domingo, maio 17, 2026
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o esvaziamento dos cinemas em ruas de SP – Jornal da USP


Numa área marcada pela decadência, notícias como a da possível reabertura do Cine Copan trazem esperança para os defensores de uma revitalização do centro velho

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Imagem de uma sala de cinema vazia, onde se destaca a tela em branco
Além da criação dos shoppings com suas salas de cinema, o desaparecimento e a desativação dos cinemas de rua são decorrentes, em parte, da decadência e transferência do centro da cidade – Foto: ArtPhoto_studio/Freepik
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Cine Copan, Bijou Theatre, Comodoro, Cine Espacial, Regina, Marrocos, Coral, Rivoli. Esses são apenas alguns nomes de cinemas de rua que já existiram no Centro Velho de São Paulo, mostrando que a história da cidade com as telonas é antiga. De 1930 a 1960, a sétima arte era uma das principais atrações da região e algumas das salas desses cinemas tinham capacidade para receber mais de mil pessoas. A região da Avenida Ipiranga e Avenida São João, próxima à Praça da República, abrigava alguns dos principais cinemas da cidade e era conhecida como “Cinelândia”. Hoje, exceto pelo reformado Marabá, o Cineclube Cortina e a Galeria Olido, a mesma região conta com apenas alguns cinemas pornô.

Numa área marcada pela decadência, notícias como a da possível reabertura do Cine Copan trazem esperança para os defensores de uma revitalização do Centro Velho. Com uma posição privilegiada no passado, os cinemas de rua do centro podem ser um caminho para a solução de problemas no presente, trazendo cultura, inclusão e vida para a região central paulistana.

Anatomia de uma queda

“A Cinelândia era o bairro que concentrava todos os cinemas. Naquela época, décadas de 40, 50, o cinema era a grande diversão popular, não havia televisão. A televisão estava começando em 50. Então todo mundo ia ao cinema, toda semana. E os melhores cinemas ficavam no centro”, diz Carlos Augusto Calil, ex-secretário municipal de Cultura e professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da USP. Ele explica que além da criação dos shoppings com suas salas de cinema, o desaparecimento e desativação dos cinemas de rua é decorrente em parte da decadência e transferência do centro da cidade, primeiro para a região da Avenida Paulista, e depois para a Faria Lima. Eles são os traços que guardaram do antigo centro da cidade. O governo, a Prefeitura deviam recuperar a Cinelândia,” diz Calil.

Carlos Augusto Calil -Foto: Leonor Calasans/IEA

O surgimento dos cinemas pornô é inclusive resultado da decadência da região central. Com o desligamento das atividades, a infraestrutura disponível no local foi aproveitada para a exibição de filmes adultos— numa época em que as proibições da ditadura criavam enorme excitação em torno do tema.

O centro é o ponto de encontro de uma cidade. A falta de infraestrutura e de preservação dos equipamentos culturais reforça o distanciamento das pessoas da região. Calil, cinéfilo, diz lutar pelo retorno das telonas ao centro: “Os cinemas foram abandonados e não foram, muitos deles, substituídos por outra coisa. Eu tenho muita esperança que a gente consiga ainda recuperar alguns deles”, completa.

Soberano e a Boca do Lixo

Em outra parte do centro velho, na Boca do Lixo, próximo à estação da Luz, resiste hoje o Soberano: Rua do Triunfo. O Soberano foi no passado um ponto de encontro dos cineastas paulistas até ser fechado em 1994. Administrado pelo casal Renata Forato e Marcelo Colaiácovo, o espaço foi reaberto em março do ano passado, como museu, bar e, claro, cinema.

“A gente acha super importante, primeiramente porque nós somos um dos únicos cinemas da região central. A gente faz cinema analógico, coisa que pouquíssimos cinemas de São Paulo fazem e a gente sente na pele a diferença de ser no centro de São Paulo. Quando a gente começou a fazer a articulação aqui, a gente começou a fazer um projeto com o Museu da Língua Portuguesa, que chama ‘Luz na Tela’. Esse projeto é um projeto que leva cinema para a população de rua.”, começa Renata. Com um discurso cheio de paixão e revolta, ela e o marido contam as dificuldades de gerir um cinema de rua, mas também falam do prazer em poder atuar pelo bem de uma região marcada por uma forte vulnerabilidade social.

O casal questiona a falta de apoio e iniciativas que democratizem o acesso ao cinema, principalmente o apoio à cinefilia e aos cinemas com curadoria especial. Segundo Renata, “cinema de rua não é fácil. Cinema de rua, trabalhando só para o cinema, vai ser barra pesada para o cara.”. Eles ainda destacam o potencial de união do espaço, ao juntar estudantes, moradores de rua, cinéfilos, trabalhadores e pessoas das mais variadas tribos.

Entre histórias sobre a Boca do Lixo e do Soberano, críticas sobre o esquecimento do passado cinematográfico da cidade e contos de “causos”— como o dia em que Renata e Marcelo recuperaram 50 cadeiras e o backlight do antigo Cine Áurea, na Rua Aurora— , Renata relembra um relato que ilustra o potencial cultural do incentivo ao cinema: “A gente passou Divertidamente e Divertidamente 2, que são filmes já bem mais famosos. A criançada quer ver, porque está estampado em tudo quanto é lugar. O pessoal da Ocupação Mauá viu no cinema? Não, obviamente que o pessoal não viu. As crianças de classe mais baixa viram no cinema? Não! Custa 70 reais, cara. A gente passou no Luz na Tela, que é nesse projeto da Estação da Luz. A gente nunca viu um projeto tão cheio de criança. Era ônibus de criança parando para assistir de graça, com pipoca e guaraná. Isso é transformador. A criançada pira. A gente foi passar o dois, a criançada ia de camiseta do Divertidamente. As crianças da Ocupação, crianças que moram aqui, na favela do Moinho, sabe? A gente tem que parar de ver o cinema só como ticket. O cinema não é só ticket.”

O regresso

Há o reconhecimento, por parte dos entrevistados,  de um movimento de retorno dos cinemas de rua em São Paulo, mesmo que de uma forma ainda tímida. Estimulado por incentivos fiscais, pelos cinemas e— importante ressaltar— também pelas baladas, é visível um retorno dos jovens ao centro velho da cidade. Vale lembrar que só moradia não resolve, habitar também é sobre cultura. Calil dá o tom: “O cinema de rua é um ponto de encontro que se dá no tecido urbano. Não é enfiado em uma caixa como num shopping center. Não é a mesma coisa de você encontrar alguém na porta do cinema, dali sair para tomar alguma coisa ou para comer alguma coisa depois do cinema. A sociabilidade que o cinema traz é muito diferente”.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira


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