Mas o que é, afinal, a neuroinflamação? Otávio Marques explica que ela surge como um mecanismo de adaptação do sistema nervoso em situações de estresse. “O sistema imunológico não só combate infecções, ele tem papel de homeostase – trazer de volta ao equilíbrio algo que saiu dos eixos.”
Esse processo de desregulação estimula o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) a liberar cortisol (hormônio anti-inflamatório). Porém, quando a inflamação se torna crônica, o organismo passa a resistir ao cortisol e perde a capacidade de resposta, danificando regiões cerebrais que regulam o humor. “Isso diminui a disponibilidade de monoaminas nas fendas sinápticas e acarreta sintomas depressivos”, comenta Roseane Nava. “Quando o paciente não recebe tratamento, o que era para trazer equilíbrio perde o controle.”
Segundo a pesquisadora, os antidepressivos tricíclicos (que inibem a recaptação de serotonina e norepinefrina) têm efeitos em dores periféricas e no sistema imunológico. “Estudos mostram que os neurotransmissores não agem só no cérebro, mas também em células imunes do sistema nervoso periférico (SNP)”, explica.
E a conversa é recíproca: assim como o sistema imune tem receptores para neurotransmissores, o sistema nervoso central (SNC) tem receptores para citocinas, as proteínas da inflamação. “A incidência de depressão em pacientes com doenças autoimunes é alta, principalmente infecções como hepatite, que usam medicamentos interferons”, exemplifica Otávio Marques. O interferon combate a inflamação, mas pode culminar na imunossupressão e no surgimento de sintomas como sensação de perda de interesse e falta de apetite.


