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Fórum “Educação em Transformação” aponta caminhos para o futuro do ensino no País – Jornal da USP


Evento foi promovido pelo “Estadão” no Museu do Ipiranga e reuniu especialistas para discutir desafios da educação em diferentes aspectos

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Auditório com vista lateral do palco, com uma pessoa sentada falando, e cadeiras da plateia
Fórum Educação em Transformação reuniu gestores, educadores e estudantes no Museu Paulista da USP para discussões sobre diferentes desafios que a educação enfrenta no Brasil – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O Museu do Ipiranga, que juntamente com o Museu Republicano de Itu integra o Museu Paulista (MP) da USP, sediou, na segunda-feira, dia 29 de setembro, a terceira edição do fórum Educação em Transformação. O encontro foi promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo no contexto das comemorações de seus 150 anos, reunindo gestores públicos, pesquisadores e representantes de instituições de ensino para debater questões cruciais da educação brasileira, desde a infância até o ensino superior, em um cenário marcado pelo avanço das novas tecnologias.

Na abertura, o reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior destacou a relação histórica entre a Universidade e o jornal. “A USP e o Estadão têm uma ligação histórica. A criação da USP, em 1934, teve como mentor intelectual o jornalista Júlio de Mesquita Filho, então diretor do jornal, que publicava intensivamente artigos e estudos favoráveis à criação de uma universidade em São Paulo e sobre os problemas do ensino universitário no Brasil. Hoje, mais de 90 anos depois, a USP se tornou uma referência nacional e internacional e exerce papel fundamental no desenvolvimento do País, com posições de destaque nos principais rankings de universidades. A USP transforma vidas e contribui diretamente para o desenvolvimento da sociedade brasileira”, afirmou.

Carlotti relacionou, na sequência, a atuação da Universidade aos temas tratados no encontro. “No campo da educação, além do ensino superior, a USP tem atuado fortemente no fortalecimento do ensino fundamental e médio, com iniciativas como o Provão Paulista. Nos últimos anos, também avançamos na atualização curricular, na modernização da pós-graduação e no apoio à educação a distância. Entre os desafios atuais estão as novas tecnologias, como a inteligência artificial, e o financiamento da educação, área em que a Universidade busca diversificar fontes de recursos para garantir a permanência estudantil e fortalecer instrumentos como o Fundo Patrimonial.”

Homem de terno e óculos fala no púlpito de um palco
O reitor da USP lembrou o papel que o Estadão teve na fundação da USP e comentou sobre ações que a Universidade vem tomando em diversas frentes para contribuir com a melhoria da qualidade da educação – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O diretor do MP, Paulo Garcez Marins, também participou da abertura, classificando como uma “escolha coerente” a opção do local para sediar o encontro: “É entusiasmante ver um parceiro de primeira hora da Universidade de São Paulo, como o jornal O Estado de S. Paulo, eleger o Museu Paulista como espaço para promover esse debate sobre educação. Somos uma instituição cultural, de pesquisa científica e também de ensino, formando alunos de graduação e pós-graduação há pelo menos 35 anos. Recebemos atualmente cerca de 700 mil visitantes por ano, dos quais 23 mil são estudantes de escolas públicas, e já contabilizamos 2 milhões de visitantes desde a reabertura em setembro de 2022. Nosso acervo reúne 400 mil objetos, dos quais apenas 4 mil estão expostos, e serve de base para pesquisas de estudantes e pesquisadores do Brasil e do exterior. Parabenizo o Estadão pelo evento e agradeço a parceria, que amplia o alcance de nossas ações e consolida a posição da USP na vanguarda do ensino superior e da produção científica no País”.

Para o diretor de jornalismo do Grupo Estado, Eurípedes Alcântara, “não existe democracia plena sem desenvolvimento sustentável, e não há desenvolvimento sustentável sem conhecimento democratizado. E quando jornalismo e educação caminham juntos, o País avança. Vivemos, no entanto, um paradoxo: nunca tivemos tanto acesso à informação, mas nunca foi tão difícil formar cidadãos críticos; nunca a tecnologia ofereceu tantas possibilidades pedagógicas, mas também nunca assediou os jovens de forma tão invasiva; nunca o mercado valorizou tanto o conhecimento, mas nunca se desamparou tanto a figura do professor. Este fórum existe para enfrentar essas contradições. Há 150 anos, o Estadão já defendia que a educação era o único caminho para um país justo e próspero, e essa convicção só se intensifica. Nosso desafio não é apenas crescer, mas crescer incluindo; não é apenas inovar, mas inovar democratizando; não é competir globalmente, mas competir sem deixar ninguém para trás. A educação não precisa de salvadores, precisa de parceiros, de diálogo honesto, de compromisso com evidências e resultados”, asseverou. 

Homem de oculos e paletó fala ao microfone no palco
Para o diretor de redação do Grupo Estado, “vivemos um paradoxo em que nunca tivemos tanto acesso à informação, mas nunca foi tão difícil formar cidadãos críticos; nunca a tecnologia ofereceu tantas possibilidades pedagógicas, mas também nunca assediou os jovens de forma tão invasiva; nunca o mercado valorizou tanto o conhecimento, mas nunca se desamparou tanto a figura do professor” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Ensino técnico, primeira infância, redes sociais e IA

A conferência de abertura foi conduzida por Eric Bettinger, professor da Universidade Stanford, que abordou os entraves culturais e institucionais que ainda dificultam a valorização do ensino técnico no Brasil. Ele destacou que, segundo estudos internacionais, o Produto Interno Bruto brasileiro poderia crescer de forma significativa se mais jovens optassem por essa modalidade de formação, mas que o preconceito contra o ensino profissionalizante permanece como barreira. Bettinger propôs que governos, setor produtivo e instituições de ensino se articulem para ampliar a atratividade do ensino técnico e tecnológico, trazendo exemplos de países que conseguiram aproximar os sistemas educacionais das demandas do mercado de trabalho e da inovação tecnológica. 

O primeiro painel, dedicado à educação infantil, reuniu Filomena Krauel, diretora de Projetos da Fundação Bracell; Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do movimento Todos Pela Educação; e Kátia Schweickardt, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação. O debate destacou as evidências já consolidadas sobre os impactos sociais e econômicos dos investimentos nos primeiros anos de vida, de zero a seis anos. Os palestrantes discutiram a expansão do atendimento em creches e pré-escolas, a preparação para a alfabetização e os desafios de garantir qualidade e equidade no acesso a essa etapa da educação. 

O segundo painel tratou da influência das redes sociais e das novas tecnologias na vida escolar e familiar. Participaram Catarina Fugulin, advogada e líder de Políticas Públicas do Movimento Desconecta; Julia Sant’Anna, diretora executiva do Centro de Inovação para a Educação Brasileira; e Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta. A mesa apontou a necessidade de formação dos professores em educação midiática, a inclusão de práticas de letramento digital nos currículos e a reflexão sobre o impacto do uso excessivo de plataformas digitais sobre crianças e adolescentes. 

Na sequência, o professor Ig Ibert Bittencourt, cofundador do IA.Edu e do Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais e coordenador da Cátedra da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) de Inteligência Artificial Desplugada na Educação, apresentou palestra sobre os usos da inteligência artificial no ensino. Ele analisou aplicações como a gamificação e os sistemas de avaliação adaptativos, mas alertou para dilemas éticos e riscos de mau uso da tecnologia, que podem comprometer o processo de ensino-aprendizagem. 

Homem de terno e gravata sentado em poltrona no palco fala com microfone na mão
Eric Bettinger, professor da Universidade Stanford, defendeu a valorização do ensino técnico como porta de entrada para carreiras e para o desenvolvimento de economias locais. “É preciso acabar com o preconceito que enxerga esse tipo de ensino como um prêmio de consolação” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O período da tarde teve início com a apresentação de Luis Fernando Quintino, supervisor técnico de Educação a Distância do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP). Ele apresentou uma iniciativa desenvolvida em parceria com a Microsoft, que criou uma plataforma de estudo baseada em inteligência artificial. O sistema, já disponível em 140 escolas do Sesi-SP, atende cerca de 36 mil alunos do ensino fundamental e médio, oferecendo conteúdos personalizados conforme o ritmo e as dificuldades de cada estudante. 

O terceiro painel discutiu o futuro da formação acadêmica. Participaram João Mattar, presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância; Márcia Lima, professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP; Marcio Sanches, reitor da Universidade Corporativa do Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior do Brasil; Roseli de Deus Lopes, diretora do Instituto de Estudos Avançados da USP; e Luciana Garbin, editora executiva do Estadão. A discussão abordou o desinteresse dos jovens diante de currículos pouco atualizados, o papel da educação a distância e a necessidade de atualização constante dos cursos diante das transformações da sociedade e do mercado de trabalho. 

O quarto e último painel teve como tema o financiamento da educação. José Aliperti, diretor-presidente da Astra Infraestrutura e Concessões Educacionais; Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional; Gustavo Fernandes, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas; e Victor Vieira, editor de Metrópole do Estadão, discutiram modelos de financiamento público e privado, a sustentabilidade de políticas como o Fundeb e o programa Pé de Meia, além de possibilidades de parcerias com o setor privado para ampliar recursos destinados à educação. 

Clique aqui para assistir à íntegra da programação do período da manhã e aqui para a programação do período da tarde do evento. 



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