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O que leva à permanência ou ao abandono da Educação para Jovens e Adultos? – Jornal da USP


Pesquisa investiga motivações e dificuldades de adultos que voltaram aos estudos e faz propostas para aumento da permanência nessa modalidade de ensino

Menina com cabelos trançados vestindo uniforme escolar ensina senhora idosa que usa avental branco, cabelos presos e óculos
Cuidar e sustentar a família são barreiras para a Educação de Jovens Adultos (EJA) – Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro

Estudo que teve como objetivo entender as motivações para o abandono ou permanência na Educação para Jovens e Adultos (EJA) identificou a necessidade de sustentar a família ou de cuidar de pessoas vulneráveis como a principal barreira para a conclusão dos estudos nessa modalidade de ensino. Apesar das dificuldades em “lidar com tudo de uma vez”, as perspectivas de futuro foram os principais fatores motivantes para os adultos que voltaram à escola concluírem os estudos. Esses e outros resultados do estudo são relatados em um artigo publicado na mais nova edição da revista Comunicação e Educação, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Em 2024, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelaram que mais de 9 milhões de jovens de 15 a 29 anos não estudavam e não concluíram o ensino médio. A maior parte dessas pessoas parou de estudar por conta da necessidade de trabalhar (41%), evidenciando que o problema afeta sobretudo a população mais vulnerável. Ironicamente, não completar a educação básica limita as possibilidades de trabalho e de qualificação profissional desses jovens, ampliando as desigualdades que os impeliram a abandonar os estudos. Em busca de reverter esse ciclo e acessar melhores oportunidades, parte deles retorna aos estudos tempos depois por meio da EJA.

Intitulado Permanência, abandono e retorno à EJA: estudo em um colégio social no Vale do Sinos/RS, o artigo publicado em Comunicação e Educação é fruto da pesquisa realizada pelos pesquisadores Sueli Maria Cabral, doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos), Daniela Erhart Loeblein, graduada em Administração de Empresas na Universidade Feevale, e Luciano Dirceu dos Santos, mestre em Letras também pela Feevale. A publicação pode ser acessada no Portal de Revistas da USP.

A pesquisa, explicam os autores, é um estudo qualitativo e foca na investigação de fatores subjetivos do comportamento humano, nesse caso, a permanência ou não na EJA. O trabalho partiu de entrevistas semiestruturadas com nove estudantes de 18 a 59 anos que concluíram ou abandonaram os estudos na EJA em uma escola social no Vale do Rio dos Sinos, RS, no ano de 2022. Esses estudantes foram divididos em três categorias com três entrevistados cada: estudantes que permaneceram até concluírem o curso (EP), estudantes que abandonaram os estudos e não retornaram (EA) e estudantes que retornaram aos estudos após um primeiro abandono (ER).

Em busca de novas possibilidades: compreendendo as razões dos entrevistados

Os pesquisadores buscaram entender quais eram as principais dificuldades no processo de aprendizagem e permanência nessa modalidade de ensino, além de identificar os principais agentes de abandono e de retorno para, assim, levantar propostas para aumentar a permanência na EJA, contribuindo para maior compreensão sobre os estudantes que frequentam essa modalidade. A abordagem do estudo é descritiva, baseando-se na análise e ordenação dos dados obtidos, “desvendando frequência, natureza, características, causas e correlações dos eventos, sem manipulação pelo pesquisador”.

“Na época que fiz a escolha, eu fiz para ajudar meu filho que estava no 9º ano de uma escola estadual… E como eu terminei primeiro o 9º ano, acabei não conseguindo ajudar e ele foi reprovado. No semestre seguinte, consegui auxiliá-lo porque eu já estava no 1º ano do Ensino Médio.” EP1, estudante entrevistado durante a pesquisa

Entre os alunos que abandonaram a EJA, a necessidade de sustento da família ou de cuidar de pessoas vulneráveis foi a principal motivação para a evasão: “eu não consegui me formar esse ano, né?”, diz uma das entrevistadas, “porque eu precisei parar para cuidar da minha avó, porque foi uma época difícil, ela teve internada no hospital”.

“Muitas vezes”, afirmam os pesquisadores, “por falta de uma rede de apoio, as mulheres precisam priorizar o trabalho e a criação dos filhos”. Algumas voltam aos estudos, quando os filhos já estão maiores, em busca de realização pessoal e profissional, porém, “a dificuldade em dar conta de tudo, de conciliar trabalho, família e estudo” ainda é uma das maiores barreiras para a permanência.

Entre os estudantes que abandonaram a EJA, mas retornaram, a busca por desenvolvimento profissional foi o principal motivador: “a primeira coisa, como pai, hoje a gente tem que se dedicar bastante à nossa família”, diz um dos entrevistados. “Pretendo chegar a administrador da empresa em que trabalho e depois, futuramente, abrir o meu próprio negócio”. Sua fala mostra que, embora a necessidade de ir trabalhar seja um dos principais fatores para o abandono da escola, a busca por oportunidades profissionais é um grande motivador para o retorno aos estudos.

“O desejo e a vontade de crescer na vida e poder proporcionar uma vida melhor para minha filha com os estudos; eu acredito que a gente pode ter uma vida melhor, com mais oportunidades de trabalho e um salário melhor.” ER3, estudante entrevistado pela pesquisa.

Durante a pesquisa, observou-se que os entrevistados que permaneceram estudando viam a conclusão dos estudos como uma ponte para futuras perspectivas. Entre as motivações principais para seguir, destacam-se as ligadas à família, trabalho e realização pessoal. Enquanto uma das entrevistadas relatou que persistiu nos estudos para ajudar o filho estudante, outra, que terminou por ingressar no ensino superior, mencionou a possibilidade de inspirar outras mulheres com sua trajetória:

“Pretendo me formar em 2024 como assistente social e o meu projeto é justamente poder fazer com que outras mulheres compreendam que é possível alcançá-los. É preciso estudo, dedicação, se preparando sabendo que o mercado de trabalho para a terceira idade não é tão fácil, mas tendo um diferencial.” EP2, estudante entrevistada durante a pesquisa

Como aumentar a permanência na EJA?

Áreas como família, trabalho e realização pessoal se mesclam em diferentes intensidades nas razões de cada um dos entrevistados e impactam na decisão por permanecer ou abandonar a EJA, a depender do contexto. A dificuldade em “lidar com tudo de uma vez”, dizem os pesquisadores, foi um dos principais desafios enfrentados para a permanência, sobretudo de mulheres com filhos. A pandemia de Covid-19 e o advento das aulas online, além disso, afastou estudantes que não tinham aparelhos adequados e internet para acesso às atividades. A impossibilidade do aluno em acessar as aulas de forma adequada “acabava desmotivando-o na conquista dos seus sonhos”, explicam os autores do artigo.

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Por fim, Sueli, Daniela e Luciano apresentam propostas para aumentar a permanência de estudantes da EJA no colégio social estudado:

  • Escutar os estudantes que concluem e que abandonam o curso, por meio de questionários e pesquisas, a fim de planejar ações de inclusão e permanência;
  • Mapear os pontos fortes e fracos do corpo discente e manter um contato semestral com os estudantes que abandonaram o curso para convidá-los ao reingresso;
  • Continuar oferecendo transporte, alimentação, uniforme, atividades de integração e protagonismo, além de fazer visitas às residências dos estudantes para conhecer a realidade deles.

Os pesquisadores também falam na necessidade de construção de um currículo e avaliação que se adequem às especificidades da EJA, e do aperfeiçoamento das práticas pedagógicas de professores dessa modalidade, a fim de que a permanência não contribua apenas para a instrução formal dos estudantes, mas também para sua formação enquanto sujeitos.

“A função da EJA vai além de equalizar, reparar e qualificar os estudantes que frequentam essa modalidade. É a formação de um sujeito em (re)construção, protagonista, cidadão de direitos, que busca a inclusão numa sociedade que por muitas vezes o excluiu”, escrevem Sueli Maria Cabral, Daniela Erhart Loeblein e Luciano Dirceu dos Santos.

*Texto de Weslley Andrade, do LAC – Laboratório Agência de Comunicação da ECA. Versão original publicada no site da ECA.



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