Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

O que se deve esperar dos engenheiros politécnicos, numa era em que as palavras de ordem costumam ser robótica, inteligência artificial e outras desse tipo?
Uma resposta possível repousa na criação de uma das instituições culturalmente mais impactantes decorrentes da Revolução Francesa, a École Polytechnique. A Escola Politécnica de Paris foi inspirada pelo pensamento de uma elite intelectual reunida em torno dos ideais republicanos do cientista e político Gaspard Monge (1746-1818) e dois de seus antigos alunos de engenharia militar na escola de Mézières, Lazare Carnot (1753-1823), militar, físico e também político, e Claude-Antoine Prieur-Duvernois (1763-1832), militar e político, conhecido como Prieur de La Côte d’Or.
A importância da Escola Politécnica transcendeu muito a instituição e mesmo a própria França: sem o seu exemplo seria difícil entender as bases para os avanços das ciências naturais e da tecnologia na futura Alemanha dos séculos 19 e 20, especialmente em matemática, física, química e suas aplicações. De fato, foi o fracasso dos exércitos alemão-prussiano e austríaco frente à ocupação napoleônica que levou os derrotados a uma percepção de que por trás do sucesso militar francês estava seu ensino técnico-científico. A reação começaria em 1810 com a fundação da Universidade de Berlim por Wilhelm von Humboldt e o êxito de sua futura associação entre ensino e pesquisa e que assegurou um lugar de grande destaque em ciência e tecnologia.
No entanto, com poucos recursos e dentro de uma época de turbulências tremendas como foi a Revolução Francesa, como conseguiram os franceses educar os quadros cujas obras científicas se revelaram essenciais para as nações modernas? A resposta tem a ver com controvérsias desenvolvidas durante o Iluminismo francês e que se cristalizaram durante e logo após o período revolucionário.
Monge e seus seguidores contrapunham-se aos que, apesar do rótulo de iluministas, no fundo menosprezavam a ciência, como Rousseau, Voltaire e Mirabeau. Essa corrente e seus seguidores tinham conseguido acabar em 1793 com todas as academias nacionais francesas, inclusive a de ciências, e tinha lançado a perseguição aos acadêmicos em geral, acusando-os de representantes da aristocracia do Ancien Régime, ou então de serem pouco radicais, apesar de muitos deles serem revolucionários de primeira hora. A Academia de Ciências, fundada por Colbert em 1666, ao contrário do que propalavam os radicais, não era em sua maioria um antro de parasitas sustentados pela realeza, mas atuava ativamente dedicada à pesquisa, como parte integrante do governo, estando por trás de aplicações científicas práticas que muito beneficiaram a economia francesa.
Como um dos resultados da chamada reação Thermidoriana contra o Terror em 1794 (que levou à eliminação do radical Robespierre), Lazare Carnot tomou posse na chefia do Comitê de Segurança Pública. Em conjunto com Prieur-Duvernois e Monge, essa equipe cuidou de logo assentar as bases para a fundação da Escola Politécnica, aglutinando pessoas que tinham simpatias republicanas, inclusive algumas que tinham lutado na América contra os ingleses pelo estabelecimento da república independente dos EUA.
Até o momento da fundação da Escola Politécnica havia na França quatro outras escolas de engenharia principais, que não se comunicavam entre si: a escola militar de Mézières (a mais famosa), a escola de artilharia de Chalone-sur-mer, e as duas escolas civis de engenharia em Paris – a de Pontes e Estradas, e a de Minas.
Carnot e seus aliados pensaram a futura escola pública de engenharia para que lá fosse privilegiado o processo criativo da ciência, não apenas seus resultados, ou seja, os alunos não deveriam meramente receber algo pronto para decorar, mas serem capazes de pensar criticamente e fazer pesquisa por conta própria. Planejaram ainda que os ex-alunos dessa instituição fossem motivados a contribuir para disseminar ao máximo entre a população francesa essa capacidade de usar a ciência. O decreto instituindo a escola foi publicado em 1794 e vários ex-politécnicos se tornaram mais tarde professores de renome em Paris e nas províncias, onde influenciaram muitas gerações no esforço de criar uma indústria francesa de qualidade superior, com mão de obra qualificada.
A nova Escola Politécnica deveria ser interdisciplinar, compartilhar publicamente seus resultados – sem conhecimentos “secretos”, como era a prática anterior das escolas militares – e fazer com que no seu currículo todos os serviços públicos de infraestrutura (principalmente transportes e saúde pública) se entrecruzassem, na teoria e na prática. De acordo com um de seus primeiros alunos, o cientista e historiador das ciências Jean-Baptiste Biot (1774-1862), a Escola Politécnica foi fundada “em primeiro lugar para treinar engenheiros; segundo, para disseminar homens iluminados na sociedade civil; e terceiro, para despertar talentos que pudessem fazer a ciência avançar”.
Para se prevenir contra o problema que tinha enfrentado a fundação da também inovadora Escola Normal de Paris, de não conseguir selecionar bons alunos, Monge imaginou para a primeira turma de ingressantes um sistema de 25 instrutores (chefs de brigade), escolhidos e treinados por ele entre os mais capacitados, e que teriam cada um a missão de treinar grupos de 16 alunos, um método de inspiração militar que se revelou bastante proveitoso. A ideia de que, para melhor aprender, um jovem devia se tornar também um educador capaz, provinha das práticas da Ordem dos Oratorianos, responsável pela educação inicial tanto de Monge quanto de Carnot. Monge em especial era famoso por ser um professor que instigava seus alunos a debaterem o conteúdo de suas aulas e não simplesmente acatar os ensinamentos sem espírito crítico.
A equipe inicial de professores da Politécnica contava com nomes de grandes cientistas, como o físico-matemático Lagrange (depois substituído por Fourier) e os químicos Fourcroy, Berthollet e Goyton-Morveau. Além de uma ênfase muito grande em matemática, física, química e desenho geométrico, deve-se notar que o currículo da Escola Politécnica incluía desenho artístico. O pintor Neveu, professor dessa matéria, ensinava que “a arte devia atingir a alma através dos olhos”, para ensinar o senso moral; assim, ela seria instrumental para inspirar nos jovens alunos “o horror à escravidão e o amor à nação”.
Para Monge, a geometria em especial era considerada como de excepcional valor epistemológico e os alunos da Escola Politécnica foram bem treinados nessa disciplina, inclusive com as contribuições originais do próprio Monge. Estas viriam a constituir um ramo original da matemática, a “geometria descritiva”, especialmente útil para representar e resolver nas duas dimensões do plano as questões relativas a objetos no espaço tridimensional.
O intenso desenvolvimento industrial do século 19 muito deveu à aplicação da geometria descritiva, que permitiu ao engenheiro resolver rapidamente intrincados problemas de encaixes de peças de máquinas sem a necessidade de tediosos cálculos numéricos e com a vantagem de se ter uma visão global do problema. Monge estava consciente de que esses resultados poderiam ser muito úteis à metalurgia e à indústria mecânica, atividades em que a França tomou uma posição de liderança em pouco tempo. Monge insistia também que uma boa educação científica seria o melhor meio para livrar a nação francesa da dependência com relação às indústrias estrangeiras.
A nova ciência da geometria descritiva desempenhou ainda um papel importante na divulgação científica, quando se conseguiu ensinar também os trabalhadores especializados, mesmo sem formação superior, a interpretar corretamente os desenhos das máquinas que eles construíam ou operavam. Há fortes indícios de que a geometria descritiva foi relevante na formação de indivíduos criadores como Picasso e Einstein.
Uma série de fatores sociais, econômicos e culturais estão associados ao baixo desempenho matemático de nossos estudantes brasileiros. Possivelmente o desaparecimento do desenho técnico e da geometria descritiva do currículo escolar brasileiro tenha contribuído para essa situação deplorável. Os programas especializados de computador apresentam naturalmente uma solução muito mais rápida para problemas geométricos, mas não substituem a heurística, assim como uma leitura digital de texto não leva à assimilação de ideias de um trabalho literário.
O teste prático dos primeiros alunos formados pela Escola Politécnica foi a grande expedição francesa ao Egito, iniciada em 1797 e que, além de ter obviamente um caráter militar, possuía uma dimensão científica muito pronunciada. Monge e Berthollet organizaram uma comissão científica para a expedição com cerca de 150 membros competentes em ciências naturais, engenharia, medicina, literatura, música, história, geografia, arquitetura e artes industriais, dos quais um terço era constituído por jovens politécnicos. A comissão começou a trabalhar logo após o desembarque no Cairo das tropas francesas chefiadas por Napoleão, Monge e Fourier.
Essa missão pode, sem dúvida, ser vista na perspectiva do avassalador ímpeto imperialista das metrópoles europeias no século 19. De acordo com a visão de Monge, no entanto, sua principal função seria o progresso e a propagação das ideias iluministas no Egito, e é bem possível que os jovens egressos da Politécnica acreditassem sinceramente na nobreza desses ideais, para além de uma condição puramente instrumental de agentes do colonialismo francês.
Os politécnicos deram conta do recado e fizeram um amplo estudo da região do Nilo. O pântano em torno de Alexandria foi drenado e a hidrovia do delta tornou-se plenamente navegável, elaborando-se ainda um plano para o futuro canal de Suez. O laboratório de Berthollet fazia frequentemente exibições públicas para os egípcios de experiências de física e química, e os médicos da comissão se dedicaram a estudar doenças locais. Foi feita pela primeira vez uma completa análise geográfica, topográfica e estatística do país, incluindo um censo populacional. Durante muitas décadas o material levantado pela missão serviu para pesquisas inovadoras nas ciências naturais e humanas, principalmente em história natural, etnografia, arqueologia, história e geografia.
A partir de 1804, Napoleão forçou uma militarização maior e certa elitização da Escola Politécnica, nas os jovens que regressaram dessa experiência no Egito foram posteriormente os que levaram mais avante os ideais pedagógicos de Monge, o que redundou no efetivo “movimento pela educação industrial”, para trabalhadores conseguirem assimilar os progressos das novas tecnologias em liceus de artes e ofícios espalhados pela França. Em paralelo foi empreendida com sucesso a educação primária gratuita e obrigatória para as crianças francesas, realização que se tornou uma das mais conhecidas de Lazare Carnot. A ideologia republicana da Escola Politécnica decididamente enfatizava o progresso e a disseminação do conhecimento, inspirando novas levas de estudantes que também teriam papéis de destaque na ciência francesa. As ciências naturais nas mãos dos alunos que passaram por essa formação na França conduziram o país a uma posição de destaque internacional, influenciando além de países europeus, como a já citada Alemanha, instituições de além-mar como a Academia Militar de West Point, nos EUA.
Ainda hoje, apesar de transformações e de críticas diversas ao longo dos tempos, a bissecular Escola de engenharia francesa continua a ser, como diz seu nome, de muitas técnicas, destacando-se que os alunos cursam obrigatoriamente também disciplinas em humanidades e de cultura geral, como história, música, arquitetura, arte, política, epistemologia.
Estas considerações históricas levam a ponderar qual o papel dos engenheiros formados pela Escola Politécnica da USP, assim como de outras escolas brasileiras, numa era que aprecia demais as especializações de vida curta, ou as potencialidades das máquinas, em detrimento da formação generalista e criativa, apta a pensar integradamente nas dimensões das ciências naturais e das humanas. As suas administrações deveriam ter em mente como formar não apenas capacidades de lidar com números, mas despertar para essas vocações também a preocupação com o sentido de nação e do seu desenvolvimento material e cultural.
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