A sanitarista Danielle Ichikura analisou em seu estudo de mestrado apresentado na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP relatos de jovens indígenas LGBTQ+, que usam a dança e a música para superar preconceitos
Por Isabela Nahas*

“Eu só quero amar, dançar e ser feliz”: Experiências de jovens indígenas LGBTI+ em São Gabriel da Cachoeira (AM) é o título de um estudo de mestrado que mostra como o apoio familiar e das amizades é um ponto-chave para que jovens indígenas LGBTQ+ tenham uma vida saudável. Para realizar sua pesquisa, a sanitarista e autora do estudo Danielle Ichikura conversou com uma indígena lésbica e um indígena homossexual. O entrevistado, que não possui rede de apoio, é mais recluso e menos confiante do que a garota. Apesar de terem experiências diferentes, ambos usam a arte como válvula de escape para o preconceito e para conquistarem espaços onde podem ser quem são.
“A questão da violência, do sofrimento, isso é importante, tem que ser nomeado, mas a experiência deles não é só sobre isso. Se fosse só sobre isso, eles não sobreviveriam, assim como nenhum de nós. A gente precisa de alegria!”, diz a pesquisadora em entrevista ao Jornal da USP. Em 2024, Daniela passou três meses na cidade de São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas, quando entrou em contato com os jovens.
A entrevistada Rafaela é uma garota lésbica da etnia indígena Baré, de 16 anos. Para viver sua sexualidade e enfrentar preconceitos, ela fez alianças com parentes e amigas. A adolescente relatou que faz questão de demonstrar publicamente sua forma de amar, apesar de enfrentar olhares e palavras de desgosto.
Já Aguiar tem 20 anos e é um jovem homossexual da etnia Tuyuka. Ele não encontrou essas redes de apoio, o que o levou ao isolamento e, por um tempo, à depressão. Ele evita sair de casa e se relaciona com garotos de fora da sua cidade para evitar boatos e homofobia. Ao mesmo tempo, é ativista pelas causas da diversidade no local onde estuda e vê a arte como o recurso que o salvou.
Na época da depressão, teve artistas americanas que me inspiraram bastante também: a Katy Perry, a Lady Gaga e todas as divas pop que a gente conhece foram uma inspiração para eu seguir vivo –
Aguiar, jovem indígena
Graduada e mestre em Saúde Pública pela FSP da USP, Danielle Ichikura é sanitarista, que é o profissional responsável por planejar e coordenar atividades de saúde coletiva. Ela diz que o estudo dos impactos da saúde e da doença dentro da sociedade é importante tanto para a realização de atendimentos quanto para que as políticas públicas de saúde sejam eficazes. “A gente precisa trabalhar com os dados, mas no final das contas, esses dados falam sobre pessoas”, explica a pesquisadora.
De onde vem a identidade?
São Gabriel da Cachoeira (SGC) fica no norte do Amazonas, na fronteira com a Colômbia. Com cerca de 57 mil habitantes, a cidade é a segunda com mais indígenas no Brasil, atrás apenas de Manaus, segundo os últimos censos e estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Danielle Ichikura escolheu o local pois “o passado colonial permanece vivo nas ruas, assim como os corpos e desejos que as compõem”, escreve.
De acordo com as referências da sanitarista, indígenas de etnias brasileiras como os Tupinambá não consideravam a homossexualidade como algo fora do normal. Foi a partir da chegada dos colonizadores que a moral contra expressões LGBTQ+ começou a ser imposta aos grupos tradicionais. Danielle Ichikura descreve que, hoje em dia, não são as etnias indígenas que necessariamente definem os valores de sexualidade, mas sim, a família e a religião. E isso se refletiu nas entrevistas.
Segundo a pesquisadora, a construção da identidade na juventude não é linear, mas sim uma jornada de negociações, conflitos e descobertas. O texto explica que, quando alguém diz “eu sou”, está indo além de uma descrição momentânea e está afirmando algo que define quem ela é em um nível profundo. Essa definição se constitui a partir das experiências, das interações sociais e da cultura que permeiam a vida de cada um.
A identidade sexual também faz parte de como as pessoas se colocam na sociedade e envolve trajetórias com experiências e aprendizados. A pesquisadora, então, afirma que a direção do desejo sexual não é uma escolha, mas sim uma construção que surge a partir das interações sociais e das normas culturais que regulam a sexualidade.
O momento em que Aguiar foi expulso de casa pode ter sido definitivo para moldar a forma como ele se coloca no mundo, com uma personalidade mais fechada. Ele relatou que a família e os amigos se afastaram por considerarem sua sexualidade como algo que vai contra princípios religiosos. Já Rafaela, que tem o apoio das amigas e do padrasto, se mostrou mais extrovertida e confiante.
Nem tudo é sobre violência
A ideia inicial de Danielle Ichikura para o mestrado era entender as dinâmicas da vida sexual de jovens indígenas. Porém, quando chegou em SGC, ela teve dificuldade em encontrar pessoas que quisessem conversar com ela, e só duas estavam dispostas a participar das entrevistas. A pesquisadora encontrou Rafaela quando a estudante participou de uma batalha de dança em sua escola, sendo a vencedora da competição. Já o contato com Aguiar ocorreu pelas redes sociais, e a aproximação foi mais lenta.
Quando a sanitarista descobriu que os dois jovens eram LGBTQ+, teve que mudar o tema da pesquisa. Na iniciação científica, Danielle teve o primeiro contato com SGC para falar sobre violência obstétrica junto a seus orientadores, professor José Miguel Nieto Olivar e professora Cristiane da Silva Cabral. Na pós-graduação, ela queria se distanciar do tema. “Eu tentei e falhei em me afastar da violência”, diz a pesquisadora.
Mas nem todo o mestrado de Danielle é sobre sofrimento. A internet se mostrou crucial na vida dos jovens indígenas LGBTQ+, pois é um local onde eles falam abertamente sobre quem são. No mundo físico, quem tem esse papel é a arte. Seja no Festribal, famoso evento cultural na cidade, ou nas quadrilhas, Rafaela e Aguiar disseram que a dança e a música são linguagens que eles usam para se expressarem livremente, e é nelas que os jovens encontram alegria.
“Aqui na cidade a arte ajuda muito a gente, jovem, e acho que as lésbicas também. Eu danço na quadrilha, por exemplo, e quando eu tô namorando eu gosto de dançar com a minha namorada mesmo, na frente de todo mundo! Sabe Dani, eu só quero dançar, amar e ser feliz!” –
Rafaela, estudante indígena
*Estagiária sob supervisão de Antônio Carlos Quinto




