O Centro Brasileiro de Referência em Informação em Saúde (CBRIS), coordenado por professora da FMRP, já alcançou mais de um milhão de pessoas com conteúdo gratuito e de fácil entendimento
Por Vitória Gomes*

A busca por respostas rápidas se tornou comum na vida dos brasileiros. Na era digital, com apenas um clique no Google, o usuário consegue esclarecer suas dúvidas, principalmente quando se trata de conteúdos relacionados à saúde. Porém, é preciso ter atenção com toda informação encontrada no ambiente virtual, alertam especialistas.
Transmitir conhecimento de qualidade sobre saúde, com linguagem acessível, se transformou em um pilar indispensável para desenvolver o letramento em saúde da população, a fim de que esta tenha maior capacidade de distinguir onde encontrar conteúdos informacionais confiáveis.

É nesse cenário que a professora Maria Cristiane Barbosa Galvão, do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, criou o Centro Brasileiro de Referência em Informação em Saúde (CBRIS) para levar informação sobre saúde de maneira clara e acessível à população por meio de uma plataforma na web.
Nascido em 2016, o projeto, que antes se chamava Fale com o Dr. Risadinha: Serviço de Informação Para Crianças, Adolescentes, Famílias e Profissionais da Saúde, tinha como plano inicial responder a dúvidas sobre saúde para o público jovem e infantil do Hospital das Clínicas da FMRP. Nesse contexto, foram adotadas ferramentas linguísticas e comunicacionais voltadas para a tradução do conhecimento complexo.
Com o passar dos anos, a iniciativa se modernizou e passou a ganhar notoriedade com o público adulto. Hoje, com uma estética visual mais neutra, o projeto continua trazendo informação de excelência, disponibilizada gratuitamente para a população, chegando a alcançar mais de um milhão de pessoas tanto no Brasil como em outras partes do mundo. Contemplando nove anos de história, a professora explica como media dúvidas individuais com ciência, cuidado e dignidade comunicacional. “Entendemos que o conhecimento só se realiza plenamente quando pode ser compreendido e apropriado por diferentes públicos.”
A ideia de trabalhar rigor científico e linguagem acessível é o princípio que rege o projeto. “Formar bons profissionais e ajudar os cidadãos a sanar dúvidas referentes à saúde é a nossa razão de existir”, diz Cristiane.
Educação informacional
“Como diminuir a dor do parto”, “quem deve tomar vacina” e “o que fazer para melhorar sintomas depressivos” são exemplos de conteúdos informacionais abordados por pesquisadores para responder às dúvidas da população. “Para nós, responder às perguntas do público também é proporcionar escuta ativa e qualificada como uma parte essencial do cuidado”, afirma.
O ato de cuidar simbolicamente acompanha o sentido amplo de suprir as necessidades reais da população brasileira, em especial, para as invisibilizadas historicamente. Um exemplo recente, comenta a professora, foi o feedback de uma seguidora que perguntou: “Quais problemas psiquiátricos e neurológicos podem persistir após a covid-19?”. Quando recebeu a resposta, a leitora, residente de Santa Catarina, classificou-a como “muito relevante, atendeu à minha expectativa”. Ela ainda afirmou que entendeu muito bem a informação, e que o conteúdo ajudará a compreender melhor sua própria saúde.

Para a professora, os relatos e as avaliações provenientes do público evidenciam a dimensão técnica e humanizada do plano de ensino. “Isso mostra que nosso trabalho está diretamente alinhado aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), que reconhece a saúde como um direito de todos e dever do Estado.” E completa: “A informação de qualidade é uma parte indissociável da cidadania sanitária”.
Desafios por informações de qualidade
Apesar da boa adesão por parte dos cidadãos, o CBRIS enfrenta os maiores desafios da atualidade: a desinformação e o excesso de informação. “O excesso de informação que caracteriza o cenário atual não significa, necessariamente, que haja também excesso de conteúdo relevante. Uma parte significativa dos conteúdos disponíveis, produzidos por cientistas, não responde de forma direta e útil às dúvidas clínicas ou às questões reais de saúde da população.”

Outro obstáculo, menciona a coordenadora, é o letramento informacional. Em muitos momentos de angústia e desespero, as pessoas procuram informações na internet que, na maioria das vezes, não tem um vocabulário adequado para atender aquela realidade. “A abordagem do CBRIS implica em escolhas conscientes de estrutura textual e organização da informação, de forma a ampliar o alcance e o impacto social das mensagens, levando em consideração a estrutura educacional da população.”
Enfrentar esses desafios é o que promove a resistência do projeto, conta a professora. “O CBRIS adota escolhas tecnológicas e informacionais, guiadas pelo compromisso com o bem coletivo, garantindo a permanência do projeto. Nosso perfil é modesto, sustentado por princípios sólidos, não exploramos pessoas, não lucramos com a dor alheia e não nos alinhamos a interesses comerciais. Produzimos conhecimento e compartilhamos publicamente, de forma ética e socialmente comprometida.”
Ela enfatiza a importância da união entre o projeto, universidade pública e sociedade. “Sem a população brasileira e a Universidade, o CBRIS não seria possível, pois é a sociedade que sustenta todo conhecimento produzido. Em troca, contribuímos com práticas comunicacionais que promovem o serviço da vida, da dignidade e da justiça cognitiva”, finaliza.
No player abaixo, ouça entrevista da professora Maria Cristiane Barbosa Galvão à Rádio USP.
*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone



