Respondendo às perguntas da lotada plateia no encerramento da última sessão do USP Pensa Brasil, na sexta-feira, 3 de outubro, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, fez duas observações críticas, uma à sociedade e outra aos partidos políticos do país:
“Precisamos deixar de ser consumidores e nos tornarmos cidadãos”.
“O sociólogo francês Maurice Duverger dizia que partidos deveriam formular alternativas”.
Realizada no Auditório István Jancsó, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária, em São Paulo, a sessão versou sobre o tema Big techs, Inteligência Artificial e Soberanias Nacionais. “Lewandovsky é uma pessoa talhada para discorrer sobre o efeito dessas novas ferramentas nas várias esferas sociais, na política, na economia, sobre como o Estado deve se posicionar frente aos desafios dessas plataformas controladas por grandes magnatas”, disse a vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, ao abrir a sessão. ”O gerenciamento de dados é uma questão muito importante, pois eles são fundamentais para o controle da vida social e hoje as plataformas exercem uma espécie de colonização do imaginário social.”
As duas citações de Lewandowski que abrem este texto demonstram a amplitude dos efeitos das redes sociais nas sociedades, em particular a brasileira. A primeira é uma resposta à forte atração que elas exercem para estimular os hábitos de consumo da população, empurrando para um segundo plano o debate sobre as questões e problemas sociais das comunidades em que vivem. A segunda, contém uma crítica à atuação do enorme número de partidos políticos com representação no Congresso Nacional que se empenham preferencialmente em distribuir recursos para as regiões que representam, deixando em segundo plano o debate sobre a solução dos grandes desafios do país.
Referindo-se ao nome do seminário O Brasil e a nova Desordem Mundial, Lewandowski lembrou das aulas do jurista Goffredo da Silva Telles na Faculdade de Direito da USP que, segundo ele, dizia que a desordem pode levar a uma nova ordem ou ao caos. “Vivemos tempos complicados da história da humanidade”, acrescentou.
Depois de fazer uma ampla digressão sobre os acontecimentos políticos internacionais no pós Segunda Guerra Mundial, no século passado, Lewandowski lembrou a falha do filósofo nipo-americano Francis Fukuyama, que previu erradamente o fim da história, com o triunfo da democracia liberal e a consolidação do capitalismo, enquanto o sociólogo francês falava em poli-crises ao redor do mundo e o historiador também francês, especializado em questões internacionais, advertia que as crises se multiplicavam, fora de controle.
Alinhavando uma sequência de crises em potencial ou já em andamento, citou a saída dos EUA do Acordo de Paris sobre questões climáticas e o fato destas se apresentaram cada vez piores; lembrou que há mais corrida armamentista na qual potências médias adquirem tecnologias atômicas; apontou a existência de guerras regionais que levam a migrações fora de controle; lembrou as contínuas crises financeiras mundo afora. Um outro dado importante, lembrado pelo ministro, é que o terrorismo se alastra, e a criminalidade organizada torna-se um fenômeno crítico global, que só pode ser enfrentado mundialmente.
“A multiplicidade de crises causa sérios problemas, com a cooperação substituída por unilateralismo e mudanças no modo em que vivemos”, analisou. “E há que lembrar que a internet, criada com a melhor das intenções, acabou sendo monopolizada pelas big techs, às quais disponibilizamos dados sem saber o que fazem com eles, a não ser que são manipulados por algoritmos e atualmente pela Inteligência Artificial – a IA”, adicionou. “A IA aprende por si só e pode chegar à conclusão que o homem pode ser considerado nocivo ao globo”.
De acordo com Lewandowski, as fake news geradas por robôs podem ter impacto tremendo nas eleições, podendo ocorrer, cada vez mais, problemas com os discursos dos candidatos. “Será muito grave que os eleitores sejam induzidos por esses discursos. Ultranacionalistas, xenófobos, fascistas lançam mão deles em suas campanhas”, advertiu.
O ministro da Justiça lembrou que a questão da soberania nacional pode ser afetada, subvertida, por intermédio das redes sociais, da internet. “Como defendê-la?”, perguntou, “pois as big techs estão em outro país”. E acrescentou: “Como um país como p Casaquistão poderia se defender de uma interferência em seu processo eleitoral?”
E desenhou o seguinte quadro:
• Nos EUA há liberdade total em relação a essa questão;
• A União Europeia propôs regras para controlar a internet;
• A China não deixa os dados dos seus cidadãos saírem do país;
• Há uma tentativa de organização no Sul Global.
“Há a intenção de criar uma nuvem brasileira para receber os dados gerados no País, estamos tateando a respeito, nos inspirando na Europa”, adiantou. “Ter uma nuvem desenvolvida por nós é o grande desafio que se antepõe ao Brasil”.
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O USP Pensa Brasil, criado pela vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda, passará a ser coordenado, a partir do próximo ano, pelo Centro Observatório das Instituições Brasileiras da Universidade de São Paulo, dirigido pelo ministro Ricardo Lewandowsky


