Cora Coralina, criado por alunos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, completa quase dez anos de atuação e inspira jovens a ingressarem na universidade com formação cidadã
Por Vitória Gomes*

A escrita é uma ferramenta capaz de transformar vidas, ultrapassar barreiras sociais e abrir caminhos para novos horizontes. Em Ribeirão Preto, essa força se materializa no projeto Cora Coralina, cursinho de redação criado há quase uma década para democratizar o acesso de estudantes da rede pública ao ensino superior.
Um dos idealizadores, Felipe Dias Mente, médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e atualmente residente em Cirurgia Geral no Hospital das Clínicas (HC-FMRP), conta que o curso surgiu com a proposta de preparar jovens para vestibulares e, ao mesmo tempo, formar cidadãos críticos e conscientes. “A democratização do acesso à universidade sempre foi nosso norte, mas queríamos, sobretudo, formar cidadãos pensantes e autônomos, capazes de se expressar através da escrita e leitura”, explica.
De acordo com Felipe, a iniciativa teve como inspiração a poetisa e doceira Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida como Cora Coralina, que em sua trajetória de vida desafiou sua própria realidade. Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 75 anos de idade. “A escolha do nome tem um valor simbólico, Anna Lins carregava sua poesia com oralidade e apelo popular do cotidiano simples. Apesar dela não ter concluído o ensino primário, não se deixou levar pelas circunstâncias drásticas que vivia. Nunca é tarde para aprender a ler e escrever. Nunca é tarde para encontrar na leitura uma forma de amenizar as amarguras do cotidiano”, pontua.
Desafios por uma educação acessível
Nesses quase dez anos de existência, já passaram pelo projeto cerca de 600 alunos, e Felipe recorda de alguns deles. “Houve um momento que me marcou muito, há um ou dois anos, já atuando como médico residente no HC e afastado do projeto, um jovem me abordou nos corredores do hospital, e disse: ‘Oi, professor, você não deve se lembrar de mim, mas me deu aula no Cora. Eu entrei na faculdade e este ano eu me formo em Fisioterapia’. Aquilo era prova de que, de alguma forma, contribuímos com a democratização do ensino superior”, conta.

O reconhecimento do projeto cresceu, mas também revelou as dificuldades enfrentadas pelos estudantes. “Em algumas reuniões, nós sentíamos uma certa frustração, porque os alunos faltavam. Até percebermos que muitos não tinham sequer dinheiro para o transporte. Entendemos que o abismo era muito maior do que imaginávamos e, aos poucos, passamos a criar estratégias para mitigar isso”, recorda Felipe.
Ensino que transforma
Atualmente, o cursinho é coordenado pela professora Mariana Kiomy Osako, do Departamento de Biologia Celular, Molecular e Bioagentes Patogênicos da FMRP. Para ela, o projeto representa transformação pessoal e profissional. “Temos alunos muito diferenciados, cidadãos sensíveis, profundos, munidos de uma vontade irresistível de mudar o mundo. Esses alunos me inspiram, todo dia, a ser uma professora melhor”, conta.
Segundo Mariana, o impacto é direto, pois os estudantes aprendem a desenvolver pensamento crítico e argumentativo. “Participar do projeto os aproxima do ambiente universitário. Eles percebem o quanto cursar uma universidade pode ser, sim, uma realidade e um lugar para alcançarem seu potencial”, afirma.
Pela primeira vez o cursinho é oferecido como atividade de extensão (AEX) da FMRP: “A curricularização da extensão foi bastante positiva para legitimar essa atividade na instituição e valorizar aqueles que dela participam”, avalia a docente.

Solidariedade que gera aprendizado
As aulas de redação são voltadas especialmente para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e demais vestibulares. “No Cora, ensinamos desde a estrutura básica até como utilizar repertórios para cada tema”, explica o ex-aluno do Cora Coralina e atual gestor do projeto, Igor Cardoso Licá, graduando em Engenharia de Produção pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp).
Igor observa que muitos estudantes chegam com grande defasagem escolar. “Eles acabam tendo dúvidas sobre a estrutura, os critérios de avaliação e, principalmente, como desenvolver parágrafos com argumentos fortes. O maior desafio é lidar com a insegurança inicial.”

Para enfrentar essas dificuldades, o projeto adota um ensaio humanizado e acolhedor. “Nosso papel é acolher, explicar com calma, mostrar que todo mundo pode aprender e oferecer espaço para que os alunos expressem suas opiniões, angústias e sentimentos sobre o vestibular”, completa.
A seleção de participantes ocorre a cada semestre, em duas etapas: preenchimento de formulário socioeconômico e entrevistas individuais.
Aulão
No dia 8 de novembro, às 9h, o projeto realizará um aulão de redação voltado para estudantes da rede pública, participantes ou não do cursinho. A atividade, que será no Teatro do Campus da USP em Ribeirão Preto, inclui revisão dos principais tópicos cobrados no Enem e outros vestibulares. As vagas são limitadas, e as inscrições devem ser feitas em formulário on-line neste link, com pagamento de uma taxa de R$ 13,00.
Mais informações do projeto estão disponíveis na página do Instagram.
*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone


