domingo, maio 17, 2026
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Há 50 anos, Vlado foi morto pela ditadura. Mas as lições do professor continuam – Jornal da USP


Yasmin Constante, 19 anos, quarto semestre de Jornalismo na ECA-USP: “Eu sempre me enxerguei no jornalismo, talvez por traços da minha personalidade como a curiosidade e extroversão, mas também por acreditar que o seu papel continua sendo fundamental. 

Apesar de trabalhar, sobretudo, com temas atuais – ou quentes, como costumamos chamar – nada de teor jornalístico surge sem um contexto. Trabalhar com os recentes acontecimentos da história do nosso País, como a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, não faz sentido se não estiver intrinsecamente ligado ao passado e à história do País, ou da profissão que escolhemos. Como bem ensinou Vlado, ‘o jornalista não deve temer chegar ao fundo do poço na busca dos fatos, da verdade…’.’’

Theo Schwan, 24 anos, 4° semestre de Jornalismo na ECA-USP: “Desviamos, por diversas vezes, do crepúsculo da democracia. Não espanta que uma república fundada por um golpe militar enfrente ciclos de ameaças autoritárias. O que surpreende é a insistência dos agentes da história em preservá-las. A luta de Herzog foi um marco do seu tempo, mas ainda continua muito atual.

A defesa da livre expressão, dos direitos humanos e da democracia é o que me move enquanto estudante de jornalismo. Eventos recentes, como a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 e as pressões pela anistia aos seus perpetradores no Congresso, ecoam 1964, 1937 e 1930, dentre outras incursões autoritárias. São episódios que mostram que o Jornalismo nunca foi garantido. É uma conquista que precisa ser defendida continuamente.

Vindo de uma graduação anterior, encontrei propósito na transparência da comunicação. A escolha pelo Jornalismo é uma consequência do impulso de questionar e do compromisso firmado com o coletivo. Acredito que esse estado de inquietude, de busca pela verdade, seja o cerne da profissão. Foi a bandeira levantada por Herzog e é a bandeira que o Jornalismo deve levantar hoje, dando voz aos calados pela História (aquela com H maiúsculo). 

O assassinato de Vlado é a cicatriz que nos lembra do custo da censura e do autoritarismo. Ser jornalista, para mim, é carregar seu legado de verdade, justiça e democracia. Que sua memória seja uma bênção. ”

Jean Matheus de Oliveira da Silva, 24 anos, sexto semestre: “Escolher uma profissão foi definir se eu viveria prestes a explodir ou explodindo. Quando explodo, palavras saem descontroladamente. Elas tomam conta e a prosa vira respiro. Vladimir Herzog teve a coragem de deixar suas palavras eclodirem no mundo. Coragem, porque escrever é um ato político. O jornal é um ato político, o que a história só comprova com a morte de Herzog durante a ditadura. Mas a quem criticamente vive, a escrita não é uma decisão. É dever. 

Esse quase fardo é o motivador do nosso dizer. Então, me graduar em jornalismo foi natural para desenvolver minha inquietação constante. Pois, na adolescência, me permitiu ver além de mim e acendeu essa curiosidade e indignação com o mundo. Também me salvou, me formou e me encantou com todos os grandes jornalistas que denunciaram tiranias. 

Eles que sonham com utopias de um mundo mais justo, mas a angústia volta ao confrontar a distopia que ele é. Noticiar é um dos poucos caminhos em que a angústia vira produção e luta. Herzog sabia disso, tanto que seus ideais, seja a defesa da democracia ou dos direitos humanos, são valores que perpassam seus escritos. Foi morto por se comunicar. Explodir em palavras.

Tão perto da recente história de uma tentativa de golpe, seria uma vergonha para minha memória crítica não produzir essas explosões prosaicas. Seria adoecedor. Nessa jornada, o jornal se torna janela a outras compreensões do mundo que construam realidades distintas que não mais distopias. Uma forma de explosões organizadas.”

Diogo Spinelli da Silva, 22 anos, sexto semestre: “O processo de formação de um jornalista na USP vai muito além de aprender a operar uma câmera ou escrever bem, essas são habilidades que podemos adquirir com o tempo e a prática. O mais importante do curso é aprender a pensar como um jornalista.

Acredito que essa foi a grande contribuição de Herzog para o Jornalismo: a noção de que essa profissão tem um propósito, uma missão e um compromisso. Não se trata apenas da busca pela verdade, essa seria uma visão rasa. O jornalista é um leitor crítico do mundo ao seu redor, um ‘tudólogo’ profissional, alguém que reconhece sua própria insignificância, mas também a enorme responsabilidade que carrega. É, de certa forma, a profissionalização do pensamento socrático: ‘só sei que nada sei’.

O curso de Jornalismo nos oferece exatamente isso, um constante debate sobre as questões éticas e morais que envolvem nossa profissão. Em muitos momentos, parece que não estudamos apenas Jornalismo, mas sim crítica ao jornalismo.

Em síntese, o professor Herzog representa, para mim, o que busco ser como jornalista: alguém movido pelo amor à missão e ao propósito da profissão. O Jornalismo nunca foi e nunca se propôs a ser imparcial, mas deve ser, sempre, crítico e consciente.”

Amanda Nascimento, 19 anos, quarto semestre de Jornalismo na ECA-USP: “Sempre me incomodou a ideia de simplesmente aceitar o mundo como ele é. O jornalismo me ensinou a observar, questionar e ouvir. É nesse processo que encontro sentido.

Vladimir Herzog sempre foi, para mim, a lembrança de que o ‘fazer jornalismo’ é assumir um compromisso que ultrapassa o eu, É um pacto com o leitor, com a justiça e com a própria democracia. Sua história encarna o que acredito: o jornalismo não é (e nem pode ser) apenas um exercício técnico, mas sim uma profissão ética e humana. Herzog manteve essas convicções até o final. Talvez por isso ele seja um dos exemplos máximos dessa profissão — e da importância de continuar nela.”

Diego Facundini, 20 anos, sexto semestre de jornalismo: Lembro até hoje das aulas que tive com o professor José Coelho Sobrinho, contemporâneo de Vladimir Herzog, membro dessa velha guarda de docentes do curso de Jornalismo da USP, que por sorte ainda está aqui para contar a história desses tempos terrivelmente sombrios que nosso país e nossa profissão passaram durante a ditadura. Sentado, ele lia o conteúdo de algumas folhas de papel dispostas sobre sua mesa, vez ou outra levantando os olhos, se deixando levar em meio a uma enxurrada de memórias das décadas e décadas que viveu como jornalista e professor da ECA. Foi ele, contou certa vez, que defendeu a contratação de Vlado para o Conselho de Graduação da Universidade, em 1975, meses antes de seu assassinato nas dependências do DOI-CODI. Era uma lembrança que trazia consigo, sua porção de carinho e uma torrente de tristeza. A voz dele tremulava e os olhos – perdidos nas memórias desses momentos finais que pesavam e pesavam na medida que inundavam a cabeça –, os olhos marejavam, pouco antes de se voltarem novamente às folhas de papel.

Vlado foi um exemplo da coragem que ele próprio ensinava, um mártir de tudo aquilo que essa profissão representa, mas, ouvindo Coelho, percebo que, mais do que isso, ele foi um querido colega, violentamente morto pelo poder o qual temos como dever, irrefreavelmente, pôr em cheque. Afinal, o que o dia a dia na redação realmente faz é incutir, mais do que uma paixão, uma ‘neurose’ – uma neurose de informação, uma necessidade louca de correr na cola do mundo e nunca perder o passo. 

O jornalista, em tempos nos quais essa palavra parece algo tanto mais impopular, sofre nessa profissão que é fundada no incômodo, na fiscalização, na denúncia do poder, em um desejo de encontrar a verdade e publicizar aquilo que era antes oculto; mas, apesar desse peso, do perigo, do frio na barriga que a lembrança de tantos tempos terríveis trazem, ele segue essa pulsão alucinada – vasculhar tudo em busca daquilo que não querem que ele veja.”



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