Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
Embaixo, a Terra,
Em cima, o macho céu
E entre os dois a ideia de um sinal.
(Caetano Veloso, “Motriz”, 1983)
Apontar problemas e levantar hipóteses são tarefas inerentes ao trabalho acadêmico-científico.
Por problema poderíamos entender:
(1) o enunciado de questões complexas;
(2) a percepção de impasses profundos.
Da revisão bibliográfica (tarefa recorrente em trabalhos de iniciação científica e monografias finais de cursos) à proposição de uma tese, o pesquisador objetiva contribuir, dentro do instrumental teórico e das possibilidades materiais, para uma eventual resolução – que, na quase totalidade dos casos, costuma ser parcial e transitória. Diferentemente do dogma, que se pauta pela reiteração de mandamentos morais, e valores pré-ajuizados, a ciência visa ao resgate e à superação de teorias, métodos e práticas.
Em termos aproximados, digamos que a hipótese está a meio caminho entre a formulação do problema e a enunciação da tese. A etimologia pode nos ajudar: o conceito de hypóthesis (“abaixo da proposição” / “fundamento”) sugere que, frente a um conjunto de variáveis, o autor poderá, ou não, alcançar e demonstrar a tese. Logicamente, reunir hipótese(s) precede a comprovação de uma ou mais dentre elas. Nesse sentido, a tese pode ser definida como tarefa que consiste em confirmar conjectura(s); adensar especulação(ões); concretizar uma dentre outras possibilidades de resposta.
Pois bem. Se a essência do trabalho acadêmico consiste em elencar causas possíveis para determinado estado de coisas, parece razoável que a linguagem empregada pelo pesquisador reflita o caráter especulativo e provisório do enunciado hipotético. Entretanto, nem sempre os autores de monografias e teses partem dessa premissa: estatisticamente, a maior parte dos textos acadêmicos expressa alguma pretensão (ou mesmo arrogância) – o que se manifesta no emprego de assertivas proferidas de modo categórico, ou seja, sem margens para o imponderável.
Eis algumas recomendações simples:
(A) evite-se recorrer a palavras de sentido absolutizante e/ou generalista, tais como “sempre” / “nunca”; “toda(o)” / “nenhum(a)”. Em vez de se assegurar que “toda a obra de Clarice Lispector está pautada pela dúvida”, prefira-se afirmar que “a dúvida comparece a diversas obras de Clarice Lispector”.
(B) Ajuste-se a dicção nas setenças, recorrendo a verbos e outras classes gramaticais que indiquem ponderação e humildade: “sugerir” (em vez de “evidenciar”); “tentar demonstrar” (e não “provar”) – sem contar as expressões que permitem matizar o teor e a certeza da proposição, como vemos em “é possível que” (no lugar de “sem dúvida”). Em vez de assegurar que o trabalho “demonstrará como a mulher é representada na poesia de Adélia Parado”, opte-se pela sugestão de que “numerosas parecem ser as formas de representação feminina nos versos de Adélia Prado”.
C) Modere-se a combinação de advérbios com adjetivos, a fim de evitar a predicação desmedida do objeto em discussão: “pertinente” (em lugar de “totalmente pertinente”); “digno de nota” (e não “absolutamente notável”). Em vez de ajuizar um conto de João Guimarães Rosa como “muito comovente”, recorra-se à predicação mais direta e simples, que traduza menor ênfase: “A Terceira Margem do Rio é uma narrativa tocante”.
D) Utilizem-se verbos na forma condicional, a fim de se amenizarem “certezas”. Em lugar de pretender, supor. Em vez de afirmar que “O mote das composições de Caetano Veloso é a mutação”, cogite-se: “Caberia afirmar que a mutação seria uma constante, nas composições de Caetano Veloso”.
Talvez conviesse aconselhar o pesquisador a que se deixasse guiar pela humildade – virtude imprescindível, durante o planejamento e a consecução do trabalho intelectual. A probablidade de sermos pequenos e limitados, frente ao conhecimento, não implica insegurança, falta de amor-próprio ou incompetência; traduz-se em autoconsciência e respeito para com os eventuais leitores que venham a tomar contato com o que escreve(r)mos.
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