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Livro explica conceitos do pensamento feminista decolonial – Jornal da USP


O e-book “Verbetes Feministas Antirracistas Decoloniais” está disponível para download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP

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Mulher negra com cabelo black power de costas fotografando bordados
O e-book é resultado das discussões realizadas em sala de aula sobre o feminismo decolonial, um ramo do pensamento político que valoriza as experiências das mulheres da América Latina – Foto: Galia Ortega/munistgo/Flickr

 

Lançado recentemente, o e-book Verbetes Feministas Antirracistas Decoloniais é uma coletânea que reúne cerca de 20 termos e conceitos importantes para o debate feminista, sobretudo para o pensamento feminista de viés antirracista e decolonial, centrais no debate contemporâneo. Organizado por Fredson Carneiro, professor da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, o livro está disponível para download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP.

Homem de pele clara e cabelos escuros cacheados. Usa óculos, tem barba e bigode e veste ima jaqueta bege sobre uma camiseta branca
Fredson Sado Oliveira Carneiro – Foto: Arquivo pessoal

Escrito coletivamente, o livro realiza uma síntese teórica com conceitos criados e mobilizados por intelectuais e ativistas negros para pensar as vivências e formas de resistências dos corpos racializados em uma sociedade racista. Segundo Carneiro, a obra visa “oferecer aos seus leitores um conjunto de novos conceitos feministas, antirracistas e decoloniais, mobilizados pela sociedade civil e delineados teoricamente por alguns autores e autoras centrais ao debate público contemporâneo”.

Para o professor, a escolha do termo decolonial, presente no título da obra, remete diretamente ao conteúdo presente no trabalho. Diferentemente do termo pós-colonial, que se refere às produções e pensamento no período de descolonização, o pensamento decolonial, que surge na América Latina, parte de uma crítica ao eurocentrismo e às sequelas da colonização. Propõe uma descolonização do poder e do saber, como propostos nos conceitos de escrevivência, de Conceição Evaristo, contracolonialismo, de Antonio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), e amefricanidade, de Lélia Gonzalez. Esses são alguns dos conceitos apresentados e discutidos na obra.

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Uma fotomontagem com uma foto em preto e branco da escritora Ana Maria Gonçalves, que é uma mulher negra de cabelos trançados presos sobre a cabeça, sorrindo, sobreposta a um colorido mural representando, de perfil, o escritor Machado de Assis, que é um homem negro de cabelo curto grisalho e barba cheia também grisalha.

Posted: 21/07/2025

Nove mulheres e dois homens posam para foto antiga. Os homens vestem terno e as mulheres, blusas fechadas e saias compridas. Cinco mulheres estão sentadas, à frente, enquanto as outras quatro estão em pé, na fileira de trás. Os dois homens estão em pé, no centro da foto.

Posted: 03/06/2025

Posted: 14/03/2024

Segundo o organizador, a obra surgiu a partir dos debates realizados na disciplina “Feminismos e Teoria Crítica”, do programa de pós-graduação do Departamento de Ciência Política (DCP) da USP. Criada por Rúrion Melo, professor do DCP, a disciplina foi ministrada em 2024 por Carneiro. Para ele, o trabalho cumpre duas funções: ao mesmo tempo que sistematiza as discussões realizadas em sala de aula, também contribui para a disseminação de ideias centrais para o feminismo decolonial e antirracista.

Ao inserir a produção e as perspectivas de autoras e autores que pensam as questões de raça e gênero sob um viés antirracista e decolonial no debate central dentro da universidade, Carneiro e Melo rompem com tradições patriarcais, excludentes e que marginalizam o pensamento dito “não ocidental”. Para Melo, que assina o prefácio da obra, “[…] o feminismo decolonial valoriza antes os saberes ancestrais, modos de resistência e as experiências das mulheres no Sul Global, promovendo uma luta por justiça social que vai além das fronteiras impostas pelo sistema colonial.”

Sobre o livro, segundo Melo, “[…] também foi possível incorporar à discussão aspectos do mulherismo africano, um movimento que surge como uma resposta às necessidades e especificidades das mulheres africanas e da diáspora africana, que reconhece suas experiências históricas, culturais e espirituais, e reflete sobre a relação entre o bem-estar da comunidade e a libertação feminina.”

Para Helena Cunha, doutoranda do DCP da USP e autora do verbete Amefricanidade, a produção e o lançamento de um livro deste teor quebra diversas barreiras ainda presentes na sociedade brasileira e na academia. Estudante da USP desde a graduação, ela destaca que esta foi a primeira vez que teve um contato sistemático com essas epistemologias em uma disciplina.

Mulher branca de cabelo liso curto e vestindo uma camiseta colorida
Helena Sabino Rodrigues Cunha – Foto: Lattes

Desenvolvido por Lélia Gonzalez, intelectual e ativista brasileira, o conceito de amefricanidade foi apresentado no artigo A categoria político-cultural de amefricanidade em 1988. Segundo Helena, ele se refere “à presença da diversidade de culturas africanas na constituição do Brasil e da América Latina, aos impactos do racismo na formação dessas sociedades e à valorização das culturas dos povos colonizados como forma de resistências”.

Para ela, só recentemente esses conhecimentos e epistemologias passaram a ser reconhecidas. “Trazer essas mulheres, mulheres negras, como a Lélia, o que elas pensam sobre o Brasil, o que elas pensam para a América Latina como um todo, é uma forma de trazer vozes que são costumeiramente marginalizadas”, afirma a estudante.

Ela também destaca a importância da pluralidade de experiências na construção do livro e sua importância para pensar os conceitos sob diferentes perspectivas, formações e matrizes de pensamento.

O e-book Verbetes Feministas Antirracistas Decoloniais integra a Coleção ABCD Agenda 2030 e alinha-se a seis Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas: 1- Erradicação da pobreza, 3 – Saúde e Bem-Estar, 4 – Educação de qualidade, 5 – Igualdade de gênero, 10 – Redução das desigualdades e 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes.

Capa do ebook Verbetes Feministas Antirracistas Decoloniais nas cores marrom e branco, com símbolos visuais Adinkra do século 18, originários de Gana, na África Ocidental
Capa do e-book Verbetes Feministas Antirracistas Decoloniais – Foto: Divulgação

*Estagiário sob supervisão de Silvana Salles.



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