De uma forma ou de outra, todas as mulheres citadas na obra organizada por Maria Luiza Tucci Carneiro subverteram uma ordem existente. Ao Jornal da USP, a professora explica que o conceito de ordem e desordem utilizado em Mulheres Subversivas foi inspirado em pensadores como o historiador francês Roger Chartier, o etnólogo francês Georges Balandier (1920-2016) e o historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012), “que nos incentivam a tornar públicos aqueles anônimos da história”. Nesse sentido, a obra visa a entender que “nem sempre a desordem cria o caos”, como diz Tucci. “A desordem altera uma realidade no sentido de trazer dias melhores, de inovar, do ponto de vista de preparar a sociedade para dialogar com a diversidade.” Embora a mulher seja associada à representação do caos coletivo, a professora busca demonstrar que o que cria o caos, de fato, são “os estereótipos que alimentam os mitos machistas e suas versões racistas e discriminatórias”.
Por isso, ela crê na importância de dar voz a essas mulheres e às suas lutas, ainda que se trate de um processo lento, já que as narrativas e mesmo as fontes de informação são e foram, em sua maioria, controladas pelos homens. Tucci cita como exemplo o fato de que muitas imigrantes que trabalharam como escritoras ou operárias aparecem, nos registros oficiais, como “donas do lar” ou tendo como ocupação “prendas domésticas”, o que é, também, uma forma de apagamento. Tanto na coletânea como no projeto Travessias, que ela desenvolve no Leer, a professora quer “corrigir alguns lapsos desses arquivos, que acabam contribuindo para tornar essas mulheres personagens semi-invisíveis da história, mesmo quando é uma personagem importante das cenas históricas”.
A “desordem” a que Tucci se refere é indicada, também, nas capas dos dois volumes de Mulheres Subversivas, que têm vários de seus elementos fora da ordem tradicional. Por exemplo, o nome da organizadora aparece como “Tucci Luiza Carneiro Maria”, em vez de Maria Luiza Tucci Carneiro, enquanto títulos e os subtítulos aparecem desalinhados. A questão do design e da ilustração surge com frequência na obra, que tem, ao longo de suas páginas, xilogravuras feitas por mulheres, além da presença de elementos da literatura de cordel e de obras de Lasar Segall e de Candido Portinari — também presentes nas capas e contracapas.
Ao Jornal da USP, Maria Luiza admite a intenção de lançar pelo menos mais dois volumes da coletânea. “A minha ideia é publicar artigos que mostrem a mulher no período da colonização, no século 16 ao 18, e, basicamente, voltados para as mulheres dos colonizadores nesse período. E, já adentrando o século 20, abrir um espaço para a história das mulheres operárias e ligadas às ciências exatas.”


