domingo, maio 17, 2026
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novo filme de Antônio Pitanga tem pré-estreia na USP – Jornal da USP


Malês, o filme

O roteiro, que é de Manuela Dias, mostra de forma crua como o apagamento das origens africanas no tráfico transatlântico deixou cicatrizes permanentes. Mesmo os escravizados que já haviam conseguido a liberdade dos senhores se viam constantemente nas mãos de um sistema segregacionista.

No decorrer do filme, os espectadores são confrontados com imagens da violência, do sequestro e da reexistência daquele povo na cidade de Salvador do século 19. Apesar disso, Pitanga também traz ao centro da tela imagens de carinho, amor, troca de afetos e reencontros entre aquelas pessoas agora em “terra de branco”.

Essa foi uma escolha consciente, de acordo com Pitanga. Para ele, era importante mostrar que o carinho e amor fazem parte da cultura e dos corpos negros historicamente marginalizados. “São histórias que a gente tem que dar luz para que a gente possa deitar [nesse] conhecimento e, democraticamente, saber quem nós somos.”

Porém, ainda que tenha um roteiro bem construído, o filme traz muitos personagens para seu enredo e, em alguns momentos, é difícil acompanhar a presença e continuidade de todas essas histórias. Nos momentos em que se aprofunda nas questões pessoais de alguma dessas figuras, o longa ganha camadas mais profundas e discute temas importantes.

É o que acontece com a personagem fictícia Sabina, interpretada por Camila Pitanga, que carrega dramas que a colocam em uma zona cinza entre o certo e o errado. Suas atitudes, por vezes egoístas, são justificadas com o claro e constante medo que ela demonstra de perder a família em meio à ameaça de um novo levante.

Outro destaque feminino é Abayome, par romântico de Dassalu, feito por Rocco Pitanga. O casal é separado durante o casamento em África e levado para ser vendido como escravos. No Brasil, seguem em busca um do outro. Mas o enredo de Abayome não se restringe ao seu envolvimento romântico, mostrando uma personagem guerreira.

A presença negra feminina durante todo o longa é rica em complexidade, fugindo de estereótipos e abordagens preguiçosas – até as personagens que não possuem tanto tempo de tela deixam sua marca. Pitanga diz que isso seria uma consequência de como foi criado por sua mãe. “Essa força da mulher é porque o Pitanga trouxe as mulheres para serem protagonistas. E esse protagonismo veio dessa lembrança [da sua mãe]”, disse Moara Sacchi, atriz que dá vida a Talabi.

Esse é um filme que carrega o propósito de contar uma história silenciada e escondida do Brasil: “Não é história de negro, são histórias de negros brasileiros, são histórias do Brasil”, afirmou o diretor. Para Pitanga, as raízes do povo brasileiro estão no povo africano, “onde você vai ver o brasileiro hoje, a culinária vem da África, a dança é da mãe África. A maneira de lidar, de dançar, de sorrir, é uma coisa espontânea do negro e é uma coisa espontânea do brasileiro. A nossa formação, a formação da criatura do homem brasileiro mora nesta cultura”.

*Estagiários sob a supervisão de Silvana Salles e Antonio Carlos Quinto



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