Análise do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP mostra início das chuvas dentro da média em outubro, redução histórica de queimadas em agosto e influência do Dipolo do Índico e da possível La Niña na nova estação
Por Rose Talamone

Para sabermos o que esperar do clima nesta nova estação, no Boletim Climatológico desta semana a conversa é com a pesquisadora do Grupo de Estudos Climáticos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP Ana Carolina Nóbile Tomaziello.
Em agosto, o comportamento climático variou bastante pelo País. “No Sudeste e no Brasil central choveu menos do que o esperado, enquanto no Sul, no Nordeste e na parte central da Amazônia as precipitações ficaram acima da média”, explica Ana Carolina.
As incursões de massas de ar frio também influenciaram as temperaturas: no Centro-Sul, os termômetros marcaram de 1° a 2° abaixo da média, cenário semelhante ao registrado no leste do Nordeste. Já nas demais regiões, as temperaturas ficaram de 1° a 2° acima do normal. Em São Paulo, segundo dados da Estação do Mirante de Santana, agosto acumulou apenas 16 milímetros de chuva, valor abaixo da média. As temperaturas, por sua vez, ficaram acima do esperado tanto nas máximas quanto nas mínimas.
Outro dado relevante, segundo Ana Carolina, foi a queda expressiva no número de queimadas. “Foram 18.451 focos de calor em agosto de 2025, o menor número desde o início do monitoramento, em 1998. No mesmo mês do ano passado, tínhamos mais de 68 mil registros”, destaca a pesquisadora. A redução, de 61% em relação à média histórica, foi favorecida por fatores climáticos, como maior umidade no solo e presença de massas de ar frio, e também por políticas públicas de manejo integrado do fogo, com mais brigadistas, helicópteros e punições a infratores.
Com a chegada da primavera cresce a expectativa pela volta das chuvas que aliviam os reservatórios hídricos. De acordo com Ana Carolina, não há indícios de atraso: “O período chuvoso no Sudeste deve começar dentro da média, por volta de meados de outubro. Um fator que pode favorecer essas precipitações é o Dipolo do Índico [fenômeno climático que acontece no Oceano Índico tropical, parecido em importância ao El Niño e à La Niña no Pacífico], que está em fase negativa, condição que contribui para o aumento das chuvas”. A previsão para os próximos meses indica que, no Norte, Sul, sul do Centro-Oeste e sul do Sudeste, incluindo a cidade de São Paulo, as chuvas devem variar entre a média e abaixo da média.
Já no Nordeste e no norte do Centro-Oeste, a tendência é de precipitações dentro da média, enquanto o norte do Sudeste pode registrar chuvas de média a acima da média, favorecidas pelo Dipolo do Índico em outubro e novembro. “Em São Paulo e no sul do Sudeste, a probabilidade é de chuvas abaixo do normal, cenário que pode estar associado tanto à fase negativa do Dipolo do Índico quanto à possível formação de uma La Niña”, observa a pesquisadora. Em relação às temperaturas, a previsão é de valores médios a acima da média no Norte e dentro da normalidade nas demais regiões do Brasil.
Grupo de Estudos Climáticos
O Boletim Climatológico Mensal vai ao ar no último dia útil de cada mês e o GrEC é composto de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores dedicados ao estudo e monitoramento das condições climáticas e atmosféricas, tanto no Brasil quanto globalmente. Fundado com o objetivo de investigar os fenômenos climáticos e suas consequências, o GrEC atua na previsão de eventos extremos, na análise de tendências climáticas e na elaboração de cenários futuros que ajudam a orientar políticas públicas e estratégias de adaptação às mudanças climáticas.
O grupo é coordenado pelo professor Tércio Ambrizzi, especialista em Climatologia e Mudanças Climáticas, e pela professora Rosmeri Porfírio da Rocha, que foca suas pesquisas em meteorologia aplicada e eventos climáticos extremos. Ambos possuem ampla experiência acadêmica e prática, contribuindo com suas expertises para a produção de estudos e boletins que auxiliam no entendimento dos padrões climáticos, além de participar de projetos de cooperação nacional e internacional voltados para o clima e o meio ambiente. O grupo tem ainda Paola Gimenes Bueno, aluna de doutorado, como coordenadora discente.
Ouça no player abaixo o boletim completo, com apresentação de Ferraz Junior:




