segunda-feira, março 16, 2026
HomeConsumo conscienterir dos poderosos é também resistir – Jornal da USP

rir dos poderosos é também resistir – Jornal da USP


Celbi Pegoraro comenta a potência única do humor gráfico diante do falecimento de Jaguar e observa que a democracia precisa do humor para não se levar a sério demais

Por

Imagem do cartunista Jaguar, já idoso, vestindo boina preta e trajando uma jaqueta que parece de couro bege sobre camisa de cor preta. Ele olha compenetradamente para sua direita
A íntima relação entre cartoons e jornalismo está presente desde o início da imprensa, não fosse Jaguar o criador de O Pasquim Jaguar – Foto: Abi – Agencia Brasil
Logo da Rádio USP

No dia 24 de agosto, faleceu Sérgio de Magalhães Gomes, conhecido como Jaguar. Cartunista brasileiro e fundador do jornal O Pasquim, ele marcou a história do humor gráfico no País. Sua trajetória lembra que o riso, diante do poder, nunca é inocente. Quem explica é Celbi Pegoraro, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP,  comentando da tradição de grandes nomes que fizeram do humor um instrumento político. “O Jaguar se encontra na tradição de grandes nomes como Millôr e Ziraldo, grandes nomes com tradição de humor gráfico, não apenas como mero entretenimento, mas como arma política. Basta lembrar o impacto da revista Pasquim como um espaço de contestação e criatividade na época da ditadura militar”, explica.

Ele lembra que a íntima relação entre cartoons e jornalismo está presente desde o início da imprensa e pode ser observada em diferentes contextos internacionais. “A gente vai ter vários exemplos ocorrendo na Europa. No próprio século 18, na Inglaterra, temos as sátiras feitas pelo William Hogarth, que eram publicadas em folhetos e periódicos. Ali já havia crítica política e crítica social. No século 19, alguns jornais do estilo DuPont, também de Londres, consolidaram essa tradição de cartoons editoriais, também com muita opinião, com muita sátira e crítica. Nos Estados Unidos, a gente teve os jornais do Joseph Pulitzer e William Hearst, que empregavam também caricaturas e cartoons políticos, como forma de atrair leitores e reforçar também posicionamentos editoriais. Já especificamente sobre a América Latina, ela veio a ser incorporada no final do século 19, com o Angelo Agostini”.

Celbi Pegoraro – Foto: Reprodução

Resistência

Pegoraro sublinha a força política dos cartoons no enfrentamento de regimes opressivos: “Eu acho que eles têm uma resistência muito grande, a resistência em ambientes de censura. Mesmo fora do Brasil, em países em que a gente tem visto a ascensão do autoritarismo, a gente continua vendo os cartoons, as charges, as histórias em quadrinhos mais críticas, então acho que continua sendo um ambiente de reflexão muito grande”, afirma. O poder do riso, nesse sentido, permanece potente nos enfrentamentos do ontem e do hoje. “Um político ou uma pessoa importante de alguma instituição vira motivo de piada, a sua autoridade se fragiliza. Essa irreverência pode ser muito perigosa, ela tem muitas vezes mais poder do que uma matéria, um editorial de tom mais sério”, explica.

Ele reforça que essa capacidade se deve em partes à adoção da ironia e dos exageros, de maneira que sejam utilizados recursos como a hipérbole, a caricatura e a paródia. “Ela torna visível contradições e absurdos, que podem passar despercebidos pelas pessoas, pelos leitores, em análises de texto mais formais. Se você tem, por exemplo, uma figura política com postura autoritária, o desenho do cartoon pode distorcer os traços dele de modo a ressaltar essa característica”. Se, nos anos 1970 a batalha era contra a censura estatal, hoje, os riscos se deslocaram para novas arenas. “A gente tem os riscos dos ataques virtuais, os processos judiciais, as tentativas de cancelamento, o silenciamento, também a depender do conteúdo e do foco, do alvo que esse cartoon é direcionado”, aponta Pegoraro.

O diferencial dos cartoons

Mais do que nunca, sua capacidade de condensar complexidades em uma imagem os torna indispensáveis. “Um cartoon consegue condensar uma situação complexa em uma única imagem e poucas palavras. Você transmite essa informação de um modo muito mais rápido do que uma reportagem, uma entrevista”, explica Pegoraro. Para ele, a comunicação por meio de imagens conseguia um efeito mais direto a um público mais amplo, principalmente em um contexto em que a maior parte da população era analfabeta. Em tempos de memes, os cartuns seguem carregando uma força singular. “Mesmo a gente estando agora numa tradição de memes, os memes dominam o nosso imaginário digital, os cartoons, as charges, elas carregam uma tradição de autor, uma tradição de estilo que acaba conferindo uma autoridade crítica. Então ela é, digamos assim, um meme autoral, uma coisa que é muito mais ligada a um autor específico, mas tem uma ancoragem na reflexão”, afirma o professor. Jaguar se foi, mas sua lição permanece: rir dos poderosos é também resistir. E a democracia precisa do humor para não se levar a sério demais.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 

 



Fonte

Mais populares

- Anúncio-
Google search engine