobretudo depois da pandemia. O que observamos é que negar a ciência muitas vezes não tem a ver com a ciência em si, ou seja, negar a vacina ou negar que as mudanças climáticas têm sido causadas pelo homem, por exemplo. Tem a ver com pertencer a um grupo com o qual a pessoa se identifica: um grupo partidário, ideológico, religioso ou até os mais extremos, como os terraplanistas. Tem uma coisa de pertencimento. O que isso sinaliza é que o grupo da ciência está muito fraco. É como se não tivesse uma conexão emocional com o conhecimento científico, ao passo que há com o movimento antivax, com o terraplanismo e outras formas de negacionismo.

A gente precisa comunicar o conhecimento científico para engajar as pessoas, para elas se sentirem parte de um grupo. Por exemplo, o grupo que entende, se conecta e valoriza vacina e, portanto, valoriza pesquisa sobre vacina ou sobre várias áreas do conhecimento. Hoje, como o pesquisador não se comunica, como não engaja, não toca o coração das pessoas, é muito fácil gerar desinformação também sobre o que fazem as instituições universitárias. Se uma instituição está sendo atacada -“só fazem balbúrdia”, dizem -, a população pouco se importa.
A comunicação não se trata de uma coisa linear: vou comunicar, logo as pessoas deixarão de ser antivax, pois serão “iluminadas”. É preciso uma comunicação estratégica e afetiva.

E como gerar essa conexão com a ciência?

SR: Quando a gente comunica para se conectar com as pessoas, despertamos um sentimento. É por isso que as fake news funcionam muito bem – e funcionam muito bem! Tem muitas pesquisas que mostram que circulam muito mais, porque engajam mais, despertam um sentimento – como de raiva ou de conhecer a verdade. O mesmo acontece com o vídeo do gatinho, que também é compartilhado porque despertou um sentimento.
A gente precisa comunicar a ciência para despertar sentimento nas pessoas, um sentimento de orgulho, por exemplo. Para construir isso, precisa de muita coisa – de equipe, estratégia, recurso, pesquisador preparado, de iniciativas como o curso da USP, precisa se conectar com jornalistas.

Sobre a relação com a imprensa, muitas vezes os pesquisadores criticam a cobertura que se faz da ciência. Por outro lado, jornalistas comentam da dificuldade em acessar os cientistas brasileiros. Como resolver esse impasse?

SR: Daí a importância do outro curso que a USP começou a oferecer, o de extensão para jornalistas (Divulgação científica para comunicadores e jornalistas, iniciado no dia 1º de setembro para 300 alunos de todo o País e que teve mais de 2 mil inscritos). Essa percepção dos dois lados é real, a gente mede isso na Bori. Ouvimos que a imprensa comunica mal a ciência, que erra, é sensacionalista. Por outro lado, os jornalistas dizem que não conseguem contatar os pesquisadores, que não entendem o que eles falam, que não estão acessíveis. As duas pontas trazem isso e ambas estão certas.

Os jornalistas de fato têm dificuldade de falar com os pesquisadores, justamente pelas questões institucionais que estávamos falando aqui, pois os pesquisadores não são treinados para comunicar. Os cientistas também estão corretos em afirmar, em certa medida, que a imprensa tem problemas, pois atribui resultados exagerados de pesquisa. Isso acontece porque os jornalistas também são pouco preparados para tratar de temas científicos. A própria imprensa reconhece isso. Temos poucas formações para jornalistas de ciência.
O que temos que fazer é colher essas duas críticas e pensar em como resolver. Isso que a USP está fazendo, olhando para as duas pontas – treinar os pesquisadores e treinar os jornalistas –, tem que ser feito periodicamente e de maneira institucional em outras universidades, em agências de fomento. Quanto mais tivermos jornalistas e cientistas treinados, e conversando entre si, mais teremos qualidade na circulação do conhecimento científico. A sociedade sai ganhando.

Você tem experiência tanto na divulgação científica quanto na avaliação das instituições de ensino superior, como esses dois temas se relacionam?

SR: Eles se relacionam totalmente. É muito interessante que algumas pessoas colocam em caixinhas separadas, mas é tudo o mesmo guarda-chuva. Ao falar de comunicação, falo de avaliação e vice-versa, porque estou falando da institucionalização da nossa produção e circulação do conhecimento, que vai desde a pergunta de pesquisa a como aquele resultado de pesquisa circula e como ele é avaliado pelas agências de fomento. É um assunto só.
Temos visto algumas sinalizações de mudança na avaliação do conhecimento científico, desde a avaliação de um artigo científico, passando pelo pesquisador até chegar na universidade. Esses indicadores são muito baseados em quantidade e em qualidade da produção científica: quantos artigos científicos o pesquisador está produzindo e como esses artigos científicos estão sendo citados por outros artigos, tornando-se referência da própria produção científica. Isso é a qualidade, o impacto. A maioria das avaliações olha para isso. O problema é que, ao fazer isso, não consideramos o quanto aquele conhecimento científico está circulando na sociedade.

Há um movimento recente de tentar desenvolver indicadores para medir o quanto o conhecimento científico de fato incide na sociedade, o quanto afetou uma tomada de decisão, quanto influenciou na mudança de uma regulamentação. Por exemplo: um projeto de lei chegou em um material didático ou chegou na produção dos agricultores? A ciência é feita, na maioria das vezes, para resolver grandes problemas da sociedade.

Como essa tendência está se refletindo na pesquisa brasileira?

SR: A Capes sinalizou recentemente uma mudança na avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação, onde está concentrada a produção científica brasileira. Isso indica que a gente começa a olhar para a incidência da ciência na sociedade. E nisso a comunicação é central, porque, para a pesquisa chegar em uma tomada de decisão, em um projeto de lei, em um grupo de agricultores, nos médicos, no material didático, enfim, é preciso se comunicar de maneira estratégica com cada interlocutor. Não podemos esperar que o tomador de decisão vá ler o artigo científico. Isso jamais vai acontecer.

Por isso, a comunicação vai ser cada vez mais central na construção desses indicadores. Já se fala até em presença na imprensa como um indicador. Algumas universidades americanas já avaliam a presença de um pesquisador na imprensa.

Acho que nos próximos cinco, dez anos, no máximo, transformaremos completamente a forma como se avalia a produção do conhecimento científico, passando por indicadores de incidência na sociedade. Eu aposto muito nisso.

Muitas universidades do exterior criaram mecanismos para ampliar o impacto de suas pesquisas, seja promovendo a aproximação com o poder público e o terceiro setor ou incentivando estudos com potencial de transformação social ou econômica. Na sua opinião, esse modelo poderia ser aplicado no Brasil?

SR: Novamente, a gente passa por questões institucionais da construção da produção científica. O que tem começado a crescer no Brasil são iniciativas em que o pesquisador e o gestor, por exemplo, estão juntos desde a pergunta de pesquisa. Não é só uma questão de achar a solução e comunicar ao gestor.
Dois exemplos disso estão na Fapesp: os Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD), em que a USP tem ampla participação, e o Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (PPPP). Nesses dois programas os pesquisadores já começam a atuar com os tomadores de decisão desde o início, fazendo toda a construção do conhecimento juntos. Isso é um modelo muito inovador e que tem crescido bastante.

Esse é um caminho significativo, mas ainda é algo que estamos aprendendo a fazer. As pessoas aprenderam a ser cientistas de uma forma, muitas vezes fechadas na universidade. Precisamos mudar a maneira como formamos os cientistas, para que eles já consigam fazer essa interlocução. Também é importante ter nas instituições iniciativas de conexão com esses interlocutores. Assim como há a agência de inovação, que conecta a universidade com o setor produtivo, poderia existir um órgão que se conecta com gestores. Isso universidades americanas já fazem. Elas têm, por exemplo, grupos de pesquisadores que atuam institucionalmente para se conectar com congressistas, até porque eles negociam o orçamento.

Não vejo por aqui uma instituição ter a preocupação de ir falar com o congressista, de explicar o que está fazendo, de construir uma pesquisa junto. Tem que se criar mecanismo institucional para que isso aconteça, assim como os das agências de fomento, como os programas que mencionei. Não podemos esperar a iniciativa individual do cientista, tem que ser institucionalmente. Acredito que a tendência é, cada vez mais, produzir a ciência conectada com vários setores da sociedade.

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* Fernanda Cunha Rezende é jornalista e chefe da Divisão de Comunicação do IEA-USP. Integrou a comissão de criação da nova disciplina de pós-graduação e do curso de extensão para comunicadores, mencionados nesta entrevista



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