Luli Radfahrer comenta um comportamento que se normalizou, qual seja, o das pessoas darem mais atenção ao celular do que com quem estão conversando, “uma baita falta de respeito”
Hoje (17) o professor Luli Radfahrer fala sobre o que considera uma gafe social trivial, mas que se transformou num comportamento normalizado e que acaba tendo um impacto social importante, que é o hábito de as pessoas usarem o celular quando estão, por exemplo, em salas de aula ou conversando com outras pessoas, sem lhes dar a devida atenção por conta dessa intrusão tecnológica. “Isso é uma baita falta de respeito e, na verdade, isso é resultado de escolhas deliberadas de design feitas pelas empresas de tecnologia. Os smartphones evoluíram. Eles eram ferramentas de comunicação e hoje eles são dispositivos que capturam a atenção. Várias pesquisas mostram que uma pessoa média agora toca no celular mais de 2.500 vezes por dia […] esse tipo de comportamento se torna invisível e se normaliza, virando um novo padrão. O problema está na modulação da atenção. A gente reduz a importância da presença humana que está na frente em nome de uma presença que está a distância através do telefone. Mas a mensagem é muito clara: ‘Este dispositivo é muito mais importante do que você agora’.”
Segundo Radfahrer, até a terapia de casal aponta o uso do celular como um problema muito sério e crescente nos relacionamentos. “Na verdade, ele está sendo comparado até com níveis de agressão verbal. As pesquisas mostram que mesmo uma breve notificação telefônica, de dois ou três segundos, interrompe o seu desempenho cognitivo por até 15 minutos. Durante as conversas, essas interrupções fragmentam a atenção, o resultado é que você não lembra direito o que foi dito ou não lembra direito o que está dizendo e começa a se repetir. O resultado é que a gente nunca está totalmente presente”, um comportamento que só se agrava quando se está tratando com crianças. “O uso frequente do telefone pelos pais durante as interações está correlacionado ao aumento de problemas comportamentais, à redução do desenvolvimento da linguagem e à dificuldade de regulação emocional em crianças […] O mais preocupante: as crianças aprendem por modelos e aprendem ali que uma tela é muito mais importante do que uma pessoa”, afirma o colunista.
Diante de tudo isso, uma questão se impõe: como evitar esse tipo de atitude? “Bom, o ideal seria regular as big techs, mas isso ainda é um sonho distante. O que a gente pode fazer automaticamente e agora é desligar todas as notificações. Quando for conversar com alguém, guardar o telefone fora de alcance, normalmente numa outra sala ou na bolsa, e separar um tempo para responder mensagens […] A questão, na verdade, não é se a gente pode mudar, mas se a gente quer mudar. Se a gente escolhe acabar com essa história de estar disponível o tempo todo, antes que os custos da exploração da atenção se tornem irreversíveis.”
Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.
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