Hotéis e restaurantes estão entre os principais responsáveis pelo descarte alimentar, mas setor se movimenta por uma economia mais sustentável
Por Sophia Vieira*


A gastronomia é parte essencial do turismo. Conhecer os sabores de um destino é também conhecer sua história, sua cultura e sua identidade. Mas a fartura que encanta turistas em todo o mundo produz um rastro indigesto: toneladas de alimentos vão parar no lixo. Segundo o Índice de Desperdício de Alimentos 2024 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o planeta desperdiçou mais de 1 bilhão de toneladas de comida em 2022, e quase um terço desse volume veio de restaurantes, bares e bufês. O setor de hospitalidade — que inclui pousadas, restaurantes, catering e bares — está entre as principais fontes de descarte alimentar, atrás apenas das residências.
Para Vitória Avelino, doutoranda em Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, a questão envolve cultura, legislação e logística. A abundância é vista como símbolo de hospitalidade e estratégia para atrair visitantes, mas o que sobra costuma ter um destino certo: o lixo.

A pesquisadora aponta a falta de controle de quantidade como um fator agravante: restaurantes não medem o quanto descartam e, para evitar o risco de desabastecimento, mantêm uma hiperprodução nas cozinhas. Nas feiras e mercados ao ar livre as condições também favorecem o desperdício. A falta de refrigeração e as altas temperaturas reduzem a vida útil dos produtos.
O impacto vai além das perdas materiais. Vitória explica que o desperdício pode afetar também a percepção dos turistas sobre a experiência. Uma pesquisa feita em hotéis de Bangcok mostrou que muitos viajantes têm desconforto ao ver bufês terminarem em grandes quantidades de sobras. O que deveria simbolizar acolhimento é interpretado como descuido e desperdício.
Reação
Apesar dos desafios, o setor começa a reagir. A pesquisadora comenta que é possível observar mudanças positivas: redes hoteleiras vêm redesenhando seus bufês, cozinhas ao vivo preparam pratos sob demanda, reduzindo excessos. Hotéis substituem pratos grandes por menores, estimulando o consumo consciente, enquanto aplicativos ajudam a doar ou vender sobras a preços reduzidos. Chefs e empreendedores têm liderado esse movimento com criatividade, transformando sobras em novos pratos e ressignificando ingredientes antes descartados.
Ela lembra uma pesquisa do Booking.com, na qual mais de 70% dos viajantes relatam preferir empresas comprometidas com a sustentabilidade. Responsabilidade ambiental também pode ser um bom negócio; turistas também podem fazer sua parte. Vitória orienta que escolher estabelecimentos com porções individuais, servir-se com consciência e evitar excessos no prato faz a diferença. Valorizar cada porção, evitar desperdícios e apoiar iniciativas sustentáveis são atitudes simples que preservam culturas, economizam recursos e reduzem o impacto ambiental.
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*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo



