segunda-feira, maio 18, 2026
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o cênico, a performance e outras histórias em São Paulo – Jornal da USP


Algumas semanas atrás, aprumava-me na cadeira do Teatro Liberdade, no bairro de mesmo nome, na zona central da cidade de São Paulo, enquanto comia uma pipoca salgada e aguardava ansiosamente pela entrada de Vera Fischer e demais membros do elenco na peça O casal mais sexy da América.

Lembro-me de quando criança ter aquela ideia louca de fugir com o circo. Andar na garupa da trupe e da vida como parte de um grupo saltimbanco que conhece novas cidades e pessoas, vivendo aventuras, descobertas e aprendizados com a vida fluindo através da arte . O circo, para mim, é uma forma de teatro. Enquanto contemplo o palco, percebo as similaridades com a ideia do circo que tinha quando pequeno: os holofotes sendo posicionados, o aparato tecnológico estrategicamente posicionado, as cortinas quase sendo levantadas e os membros da produção organizando-se para o início do espetáculo. Imagino os atores, nos bastidores, deixando o frio do estômago percorrer o corpo mostrando os assombros e encantos de admirar-se com o novo, a expectativa do nascimento da arte. Estaria eu em um circo da vida?

A cena cultural de São Paulo tem se desenvolvido com a popularização de peças teatrais e adaptações de grandes espetáculos, inclusive teatros musicais da Broadway como Wicked, A cor púrpura, Priscilla, a rainha do deserto, Hairspray e tantos outros (eu assisti a todos esses). Além disso, o circuito de comédias (re)ascendeu com o stand-up comedy e improvisações que versam sobre temas do cotidiano, por vezes com toques de acidez e crítica social. Apesar dessa popularidade no atual, o teatro vive, sobrevive e resiste ao/pelo tempo também nos subúrbios, nos guetos, nas experimentações de coletivos, grupos independentes e na pesquisa cênica.

Voltando ao teatro, após alguns minutos de espera entram no palco Vera Fischer, no papel de Susan White, Leonardo Franco, como Robert McAllister, e Vitor Thiré, como o “boy” do hotel. A cena inicial é de Susan chegando a um hotel para o velório de um ex-colega de elenco de uma grande série de TV de muitos anos atrás, da qual ela era uma das protagonistas. Após divertidas interações entre Susan e o boy do hotel, onde percebo o choque de gerações e suas dinâmicas – geração da presença e do toque versus geração TikTok –, entra em cena Robert, também ex-colega de Susan que revezava o protagonismo na série de TV no passado.

O velório não acontece na peça, sendo este o pano de fundo que justifica o encontro de Susan e Robert. Ao navegar nas trilhas das memórias e experiências, ambos dialogam sobre suas vidas após a série de TV e no tempo presente. Logo percebo que nas camadas da comédia, surgem temas bem profundos, como etarismo, diferenças de gênero e questões econômicas, profissionalização, assédio, romance, relacionamentos e sonhos.

Sem querer dar spoilers, a peça é, sobretudo, uma crítica social sobre envelhecimento. De autoria do norte americano Ken Levine e com direção brasileira de Tadeu Aguiar e um grande time criativo, a montagem também dialoga com o tempo presente onde redes sociais tornam fluidas e temporárias nossa relação com o tempo, com o social e com a imagem (a nossa, a que emitimos sobre o outro, a das coisas, etc.), questões de sexo, relacionamento, luto, machismo e tantas outras importâncias do contemporâneo.

Pesquisadores das artes cênicas têm voltado seus olhares às muitas formas de produzir teatro, como Maria Lúcia de Souza Barros Pupo, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, David José Lessa Mattos, autor de uma obra intitulada O Espetáculo da Cultura: Teatro e TV em São Paulo (1940-1950), fruto de sua tese de doutorado no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Rosangela Patriota Ramos, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Artes e História da Cultura (PPGEAHC) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (entre tantos outros).

Nas trilhas que deixam esses autores e nas dobras de suas pesquisas que desdobram-se em outras possibilidades, percebe-se que o mundo cênico é um universo de signos, significados e marcas que são impressas tanto nos corpos dos atores, ao incorporarem os mais diversos personagens, quanto nos espectadores, no público que recebe aquela produção e participa de sua construção ao identificar-se com os dilemas cotidianos, as expectativas e as experiências dos personagens. É importante mencionar também que as adaptações da literatura (as histórias, os textos e roteiros) ao teatro performado retiram de algum lugar seus elementos narrativos, um lugar com um contexto histórico, social, dramatúrgico, moral, filosófico e até mesmo religioso. Logo, o conjunto desses signos, ao compor o cênico, não constituem aleatoriedades, mas possuem propósitos específicos (tirar risadas, levar o indivíduo ao pensamento crítico, indagar reflexão, etc.).

Indo nessa direção, performar teatro é traduzir uma metalinguagem fixa (em um roteiro, por exemplo) em oralidades que se movimentam e assim constituem gestos e danças semióticas que articulam sentido, reconhecimento e experiências, uma hermenêutica cênica que se incorpora no campo das linguagens e filosofia e assim dialoga com a estética, a crítica e a criação, conforme é possível perceber em autores como Paul Ricoeur, Theodor W. Adorno e Mikhail Bakhtin.

Após aproximadamente uma hora e meia de espetáculo, entre risadas, tensões e saudosismo, saí do teatro extasiado, sorridente e ao mesmo tempo pensativo nas críticas abordadas de forma discreta, sincera e sensível ao longo da peça. Pensando bem, essa experiência provocou-me a reflexão sobre como estamos caminhando, enquanto sociedade plural e diversa, ao encontro com a maturidade, as idiocrasias e questões elementais de envelhecer, de ser e pertencer a um mundo que não reflete sobre o avanço da idade e suas problemáticas e questões específicas, que passa acelerado nas telas de smartphones e laptops, que pensa a terceira idade como envolta em cinzas e nubladas pelas desimportâncias sociais.

Enquanto estava em São Paulo, outras peças teatrais me chamaram atenção, como A última entrevista de Marília Gabriela, coestrelada por Marília Gabriela e seu filho, Theodoro Cochrane, Cenas da menopausa, coestrelada por Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello, Fica comigo esta noite, com Miguel Falabella e Marisa Orth, e tantas outras, cada uma constituindo um universo de risadas, dramas, diálogos irreverentes e tramas de nostalgia, crítica social e histórias, muitas histórias. Não pude vê-las, entretanto, considerando o tempo e outros compromissos. Mas fica, certamente, para uma próxima oportunidade. Mal posso esperar!

Por isso, quando estiver em São Paulo, faça um favor a si mesmo e vá ao teatro. Precisamos de holofotes em mais Veras, Claudias, Migueis e tantos outros que já estão incorporados à arte brasileira e que fazem nossa vida um pouco mais adocicada e leve através do teatro. Às vezes, o que precisamos mesmo é de uma boa pipoca e muitas gargalhadas.

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