Na Academia de Polícia do Estado de São Paulo (Acadepol/SP), responsável pela formação de policiais civis, a inserção de debates sobre temáticas raciais foi tardia e representou um divisor de águas entre os membros da corporação. De acordo com pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, apenas 9,61% da carga horária das disciplinas na Acadepol/SP aborda questões raciais. Além disso, a abordagem de temas como o racismo tende a ser mais personalizante, em detrimento de discussões sobre fatores estruturais da polícia e da sociedade.
O estudo foi realizado por meio de entrevistas com professores da instituição. De acordo com a pesquisadora Fernanda Reis Nunes Pereira, os entrevistados relataram resistência por parte de policiais mais conservadores, geralmente mais velhos, durante as discussões em sala de aula. Policiais mais jovens, porém, geralmente mulheres ou pertencentes a alguma minoria, tendiam a ser mais receptivos a esses debates.
“Eu acabei falando [na dissertação] como se se criassem correntes dentro da Polícia Civil em torno dessa temática. Umas correntes mais progressistas e correntes um pouco mais conservadoras, que acabam resistindo um pouco mais a essa discussão de raça e de racismo nas disciplinas”, explica a socióloga. Sua dissertação de mestrado, Entre conflitos e alianças: a temática racial na Academia de Polícia de São Paulo, foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FFLCH. Além das entrevistas, ela também procurou analisar a Revista Arquivos da Polícia Civil, veículo próprio da Acadepol/SP e principal propagador de suas ideias.
Um ponto de virada para a inserção de temáticas raciais na instituição foi o ano de 2019. Foi quando, a pedido do então diretor Júlio Gustavo Vieira Guebert, a Acadepol criou um grupo de trabalho visando à discussão e à criação de uma nova disciplina sobre temas raciais. “Foi um processo tardio. Um dos fatores importantes para isso foi que esse grupo de pessoas já era relacionado a outras temáticas de direitos humanos. Eles têm um perfil de policiais que são um pouco mais progressistas”, diz a pesquisadora.
A disciplina só começou a ser ministrada no ano seguinte, que, por uma série de acontecimentos, se mostrou uma “janela de oportunidades”, nas palavras de um dos professores entrevistados na pesquisa. Foi em 2020 que debates sobre o racismo efervesceram à luz de casos como os de George Floyd, nos Estados Unidos, e João Alberto Freitas, morto por um segurança do supermercado Carrefour em Porto Alegre.


