Em cartaz até 12 de outubro, “Amores Fantasmas” exibe filmes que abordam a sensação de vazio deixada ao fim de um relacionamento afetivo
Por Manuela Trafane*

O que acontece com o amor entre dois indivíduos após o fim de seu relacionamento? No caso de alguns filmes da nova mostra do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), Amores Fantasmas, o sentimento vira assombração. Com histórias que contemplam a sensação de ausência do amado, a programação conta com filmes de romances interrompidos. Inaugurada no dia 22 passado, a mostra segue em cartaz até 12 de outubro, nas salas do Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária, e no Centro MariAntonia, na Vila Buarque, em São Paulo. A programação completa do evento está disponível no site do Cinusp. A entrada é grátis.
Amores Fantasmas apresenta filmes de estilos, épocas e gêneros variados sobre romances impossíveis — aqueles em que os personagens têm anseio por uma figura inalcançável. “São histórias de amor por algo que já não existe mais, de certa maneira, tragédias. Amores incompletos”, conta Francesco Felix, um dos curadores do Cinusp e o idealizador da nova programação. Ele destaca que, muitas vezes, fantasmas são usados na linguagem cinematográfica como meios físicos de representar esse sentimento de ausência do amado. “Todos os filmes têm, eu diria, a sensação de um fantasma. Quando não é realmente uma assombração, é uma memória muito forte que surge em sonhos ou que aparece no rosto de outra pessoa”, fala.
Um exemplo disso é o longa-metragem La Chimera (2023), dirigido por Alice Rohrwacher. O fantasma, nesse caso, é mais um sentimento de vazio do que um fantasma de pano. Ambientada na zona rural da toscana italiana durante os anos 1980, ele narra a história do arqueólogo Arthur, que participa de uma gangue de ladrões de túmulos. O roubo, por algum motivo, o aproxima de sua amada Beniamina, dada como desaparecida algum tempo antes. “Ela é presumida morta, mas ele sente sua presença. Muitas vezes, fantasia que ela está fisicamente junto dele”, conta o curador.

Outra produção presente na mostra é o filme português Odete (2005), do diretor João Pedro Rodrigues. Após um jantar romântico, Pedro, namorado de Rui, morre em um acidente de carro. A vizinha de Pedro, Odete, se convence de que está grávida do falecido. Mesmo que a obsessão da garota pelo falecido incomode Rui — que realmente sofre com a perda do amor de sua vida e até vê aparições de Pedro —, ele se aproxima da garota, por dividirem o mesmo transtorno sobre o ocorrido. Francesco Felix nota que o filme interpreta duas maneiras distintas de lidar com a perda: “Rui sente um vazio muito grande, mas tenta preencher isso, se colocar novamente na vida, sair com outros caras. Odete, por outro lado, está muito mais dedicada a jogar sua vida inteira fora para viver do luto — ela pula a parede do cemitério para dormir ao lado da cova dele, por exemplo”.

Uma obra pouco conhecida exibida em Amores Fantasmas é o filme vietnamita Quando Chega o Décimo Mês. Ao fim da Guerra do Vietnã, Duyên visita seu marido e descobre que ele foi morto em batalha. Quando retorna para casa, no entanto, não consegue contar a notícia à família. Para esconder a tragédia, tem a ajuda de um professor da cidade, que finge ser seu marido escrevendo cartas aos outros parentes. A farsa confunde Duyên. Ela se sente atraída pelo professor, mas ainda sofre a falta de seu esposo. “A relação com o professor surge um pouco da materialização e da ausência do marido. Ela o sente lá, em forma de carta, na palavra e no pensamento dela, mas quem realmente a acompanha é outro homem”, destaca Felix.
Já o filme Déjà Vu (2006), do diretor Tony Scott, aborda o aspecto sobrenatural. Nele, um investigador de polícia é convidado para usar uma nova máquina que o insere na realidade de quatro dias no passado. Isso permitiria desvendar um crime antes mesmo de ele acontecer, podendo até impedi-lo. O problema começa quando, ao investigar um caso, ele se apaixona por uma das vítimas, uma mulher que havia sido assassinada. “Quando ele decide testar os limites da máquina, a mulher percebe que alguém a está observando”, conta o curador. “Para ela, existe esse fantasma, essa pessoa que ela não sabe de onde está vindo, mas que está interagindo com ela, enquanto ele sabe que ela vai morrer e quer tentar resolver o caso, e talvez salvá-la, se possível, mesmo que signifique não acabarem juntos.”

Mal dos Trópicos (2004), de Apichatpong Weerasethakul, é uma mistura entre o misticismo e a melancolia. A obra é dividida em duas partes. A primeira conta um romance clássico entre um soldado e um civil na Tailândia — eles saem para dançar à noite e trocam declarações de amor. Eventualmente é apresentada uma cisão, a tela começa a mostrar letreiros explicando uma lenda, com música ao fundo. Agora, o mesmo ator que interpretava o soldado está na floresta buscando um xamã, representado por um tigre. “O filme foi recebido de forma polêmica na época do lançamento, porque ninguém entendeu o que estava acontecendo. Depois, ele foi ganhando apreço dos fãs, em razão da construção da linguagem do cinema e pelo que a segunda metade implica na primeira: o que isso significa, o que representa os mesmos atores estarem fazendo papéis diferentes”, fala Felix. No dia 7 de outubro, na sala do Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri, haverá um debate sobre o Mal dos Trópicos, após a exibição do filme.

A nova mostra do Cinusp inclui ainda o clássico Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), adaptação para o cinema da obra de Jorge Amado feita por Bruno Barreto. “Quando Flor se casa novamente após a morte de Vadinho, todos ao seu redor comemoram que agora ela estará casada com um homem correto e trabalhador”, destaca o texto curatorial da mostra, publicada no site do Cinusp. “Mas, quando seu primeiro marido volta a aparecer, a personagem é confrontada com seus próprios desejos contraditórios. O humor é usado tanto como válvula de escape das dificuldades da personagem quanto como reação natural às antíteses que vive.”
No dia 9, às 20h30, haverá uma sessão especial, com a apresentação do filme japonês Heaven Is Still Far Away (2016), do diretor Ryūsuke Hamaguchi. Segundo a sinopse da obra, “Hamaguchi trabalha com os atores em busca de um naturalismo pleno, para que o universo interno de cada um se revele sutilmente nos gestos e expressões”. A sessão será realizada na Sala Paulo Emilio, do Cinusp (Rua do Anfiteatro, 181, na Cidade Universitária).

A mostra Amores fantasmas, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), está em cartaz até o dia 12 de outubro, nas salas do Cinusp, instaladas no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo) e no Centro MariAntonia (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. A programação completa da mostra e mais informações estão disponíveis no site do Cinusp
* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro



