O risco de que cientistas locais e populações tradicionais não participem ativamente das pesquisas é o da perpetuação da chamada “ciência colonial”, em que dados e recursos naturais são explorados sem retorno justo para as comunidades de origem

A conservação da biodiversidade das florestas tropicais, como as do Congo e da Amazônica, vai além da preservação ecológica: envolve também a forma como a ciência é produzida. Para o pesquisador Gabriel Nakamura de Souza, do Instituto de Biociências (IB) da USP, é essencial garantir que cientistas locais e populações tradicionais participem ativamente das pesquisas. Caso contrário, perpetua-se a chamada “ciência colonial”, em que dados e recursos naturais são explorados por países do Norte Global sem retorno justo para as comunidades de origem.

Segundo o especialista, a conservação da biodiversidade apresenta não só uma importância intrínseca de preservação, por razões éticas e filosóficas da relação humana com outras espécies, mas também uma relevância prática. Florestas oferecem serviços ecossistêmicos cruciais, como a manutenção de estoques de carbono, provisão de materiais e regulação do regime de chuvas e da sazonalidade — essenciais para o equilíbrio ecológico e para a sobrevivência humana, especialmente diante das mudanças climáticas.
Nesse contexto, o pesquisador enfatiza a relevância de envolver cientistas locais e inclusive populações tradicionais na construção do conhecimento. “Eles conhecem melhor as necessidades, os usos, a própria floresta em si. Ao envolvê-los, estamos ganhando muito conhecimento sobre o contexto daquele lugar. Um cientista de fora muito dificilmente vai ter a mesma percepção, tanto do ponto de vista de biodiversidade, quanto do ponto de vista de usos, problemas e soluções”, comenta.
Ciência colonial
Nakamura entende que, cada vez mais, se discute a ideia de como produzir o conhecimento científico de maneira igualitária e justa, sem perpetuar métodos que envolvam explorações. Contudo, um grande exemplo disso é a “ciência paraquedas”, como explica: “É o processo em que um cientista de fora coleta e usa os dados de um local, os bens que aquele local tem, sem o envolvimento pessoal do local. Então, todos os benefícios que vêm daquela pesquisa não são vistos ou não são aproveitados por essas populações locais”.
Entre outras, a ciência paraquedas é, de acordo com o pós-doutorando, uma manifestação da chamada “ciência colonial” — em sua percepção, se baseia em pesquisadores de países do Norte Global se valerem dos dados e das amostras de outras regiões, desenvolvendo sua ciência sem nenhum ganho ou benefício das populações locais. Segundo Nakamura, as organizações internacionais têm um papel fundamental em apontar esses problemas e gerar ferramentas ou dispositivos que evitem a prática desse tipo de ciência.
Para o especialista, um dos poucos exemplos disso é o Protocolo de Nagoya, que diz que os benefícios vindos de materiais genéticos da biodiversidade devem ser divididos de maneira igualitária e justa para aquela população ou para a comunidade da qual aquele recurso foi coletado. “Mas é uma visão muito restrita do que é a biodiversidade, que se refere só a recursos genéticos. A biodiversidade vai muito além disso, e os ganhos que as populações locais podem ter são muito maiores do que só em relação aos produtos genéticos gerados”, informa.
Nakamura entende que esses acordos devem ser reestruturados, de modo a contemplar outros benefícios provenientes da biodiversidade, em relação ao desenvolvimento e produção de conhecimento. “É como se fosse aquela divisão de trabalho clássico de qualquer commodity. Países do Sul Global servem para fornecer matéria-prima, enquanto ela é transformada em algo de muito mais valor, que envolve mais pessoas e desenvolve outros locais. Funciona de maneira similar quando estamos falando de dados da biodiversidade.”
O pesquisador acredita que as organizações internacionais têm o papel de evitar a prática da ciência colonial, através de acordos que reconheçam que a biodiversidade e os seus ganhos vão muito além de só produtos que podem ser monetizados. “Envolve construção de conhecimento, e por isso a importância de envolver cientistas e populações locais, e que esse conhecimento gerado seja compartilhado de maneira igualitária e justa”, conclui.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.



