A reflexão acima é do cientista norte-americano Robert K. Merton, no texto Ciência e Sociedade Democrática, e data de 1942, quando o mundo se encontrava em plena Segunda Guerra Mundial. Foi apresentada, em meio a um rápido power point, pela ex-ministra da Saúde e ex-presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, em sua palestra no debate Ciência sob Ataque, na quarta sessão do seminário USP Pensa Brasil, realizada na noite desta quinta-feira, 2 de outubro. Embora de 1942, a citação foi usada como ilustração de como a ciência não é imune aos ataques de seus detratores ou de interesses que trafegam na direção de sua fragilização. Trindade a utilizou como uma demonstração dos desafios que a ciência enfrenta para ganhar e manter a confiança da sociedade.
Para Carlos Pacheco, professor da Universidade de Campinas, ex-reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica e ex-diretor da Financiadora de Estudos e Projetos/Finep, “o assunto é importante, atual, pois vivemos o negacionismo sob as ordens do presidente dos EUA, Donald Trump”.
“A ciência nasceu na Europa e sua versão mais moderna surgiu nos EUA, depois da Segunda Guerra, nos anos 1950 e 1960, quando houve grandes avanços, a Guerra Fria a impulsionou”, relembrou. “Curiosamente, a crítica à ciência vem da classe média norte-americana, por razões de negacionismo ou religiosidade. No Brasil esse fenômeno é menor”, acrescentou, emendando com elogios à USP, especialmente pela implantação da política de cotas no vestibular.
“O hermetismo da ciência prejudica a sua imagem”, alertou o médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva. “A ciência tem que praticar a autocrítica, senão dá espaço aos que a querem destruir.” Para ele, uma ciência complexa e cara se distancia do cidadão comum. Ironizando, disse que “pouca gente reclamaria de um eventual fechamento da Faculdade de Medicina da USP, mas o do Instituto do Coração provocaria uma enxurrada de protestos em função da percepção popular de suas finalidades e utilidade”. “Um dos desafios centrais da ciência é a comunicação”, asseverou ele, destacando que um dos caminhos para obter sucesso nessa empreitada é se aproximar das ciências sociais.
Saldiva citou que uma de suas preocupações é sentir que a ciência está sendo tratada como commoditie por interesses mercadológicos que objetivam lucrar a partir de produtos para questões de saúde. “Para a indústria farmacêutica, calvície é mercado, propagar que a pressão 12×8 já não deve mais ser considerada normal ajuda a vender remédios”, registrou.
“Interesses políticos e ideológicos, ligados à direita, lançam críticas à ciência, por isso devemos fazer autocríticas de eventuais problemas que vemos”, ressaltou Nísia Trindade. Para ela, a confiança na palavra da ciência foi fundamental no combate à recente pandemia. Deu como exemplo, entre outros, o combate à utilização do uso de medicamentos como a cloroquina e a ivermectina, cujos efeitos não eram comprovados, mas foi defendida por “vários interesses que se articularam” apregoando sua eficiência.
“A pandemia recuperou a credibilidade da ciência, demonstrou que a humanidade pode fazer coisas extraordinárias”, observou o jornalista Marcelo Leita, que mediou o debate. “Mas essa credibilidade já está desgastada”, acrescentou.
Para Nísia Trindade, é preciso paralisar os ataques ao financiamento da ciência, que costumam se repetir, pois ele é fundamental. Um caminho, inexorável, segundo Carlos Pacheco, é a ciência incorporar outros grupos sociais nessa defesa. “O objetivo de vencer as resistências passa pela opinião pública.”


