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Mostra do Cinema da USP tem narrativas presas entre quatro paredes – Jornal da USP


Em cartaz até 2 de novembro, “Quarto Fechado” apresenta filmes que exploram o cinema feito em apenas um ambiente

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Homem de óculos escuros num ambiente escuro e apertado.
Cena do filme O Barco: Inferno no Mar – Foto: Divulgação/Cinusp

 

Enquanto muitos diretores optam por narrativas com diversos cenários, alguns escolhem dissecar apenas um ambiente. E esse é o foco da nova mostra do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), Quarto Fechado, que teve início no dia 13 e fica em cartaz até 2 de novembro nas salas do Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri, localizado na Cidade Universitária, e no Centro MariAntonia, na Vila Buarque, região central de São Paulo. A programação completa da mostra está disponível no site do Cinusp. A entrada é grátis.

Homem de cabelos encaracolados.
O curador Paulo Cipis – Foto: Arquivo pessoal

Os filmes da programação não apresentam semelhança narrativa, mas sim técnica. Quarto Fechado explora obras que se passam em apenas um ambiente. “Nosso desejo é tentar investigar filmes que trabalham com uma limitação espacial”, conta Paulo Cipis, um dos curadores do Cinusp. 

No entanto, cada um dos filmes lida com o enclausuramento de forma própria. Para alguns, estar preso é fator importante para a narrativa, enquanto para outros é uma imposição estética formal, forçada pelo diretor.

O Anjo Exterminador (1962), de Luis Buñuel, é um exemplo de limitação espacial essencial à história. Nele, um casal da elite aristocrática convida seu grupo de amigos para um jantar. Por uma razão inexplicável à plateia e aos personagens, eles ficam presos dentro da sala. “Uma coisa interessante que Buñuel tenta fazer aqui é questionar a estrutura de pensamento racional, que busca uma razão linear das coisas”, afirma Cipis. A sala, então, torna-se palco de discussão sobre por que não conseguem sair, e as verdadeiras facetas dos personagens começam a aparecer.

No filme O Barco: Inferno no Mar (2017), dirigido por Wolfgang Petersen, a relação entre os dois elementos é tanta que o espaço formal começa a coincidir com o espaço da narrativa. Ele conta a história da tripulação de um submarino nazista, enviada em uma missão durante a Segunda Guerra Mundial. “O submarino é essencialmente um espaço de vulnerabilidade, o que é muito contraditório se pensarmos que ele é essa estrutura de metal, a princípio impermeável”, diz o curador. Por ser gravado dentro de um submarino real, o movimento da câmera é limitado. “Em duas horas de filme num mesmo ambiente, a narrativa vai ter que se relacionar com esse espaço, visual e esteticamente.” 

Pessoas sentadas nos dois lados de uma mesa comprida, com castiçais e velas acesas.
Cena do filme O Anjo Exterminador – Foto: Divulgação/Cinusp

 

O ambiente de A um Passo da Liberdade (1960), do diretor Jacques Becker, também é delimitado pelo roteiro. Quatro prisioneiros encarcerados no mesmo local planejam fugir da cadeia quando um novo membro é transferido para a cela deles. “Quando pensamos em uma mostra que se passa em ambientes fechados, a cadeia é um motivo recorrente”, explica Cipis. “É um filme muito interessante, porque, além de questionarmos se ele caberia na programação por questão de escala, do tamanho do lugar, ele tem uma cena na parte de fora. Mas mesmo ela serve para reforçar a ideia do confinamento”, continua.

Olhos de Serpente (1998), do diretor Brian de Palma, também entrou na discussão sobre o que é um ambiente, porque o espaço limitado não é apenas um quarto, mas sim um cassino inteiro. Rick Santoro, interpretado por Nicolas Cage, é um detetive corrupto que assiste a uma luta de boxe em um cassino, quando o secretário de Defesa dos Estados Unidos é assassinado dentro do prédio. Para investigar, a polícia fecha o lugar — ninguém pode entrar ou sair — e o detetive se envolve no caso. “O motivo de se passar em um lugar só é plenamente narrativo, embora formalmente seja um filme muito interessante também.”

Homem vestindo uma toalha e fumando charuto ao lado de um homem de terno e gravata.
Cena do filme Olhos de Serpente – Foto: Divulgação/Cinusp

 

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972), por Rainer Werner Fassbinder, já entra na categoria de obras que têm limitação espacial por opção estética do diretor. Petra é uma estilista de moda que se apaixona por uma modelo de forma obsessiva e entra em decadência. A história é contada apenas pelos momentos em que está dentro do seu quarto, e a passagem de tempo pode ser percebida por sutilezas no roteiro. “A limitação espacial faz o espectador sentir que a personagem está presa em si, o que reforça o fato de ela ser uma personagem absolutamente narcisista”, conta Cipis.

Três mulheres, uma ao lado da outra, mostradas de perto.
Cena do filme As Lágrimas Amargas de Petra von Kant – Foto: Divulgação/Cinusp

 

Outro filme da mostra é Essa Secretária Eletrônica Não Recebe Mensagens (1979), do diretor Alain Cavalier. O curta apresenta um homem com o rosto enfaixado, sem nome, perambulando por um apartamento enquanto narra seus pensamentos. “É um filme sem identificação, porque é uma personagem sem nome em um apartamento sem lugar”, explica o curador. Em determinado momento, o homem começa a pintar as paredes de preto como forma de se enclausurar. A sensação que o espectador tem é de que o espaço se fecha e o lugar se torna completamente escuro.

Homem sentado, com a cabeça enfaixada e sem sapatos.
Cena do filme Essa Secretária Eletrônica Não Recebe Mensagens – Foto: Divulgação/Cinusp

 

Além deles, a programação conta com O Farol (2019), filme com Robert Pattinson e Willem Dafoe, e um “noitão” de Jogos Mortais dia 31 de outubro, que apresentará Jogos Mortais I, II e III.

A mostra Quarto Fechado, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), está em cartaz até 2 de novembro nas salas do Cinusp instaladas no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo) e no Centro MariAntonia (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. A programação completa da mostra e mais informações estão disponíveis no site do Cinusp

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro



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