Iniciativas realizadas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP buscam novos formatos de catalogação de imagens em acervos digitais, além de aproximar a ciência da sociedade

.
Texto: Ana Beatriz Tuma*
“A inteligência artificial [IA] está em toda parte. Ela muda, de forma substantiva, a economia e as relações da própria sociedade.” É assim que Glauco Arbix, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, começa sua fala em palestra no curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, oferecido numa parceria entre a Escola de Comunicações e Artes (ECA) com a Superintendência de Comunicação Social (SCS) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA).
Segundo ele, a sociedade está vivendo um ciclo novo baseado em tecnologias digitais, cujo centro é a IA, e que está apenas em seu início. Nesse sentido, a USP tem se tornado um lugar de experimentações em várias áreas do conhecimento, como é o caso do Experiência Arquigrafia 4.0, projeto temático apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU).
No Arquigrafia, as experimentações têm se concentrado em duas frentes de trabalho: na produção de conteúdo de divulgação científica, com o intuito de aproximar a área de tecnologia da arquitetura da população, e na busca por novos formatos de catalogação de imagens em acervos digitais.
Quando a IA ajuda a aproximar a ciência da sociedade
Artur Rozestraten, professor da FAU e coordenador do Arquigrafia, conta que a utilização da inteligência artificial para fazer a divulgação científica do projeto surgiu do reconhecimento das potencialidades da plataforma de produção de vídeos Synthesia para essa finalidade.
Nas experimentações conduzidas no Arquigrafia, utiliza-se a IA desde o processo de concepção do vídeo até a sua edição. Dessa maneira, de acordo com o professor, a plataforma utilizada pode organizar, rapidamente, um conteúdo usando avatares ou uma voz em off e compor um roteiro de vídeo que pode ser aperfeiçoado pela equipe, gerando um processo de projeto interativo.
Esse é um ponto positivo da inteligência artificial, segundo Gustavo Alves Machado, designer e bolsista de Jornalismo Científico nível II do Arquigrafia. “O principal potencial da IA é permitir que as pessoas possam fazer vídeos de divulgação científica das suas próprias pesquisas sem dedicar um tempo enorme para editar um vídeo ou para aprender a fazer isso.” Para ele, esse potencial beneficia, em especial, projetos sem uma equipe de divulgação científica.

.
No entanto, o designer ressalta que os vídeos gerados pela inteligência artificial podem ser considerados de qualidade mediana, mas aceitável. Por isso, um desafio para ter um produto excelente é corrigir constantemente a IA. “Quando você quer chegar em um vídeo que é mais do que aceitável, é excelente, você precisa dedicar muito tempo. Quase tanto tempo ou até mais do que fazê-lo do zero sem a ajuda da IA.” No caso do projeto em que faz parte, a equipe supervisiona tudo o que é gerado pela inteligência artificial, fazendo os ajustes necessários para ter um vídeo de alta qualidade.
Além disso, Rozestraten afirma que o uso da IA no Arquigrafia é feito “sempre com um sentido propositivo e com uma perspectiva crítica, nos posicionando de uma maneira criteriosa com relação àquilo que é apresentado”.
Os vídeos de IA elaborados no projeto estão sendo divulgados no Instagram e no YouTube.
Em busca de novos formatos de catalogação de imagens
A equipe do projeto temático Fapesp coordenado por Artur Rozestraten se juntou à do Acervos Digitais e Pesquisa, liderado pela professora da FAU Giselle Beiguelman, com o objetivo de gerar novos formatos para catalogar imagens por meio da IA em acervos digitais. Para isso, a iniciativa tem utilizado como espaço experimental a plataforma colaborativa Arquigrafia, que reúne mais de 14 mil fotografias de edifícios e espaços urbanos da comunidade de países de língua portuguesa.
De acordo com Beiguelman, a inteligência artificial permite, por meio de modelos de visão computacional, que as imagens sejam “escavadas” em busca de novos formatos de catalogação, gerando informações a partir dos dados nelas armazenados.
“No caso específico do Arquigrafia, uma plataforma que disponibiliza mais de 14 mil imagens sob licença Creative Commons, aplicamos recursos de visão computacional para identificar elementos arquitetônicos, como, por exemplo, portas, janelas, escadas, materiais, como concreto e vidro, e mobiliário, como cadeiras e mesas, além de algumas peças artísticas, como quadros e esculturas.”

.
A professora diz que isso multiplica exponencialmente as possibilidades de pesquisa e a potência dos arquivos, para além do que foi definido no seu processo de catalogação tradicional, que continua sendo importante.
Segundo Artur Rozestraten, essa aproximação dos projetos à IA abriu a possibilidade de “dialogarmos com aquilo que os sistemas propõem como arranjos de imagens e, a partir desses arranjos, nos posicionarmos aperfeiçoando as pesquisas e direcionando também essa capacidade de reunir imagens rapidamente a partir de interesses mais precisos, específicos e relevantes”.
Para conhecer os protótipos que estão sendo desenvolvidos na referida parceria, acesse este link. Para conhecer a plataforma Arquigrafia clique aqui.
.
* Bolsista JC-IV junto ao Projeto Temático Fapesp Experiência Arquigrafia 4.0 e pesquisadora colaboradora da FAU
** Matéria desenvolvida como trabalho final do curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, oferecido pela USP no segundo semestre de 2025. O texto foi inspirado na palestra Desafios da inteligência artificial no século XXI, ministrada pelo professor Glauco Arbix
.


