O verdadeiro cristão, diz Marília Fiorillo citando Tertuliano de Cartago, é aquele que aceita sem piscar, submetendo-se a uma revelação que emerge diretamente do inefável mundo espiritual
A professora Marília Fiorillo, nesta sua coluna, responde a uma intrigante questão: por que a retórica religiosa continua a exercer tanta influência sobre as pessoas mesmo em tempos de racionalidade e ciência. “A força persuasiva da retórica religiosa reside não da clareza ou da lógica, mas do poder do paradoxo e do mistério para comover e converter. Diferentemente da argumentação demonstrativa, ela se sustenta no pathos e numa autoridade revelada que exige submissão, não compreensão racional. Ao contrário da retórica jurídica, em que clareza e coesão seriam predominantes, quando não obrigatórias, a retórica religiosa extrai sua capacidade de convencimento da ambivalência, das lacunas, da obscuridade. Como disse Tertuliano de Cartago, o mais brilhante argumentador dos primeiros padres da Igreja, depois de Agostinho de Hipona (a África do Norte, até o século 5, produziu os grandes teólogos), ‘creio porque é absurdo’. Quanto mais nebulosa e inescrutável for a mensagem, maior a comoção criada e, em consequência, mais vigorosa e imutável será a conversão. É por isso que a palavra dogma, na sua acepção original, é sinônimo de mistério, de uma verdade desvelada não por sua consistência lógica, mas exatamente pelo oposto: as incongruências, os oxímoros, os disparates. ‘Creio porque absurdo’ é o pilar da crença revelada, pois não precisa de provas. Aliás, as despreza como algo impertinente. O que Tertuliano sugere é que o verdadeiro cristão (ou o legítimo crente, como preferirem) é aquele que aceita sem piscar, submetendo-se a uma revelação que emerge diretamente do inefável mundo espiritual, sem a mediação de fundamentos, métodos ou juízos de outra ordem. A retórica religiosa é puro pathos (paixão, emoção passiva). Como Tertuliano é atual!”
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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