Por Paola Cantarini, coordenadora acadêmica do Centro de Estudos Avançados do Direito e Inovação da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP
Diante da algoritmização da vida e captura do futuro, como imaginar um futuro possível – como devir, aberto de possibilidades e não limitado por opções algorítmicas?
A lógica da IA atual opera segundo modelos previsionais, ou seja, antecipatórios: ela aprende com o passado (dados históricos) para prever comportamentos futuros. Isto gera uma concepção de futuro como extensão estatística do presente, e mecanismo de controle preventivo.
Essa forma de prever o futuro mata o porvir: não há espaço para o inesperado, o impossível, o inédito.
Apoiando-se na zetética e no questionar constante, que são abordagens filosóficas por natureza, apostamos em uma relação necessária entre homem e técnica, por meio de uma análise crítico-poiética como um manual para a diversidade epistêmica e justiça algorítmica. Diante disso postulamos ir além do letramento digital em direção ao quântico-imaginal, onde a educação e o conhecimento são os pontos centrais na economia do conhecimento, com base na imaginação e na criatividade.
Há investimentos crescentes e uma corrida dos países em torno da área da IA na educação, com destaque para China, Estados Unidos, Japão, República da Coreia e Singapura, sendo a pesquisa científica a segunda maior preocupação dos países como estratégia do desenvolvimento de IA, com destaque para a estratégia do Canadá neste sentido (estratégia pan canadian AI de 2017), sendo a primeira a trazer a previsão de orçamento específico para o desenvolvimento da IA com foco no fortalecimento da pesquisa e desenvolvimento de talentos (incrementar o número de pesquisadores no campo da IA, a partir do fomento a um ecossistema robusto e atrativo a novos talentos).
O mercado de IA na educação é avaliado em 5 bilhões de dólares em 2024, com um impressionante crescimento anual de 36,02%.
Sempre resta, porém, a pergunta central: onde estamos e para onde vamos, e porquê da inovação para assim podermos falar em uma IA para o bem comum, e em complementariedade e não substituição do homem pela máquina.
A temática é complexa e como sempre demanda uma análise holística e interdisciplinar, e sobretudo crítica. Apesar dos diversos benefícios da IA na parte educacional, a exemplo da personalização do ensino, mais rápido feedback quanto às necessidades específicas dos alunos, caminhando em direção a um Sistema de Tutoria Afetiva (Affective Tutoring System), mais cursos on-line abertos e em massa (Massive Open Online Courses – Moocs), com criação de conteúdo baseado no consumo do usuário, maior tempo disponível ao professor para se dedicar não a tarefas administrativas e repetitivas, mas a algumas questões que não estão sendo observadas de forma mais cuidadosa, senão vejamos.
Recente relatório do MIT, de junho deste ano, intitulado Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task, representa uma contribuição seminal ao debate sobre a integração de Large Language Models (LLMs) em ambientes educacionais, ao fundamentar as implicações comportamentais em evidências neurofisiológicas de alta resolução. Traz a definição de Dívida Cognitiva, conceito que transcende a noção de offloading cognitivo momentâneo (a descarga de esforço mental para uma ferramenta) e postula um custo de longo prazo.
A dívida cognitiva sugere que a substituição repetida de processos cognitivos internos por sistemas externos, como LLMs, leva a uma atrofia ou deficiência na rede neural responsável pela integração e raciocínio complexo. Os achados sugerem que o déficit cognitivo persiste mesmo após a remoção da ferramenta, confirmando o custo de longo prazo da dependência.
A análise pode ser um potente instrumento para se estudar de forma crítica o paradoxo da performance vs. aprendizado, levantando a questão de que a métrica de sucesso em ambientes de aprendizado (scores) pode estar se dissociando da métrica de aprendizado (engajamento neural e retenção de memória). O LLM é um mecanismo de eficiência que permite a alta performance em um tempo limitado (20 minutos), mas ao custo do desenvolvimento de habilidades. O relatório do MIT menciona que a dívida cognitiva se manifestaria como uma redução na conectividade neural funcional, que persiste após a remoção da ferramenta e está correlacionada com uma perda de agência cognitiva e uma homogeneização do pensamento.
O desafio que o estudo impõe aos sistemas educacionais não é se o LLM deve ser usado, mas como usá-lo. A ferramenta é excelente para performance em curto prazo, mas parece ser um obstáculo para o aprendizado profundo (aquisição de conhecimento e formação de esquemas mentais robustos). O futuro da pedagogia em um mundo com LLMs exigirá um foco explícito no design de tarefas que exijam o engajamento neural pleno e a síntese ativa, tornando o offloading cognitivo inviável, transformando a dívida cognitiva em um custo não compensatório.
Por outro lado, cumpre destacar o papel das universidades e a questão de sua autonomia. Nas palavras de Derrida, em seu livro A universidade sem condição, o porvir da profissão, a universidade moderna deveria ser sem condição, para além do que se chama de liberdade acadêmica, no sentido de uma liberdade incondicional de questionamento e proposição, o direito de tudo poder dizer publicamente, tudo o que uma pesquisa, saber e pensamento da verdade exigiriam, falando em um devir-verdade.
Tais questões nos remetem a recente episódio nos EUA, com diversos professores de Harvard processando a administração Trump por ameaçar reter quase US$ 9 bilhões em verbas e contratos, caso a universidade não aceitasse as mudanças estruturais exigidas pela administração. A American Association of University Professors (AAUP) entrou com uma ação judicial alegando que a proposta do governo constituía um “uso ilegal e sem precedentes de financiamento federal e da autoridade de aplicação dos direitos civis para minar a liberdade acadêmica e a liberdade de expressão” no campus de uma universidade.
Segundo o documento judicial, a universidade recebeu uma carta da administração em 3 de abril descrevendo as “pré-condições não exaustivas” que deveria cumprir para manter seu financiamento governamental, na sequência de uma investigação sobre as falhas da universidade em lidar com o antissemitismo no campus. Entre as exigências estava uma revisão de programas que, segundo a administração, alimentam o assédio antissemita no campus. A razão declarada para essas exigências era “melhorar a diversidade de pontos de vista” e “acabar com a captura ideológica” dentro da universidade.
O processo também afirmava que Harvard foi obrigada a promulgar uma proibição de máscaras durante protestos e a eliminar todos os programas de diversidade, equidade e inclusão. Tais questões também são tratadas no report Free to Think, de 2019, apontando para a redução da liberdade dos professores nas universidades, de modo geral, e a redução da autonomia universitária.
Portanto, quando falamos do papel da educação, da construção do conhecimento científico, não bastaria, ao que parece, focarmos apenas em habilidades técnicas, ou seja, apenas em letramento digital, mesmo porque grande parte dos empregos estaria sendo eliminada e outros tantos novos criados, os quais ainda nem mesmo sabemos com certeza quais. Um ponto sempre de destaque na maioria dos relatórios sobre o impacto da IA na área do trabalho é uma dupla perspectiva: precisamos de habilidades técnicas, mas também de pensamento crítico, imaginação, criatividade, adaptabilidade, soft skills, resolução de problemas, ou seja, habilidades que complementam e não que concorram com as máquinas, como podemos observar dos relatórios da lavra de Unesco, OCDE, entre outros.
Ocorre que, se olharmos as propostas neste setor do PBIA e da Estratégia Digital (Edigital), vemos que, embora se fale genericamente nos dois lados da balança, quando se analisam as ações mais concretas previstas, estas colocam o enfoque todo na transformação digital via habilidades técnicas. Nada se fala em como estimular a criatividade, a imaginação, a sensibilização, e a maior parte dos problemas de base no setor educacional no País continuam sem ser pensados e sem propostas concretas.
Seria então como uma espécie de dataísmo, ou determinismo tecnológico, solucionismo tecnológico, tecno-solucionismo, nas palavras de Morozov, apontando ser tal característica uma verdadeira ideologia base por trás do Vale do Silício, em uma tirania da eficiência e da métrica. Contudo, ao se priorizar apenas o que é mensurável, perdemos tudo o que não pode ser medido. A eficiência se torna um fim em si mesma, sem uma reflexão ética sobre os fins que realmente importam.
Um exemplo de uma abordagem utópica, ou na linha de um otimismo determinista, é o relatório da Microsoft de 2025 AI in Education, sendo também a metodologia preocupante ao não se embasar em dados robustos e ao dar um destaque exagerado à eficiência educacional em larga escala, podendo ser questionado quanto a um possível viés mercadológico/de marketing, já que a empresa é vendedora de soluções de IA (Azure, Copilot etc.).
As premissas em torno da maior eficiência em termos de resultados educacionais e causalidade podem conter vieses e por isso teremos que observar a metodologia dos achados e a análise dos dados utilizados, em especial quando se associa apenas à IA os ganhos de aprendizagem e eficiência docente, pois alguns estudos tendem a ocorrer em contextos controlados e podem ter viés de seleção (alunos e professores mais motivados). Ou seja, a análise quantitativa exige réplicas independentes e as melhorias apontadas muitas vezes podem resultar de efeitos de novidade, mudanças curriculares ou apoio pedagógico extra, não apenas do algoritmo em si.
O ponto principal de crítica ao relatório citado é a opacidade da metodologia empregada, havendo dúvidas, pois, se a IA, no caso, seria de fato uma ferramenta crucial para a inclusão, com ferramentas de tradução em tempo real e suporte para alunos com dificuldades, já que na estrutura da sociedade nada muda. No mesmo sentido, acerca da afirmação do report de que automatização de tarefas como a correção de testes, a gestão da sala de aula e a burocracia permitiriam aos educadores focarem no que é “verdadeiramente humano”: a mentoria, a inspiração e o apoio socioemocional.
Além disso, o relatório argumenta que a integração da IA na educação é fundamental para equipar os alunos com as “competências do futuro”, como pensamento crítico, criatividade, colaboração, mas, no entanto, estas qualidades não são geradas apenas com a utilização da IA.
Questões de base não são endereçadas, como: a valorização do professor, do ensino, da filosofia, da ética, do pensamento crítico, a autonomia de pensar por si só e não depender do direcionamento de outrem, tal como era o mote original da época do Iluminismo, como falava Kant (sapere aude), e após foi desvirtuado na modernidade, com o distanciamento de si, das experiências vivenciadas, do sensível, coletivo, comunitário, com a separação crescente das disciplinas do mundo objetivo e do mundo sensível.
É o que apontam Luis A. Warat, Maffesoli, Castoriadis, Adorno e Horkheimer, Guattari, entre outros. Há uma crise das significações imaginárias sociais modernas, e toda a capacidade crítica, a possibilidade de autodeterminação, autonomia, emancipação restaram bloqueadas diante da razão instrumental e da reificação da ciência a partir do século 18, atrofiando-se nossa capacidade crítica e adestrando nossos corpos para serem passivos e adormecidos.
Talvez, então, seja necessário darmos alguns passos atrás para depois avançarmos melhor e mais rapidamente na forma como se daria a necessária produção do pensar mais adequado à rapidez dos desenvolvimentos tecnológicos, no sentido de um salto quântico no modelo de pensamento e educação para fazer frente a tais desafios, exigindo a construção de um outro imaginário social, recuperando-se tais aspectos da experiência humana que foram soterrados.
Daí se dizer que teríamos que sair do modelo de ensino passivo, da educação bancária, em direção ao sentido de uma educação como empoderamento, de educação hands on, baseada em projetos, educação como experiência, learning by doing, em um choque do futuro, com ênfase ainda na capacidade de aprender, desaprender e reaprender. Com isso teríamos a recuperação de dimensões da experiência humana subestimadas e soterradas pelo desencantamento do mundo apolíneo.
Isso importa na construção de novas teias de sentido e significado para a existência, para o homem, a reinvenção do mundo e do homem, por meio da recuperação do sensível, do mágico, do imprevisível, por meio de fissuras no muro do instituído, do real. Segundo Guattari, estas fissuras de dariam pelas revoluções moleculares, a partir do ser, da subjetividade, produzindo-se novas subjetividades. Devem-se reativar os territórios do desejo por meio da criação de novas significações imaginárias sociais, abrindo-se a novas possibilidades e potencialidades, com foco na sensibilidade, na relação com o outro, criatividade, e desejo, por meio de uma cartografia sentimental e corporal, por meio da liberação prévia da energia do desejo e da imaginação.
É o que Guattari denomina de um novo paradigma estético (“caosmose”), quando se passaria da concepção racional, cientificista e apolínea para a estética, dionisíaca e surrealista/carnavalizada. Recupera-se o que a ciência moderna eliminou: a intuição, o senso comum, a sensibilidade, o mítico, o onírico, o intuitivo, o lúdico, a ingenuidade radical, a improvisação, o ilógico, o absurdo, o acaso, o erotismo do conhecimento. O erotismo que se opõe ao pornográfico da produção em excesso e sem limites e sem sentido, e que ocorre na surpresa, no mistério das inovações, no não preditivo, possuindo diversas inspirações em autores como Nietzsche, Guattari, Maffesoli, Morin, Warat, Sade, Rimbaud, Ducasse, Baudelaire, Breton, Michel Lowy. A reconexão com a vida, com seus mistérios, com o corpo, quando seria possível o reencantamento do mundo. Maffesoli, em Elogio da razão sensível, fala da razão erótica, um saber dionisíaco relacionado à sensibilidade e aos afetos, enquanto Warat propõe a erotização do conhecimento e da vida, por meio de uma epistemologia carnavalizada e da complexidade, colocando corpo em movimento, em um abandonar-se diante do lúdico.
O relatório Imagination Unleashed: Democratising the Knowledge Economy, coautorado por Roberto Mangabeira Unger em colaboração com a Nesta (fundação de inovação sediada no Reino Unido) e retomando ideias centrais das obras The Knowledge Economy e The Self Awakened, aposta no experimentalismo pragmático com a ênfase em ecossistemas de inovação, testbeds e impacto social. Critica-se o confinamento dos métodos de produção avançada, propondo reformas estruturais ao longo das instituições econômicas, educacionais e sociais, e vislumbrando um futuro em que a imaginação humana impulsiona o progresso coletivo. A análise se ancora em evidências empíricas de dados da OCDE, estudos de caso (por exemplo, a economia circular da Finlândia, agendas de pesquisa holandesas) e paralelos históricos. As implicações se estendem à educação (reorientação para o aprendizado ao longo da vida, experimental), à inovação no pensamento (estímulo ao pragmatismo radical e à experimentação institucional), à democratização econômica (ampliação do acesso a capital e conhecimento) e à transformação social (superação da desigualdade e do desencanto).
Do ponto de vista espacial, a inovação se concentra em “metrópoles em ebulição” como o Vale do Silício ou Shenzhen, deixando regiões periféricas “presas”. Do ponto de vista social, isso fomenta um divisor entre os “rápidos” (trabalhadores do conhecimento) e os “isolados”, correlacionando-se com padrões de voto em eventos como o Brexit ou a eleição norte-americana de 2016. A economia do conhecimento não é algo setorial, mas um “estilo de produção” centrado no conhecimento enquanto motor principal, embutido em redes, intangíveis e inovação contínua. Ela promete libertação humana ao alinhar o trabalho à imaginação — ecoando o “pragmatismo sem amarras” de Unger, no qual os seres humanos transcendem tarefas repetitivas por meio da antecipação criativa. A narrativa desloca-se do recuo para a “imaginação coletiva liberta”.
Na educação, isso solicita a reorientação dos sistemas para competências inclusivas (por ex., resolução de problemas em vez de memorização). A inovação no pensamento avança via pragmatismo radical: ver as instituições como ferramentas maleáveis para experimentação. Há um papel central da imaginação. A economia do conhecimento materializa “conjecturas e experimentos”, alinhando o trabalho à criatividade humana por meio do estímulo de “insurreições cognitivas”, em que indivíduos reimaginam instituições, dando continuidade a pontos abordados em obra anterior de Unger, The Self Awakened.
Segundo tais premissas, a educação precisa fomentar imaginação e confiança (por exemplo, currículos colaborativos). O elemento central da transformação da educação, da formação e da proteção social está na premissa de se observar a educação como chave para a inclusão, criticando sistemas atuais por reproduzirem desigualdade. Aposta na migração da educação padronizada para um aprendizado ao longo da vida, experimental, que cultive imaginação e adaptabilidade, quando a educação prepara para um mundo em que o trabalho do conhecimento é central, fomentando capacidades de cooperação e inovação.
Diante de tais premissas seria imprescindível a conjugação de esforços para ir além do letramento digital e da educação midiática, mas em termos de fomentar as habilidades perdidas e adormecidas, e que não serão desenvolvidas com mais técnica, pois o pensamento complexo é, segundo estudos recentes de neurociência, afetado e comprometido pelos estímulos do uso das novas tecnologias.
Precisamos de mais inovação e criatividade no setor educacional não sendo suficiente se falar em termos de inovação apenas quando se utilizam grupos de WhatsApp, videoaulas ou utilização de redes sociais para postar desenvolvimentos dos trabalhos dos alunos, pois o ritmo de desenvolvimento atual das tecnologias exige não apenas passos, mas uma corrida, e não um sprint, mas uma maratona, ou seja, olhar não somente a curto prazo, mas a médio e longo prazo.
Embora os recursos educacionais interativos e multimídia tenham um profundo impacto na aprendizagem, pois estimulariam reação dos alunos (metodologias ativas), não se pode afirmar com certeza de que bastariam para termos alunos mais criativos, ou seja, que alcançariam o nível 6 dentro da taxonomia de reações de Bloom, que vai do nível 1 (relembrar) ao 6 (criar), pois algumas pesquisas apontam que o uso do ChatGPT causa prejuízos em termos cognitivos, como aponta recente pesquisa do MIT mencionando que o uso do ChatGPT reduz a capacidade crítica e a criatividade, e torna a pessoa mais vulnerável a alucinações.
Fala-se na área educacional em fases de transformação pelas quais passa o setor: a primeira com a digitalização, a segunda com a economia compartilhada, nova linguagem visual e multimídia, desnacionalização, globalização e comercialização da educação, e a terceira fase com a gamificação e intensificação das experiências de aprendizado.
Novos paradigmas se impõem, portanto, e as transformações na sociedade e no consumo cultural diverso e plural refletem no campo educacional, havendo casos de sucesso no âmbito das edtechs que focam em sistemas de microincentivos através de emblemas, pontuações, classificações, mensagens personalizadas, estímulos constantes para que os alunos se mantenham conectados , uso de gamificação com desenho de interfaces educacionais baseadas no jogo, com narrativas criativas, imersivas e repletas de fantasia. E chegamos à última transformação com foco na personalização do aprendizado e na datificação.
Contudo, novos desafios se insurgem como a maior concentração de empresas que oferecem os produtos educacionais, questões acerca da privacidade, proteção de dados e soberania informacional, problema da educação vigiada, já que quase 65% das universidades públicas e secretarias estaduais usam plataformas de vigilância (Google: 74%; Microsoft: 9% para e-mails). Problemas correlatos incluem a fragilização da infraestrutura pública de educação, perda de soberania tecnológica, redução de alternativas locais ou livres, foco em métricas e visibilidade e prejuízo de aprendizagem profunda, tracking educacional, obscurecendo questões centrais como os custos sociais de tal lógica extrativista e colonial, risco de mercantilização da educação, desvalorização da autonomia docente, padronização educacional conforme interesses corporativos, havendo talvez a inclinação para um mercado onde o vencedor leva tudo e onde todas as experiências educativas vivem um processo de plataformização em um modelo de “domínio único”. Diversas preocupações são apontadas também pela Unesco, alertando sobre os riscos da digitalização da educação sem uma governança adequada. O relatório destaca que a dependência de plataformas privadas pode levar à perda de controle sobre o currículo e à comercialização dos dados dos alunos, comprometendo a soberania dos dados. Em sentido complementar, o European Digital Rights (EDRi) critica a forma como as grandes empresas de tecnologia capturam o mercado educacional e usam dados para fins comerciais, sem a devida transparência ou consentimento.
A assimetria empírica no acesso à IA educacional
O relatório da Unesco Guidance for generative AI in education and research identifica riscos específicos:
• Integridade acadêmica: risco de plágio, geração de referências falsas (“alucinações”) e dependência excessiva de textos produzidos por IA;
• Desigualdade digital: acesso desigual a ferramentas generativas pode aprofundar clivagens educacionais entre países do Norte e do Sul e entre diferentes grupos sociais;
• Opacidade algorítmica: falta de transparência nos modelos das big techs, o que mina accountability e dificulta auditorias;
• Impacto na autoria e criatividade: ameaça à originalidade, com risco de homogeneização do pensamento crítico e acadêmico;
• Privacidade e uso de dados: incertezas sobre coleta, treinamento de modelos e destino de dados pessoais e sensíveis de estudantes/pesquisadores.
Complementa a temática o relatório do Council of Europe, Artificial Intelligence and Education: A Critical View Through the Lens of Human Rights, Democracy and the Rule of Law, dotando uma abordagem explicitamente normativa e crítica, centrada na tríade direitos humanos, democracia e estado de direito como lentes para examinar a penetração da inteligência artificial (IA) nos sistemas educacionais. Afirma, outrossim, que a incorporação da IA na educação não é neutra, mas envolve escolhas que podem fortalecer ou fragilizar valores democráticos, apontando para riscos de vigilância, profiling e manipulação de comportamentos, especialmente quando vinculada a modelos de negócios extrativos baseados em dados. O relatório enfatiza que o uso da IA deve estar subordinado ao direito à educação de qualidade, inclusiva e equitativa (art. 2 do Protocolo da Convenção Europeia de Direitos Humanos); critica a adoção acrítica de plataformas privadas que capturam dados de crianças, violando princípios de proporcionalidade e necessidade; destaca riscos de discriminação algorítmica, que podem reforçar desigualdades raciais, de gênero e socioeconômicas. O documento alerta contra a privatização velada do espaço pedagógico em que plataformas e sistemas de IA de grandes corporações substituem a autoridade de professores e instituições públicas.
Dados do relatório da Unesco mostram que, enquanto países do Norte Global implementam currículos obrigatórios de IA desde a educação básica, menos de 20% dos países do Sul Global possuem iniciativas similares, e menos de 10% contam com infraestrutura digital suficiente para efetivar tais currículos.
No Brasil, a pesquisa TIC Educação 2023 aponta que apenas 58% das escolas públicas possuem acesso adequado à internet de banda larga, e menos de 30% contam com laboratórios de informática em funcionamento. Isso gera uma desigualdade estrutural que limita qualquer discurso sobre “democratização da IA”.
Indicadores da lacuna crítica e poética
Estudo de Park et al., publicado na Nature, demonstra que houve uma queda de mais de 90% no número de publicações consideradas “disruptivas” nos últimos 50 anos, apesar do aumento massivo da produção científica baseada em machine learning. Do ponto de vista empírico, isso sugere que a IA vem ampliando a produção quantitativa, mas não necessariamente o potencial criativo e inovador da pesquisa científica. Aqui entra a urgência da dimensão poiética: integrar artes, filosofia e narrativas não hegemônicas como ferramentas pedagógicas, de modo a expandir o horizonte epistêmico dos estudantes e pesquisadores.
A maioria dos relatórios publicados pela Unesco e OCDE traz ênfase no aspecto teórico e não pragmático, com poucos exemplos práticos ou modelos de implementação pedagógica alternativos, além de trazerem um viés cognitivo pois são análises centradas no Norte Global, com aplicabilidade a contextos globais (especialmente Sul Global) limitada (eurocentrismo). É dada pouca atenção à inovação pedagógica, concentrando-se mais nos riscos do que nas possibilidades de reinvenção pedagógica emancipatória com IA.
Há, de forma geral, o reconhecimento acerca da captura corporativa, mas não aprofundam a economia política da IA na educação e temáticas como a assimetria de poder entre Estados e big techs (Google, Microsoft, OpenAI), que efetivamente controlam a infraestrutura da IA educacional. Há questões não endereçadas de forma adequada como a questão de vigilância, compartilhamento de dados dos brasileiros a big techs, questões de soberania digital. Seria urgente uma análise mais ampla sobre como a IA reconfigura epistemologias, produção de conhecimento e papel social da universidade, pensando em questões tais como: quem controla a tecnologia, para que fins e sob quais salvaguardas legais e democráticas.
O relatório da Unesco Generative AI and the future of education traz uma reflexão de alto nível político-pedagógico sobre o impacto da IA generativa (ex.: ChatGPT) nos sistemas educacionais, trazendo a questão central do monopólio humano sobre a linguagem — fundamento da educação, da cultura e da identidade — que está sendo desafiada pelas máquinas. A IA generativa, ao simular conversação, reconfigura não apenas práticas pedagógicas, mas também visões de humanidade, inteligência e conhecimento. A linguagem é vista como núcleo civilizatório; sua apropriação pelas máquinas implica riscos de redefinição da condição humana. E os chatbots funcionariam como “oráculos”, produzindo respostas aparentemente autoritativas, mas sem traço de autoria humana, o que ameaça o valor da diversidade epistêmica.
Ao contrário da busca tradicional (Google), que organiza conteúdo humano, a IA generativa produz conteúdo próprio, criando risco de monopólio cognitivo e de redução da pluralidade de sistemas de conhecimento e marginalização de saberes locais. A IA desafia a finalidade mesma da educação: não apenas preparar para um mundo conhecido, mas co-construir o mundo desejado frente à IA.
A preocupação central em todos esses relatórios é a mesma: a dependência de plataformas estrangeiras não apenas levanta questões de privacidade e segurança, mas também compromete a capacidade de um país de moldar sua própria educação e de manter a autonomia sobre seus dados estratégicos.
Os problemas são de base e estruturais: a desvalorização do ensino tradicional e do professor no Brasil onde há uma imensa concentração econômica, disparidades grandes entre educação privada e pública, com alunos com grande dificuldade em chegar até mesmo ao local de ensino quanto mais à infraestrutura para acesso à IA; falta de conectividade de alta velocidade necessária para IA; custos elevados de plataformas de IA educacional premium e concentração de recursos em centros urbanos desenvolvidos, além da ausência de capacitação dos professores (formação pedagógica crítica abrangendo temáticas como ética da IA, proteção de dados e riscos potenciais).
Por outro lado, fala-se na redução do QI pela primeira vez na história das gerações mais recentes em comparação com as anteriores. Seria a inversão do flynn effect representando uma reversão significativa da tendência de crescimento observada ao longo do século 20. O fenômeno é um contraponto ao efeito flynn original, que corresponde ao aumento constante nas pontuações de QI devido a melhorias sociais e ambientais. A queda no QI seria causada por fatores ambientais e não genéticos. Tal pesquisa é corroborada por M. Desmurget em seu livro La Fabrique du Crétin Digital, com base em pesquisas neurocientíficas e sociológicas onde aponta que o uso excessivo de telas está prejudicando o desenvolvimento cognitivo e causaria danos profundos e duradouros no desenvolvimento cerebral, cognitivo e social do aluno. O tempo passado com telas é tempo roubado a interações verbais ricas e essenciais com os cuidadores, à leitura e a brincadeiras criativas. A natureza hiperestimulante e de recompensa imediata dos conteúdos digitais estaria contribuindo para o aumento de problemas de atenção, impulsividade e dificuldade em manter o foco em tarefas menos estimulantes (como uma aula ou a leitura de um livro). Outros problemas apontados são as maiores taxas de ansiedade, depressão, comportamentos agressivos e perturbações do sono.
A forma de leitura e navegação na web é superficial, fragmentada e orientada para hiperlinks, contrastando com a leitura profunda e linear de um livro. Essa mudança de hábito cognitivo estaria nos tornando menos capazes de manter a concentração, de pensar de forma contemplativa e de fazer as conexões neuronais necessárias para o pensamento profundo e criativo.
Cal Newport fala da importância do “trabalho profundo” – a capacidade de se concentrar sem distração em uma tarefa intelectualmente exigente, o que seria prejudicado pelo aspecto da cultura digital, e traria um prejuízo para o trabalho criativo e o pensamento crítico, os quais exigem longos períodos de concentração ininterrupta e tempo de reflexão.
Cathy O´Neil, em Armas de Destruição Matemática: Como o Big Data Aumenta a Desigualdade e Ameaça a Democracia, traz uma crítica acerca da utilização da IA no setor educacional – sistema de predição de “sucesso” ou “risco” de alunos, quando o algoritmo é alimentado com dados históricos de alunos (notas, assiduidade, dados socioeconómicos do bairro, raça, desempenho de irmãos etc.) para prever quais os alunos com “alto risco” de reprovar, abandonar a escola ou não entrar na faculdade.
Com isso seria criado um feedback looping de injustiças (ciclo vicioso), com viés de entrada (Garbage In, Garbage Out). Não se estaria a prever o potencial do aluno, mas a replicar o preconceito do passado. Com isso há o risco da profecia autorrealizada: um aluno identificado como “de risco” pode ser colocado em percursos de aprendizagem menos desafiadores, receber menos atenção de recursos escassos (por se assumir que é “caso perdido”) ou ser visto com menor expectativa pelos professores. O algoritmo não previu o futuro, mas criou um futuro, limitando o futuro como devir.
Outra problemática é o uso de ferramentas de proctoring (vigilância) automatizado, com o uso de software de IA monitorando os alunos durante exames online, usando a webcam para detectar “comportamento suspeito” com base na análise, por exemplo, do olhar para o lado, o que poderia ter outro significado, como ser simplesmente um momento de reflexão.
Outros problemas abordados são os sistemas de orientação vocacional e de admissão, com algoritmos que recomendam cursos ou carreiras a alunos, ou até mesmo triam candidaturas a universidades, trazendo o risco de amplificação das desigualdades, podendo perpetuar estereótipos de gênero e raça. Se historicamente menos mulheres seguiram a carreira de engenharia, o algoritmo pode desencorajar uma aluna a seguir esse caminho.
As cartas foram colocadas na mesa, os dados lançados, e desta vez nos cabe jogar com elas e os dados, mesmo que se afirme que Deus não joga dados com o Universo, frase de Albert Einstein, dirigida a Niels Bohr, um dos maiores nomes da física quântica, opositor da física determinística einsteiniana, ao defender que certos eventos no nível subatômico ocorrem de forma aleatória e imprevisível por natureza.
Já fomos superados no xadrez, em 1997, pelo Deep Blue, supercomputador desenvolvido pela IBM, derrotando Garry Kasparov, então campeão mundial. Em 2016 chegou a vez de outra IA vencer o melhor jogador do mundo em Go, com o AlphaGo, desenvolvido pelo DeepMind (Google), derrotando o campeão sul-coreano Lee Sedol. O detalhe aqui é que tal jogo não demanda apenas força bruta, mas uma combinação de fatores como intuição, padrões e leitura de tabuleiro – e assim vemos a rápida evolução tecnológica de máquinas programadas para sistemas que aprendem sozinhos (AlphaGo Zero).
A filosofia contemporânea, especialmente o realismo especulativo, tenta escapar desse impasse através da abstração – construindo catedrais conceituais sobre o real em vez de mergulhar nele. Enquanto isso, lidamos com outros tantos paradoxos como a IA, a mais disruptiva das tecnologias e como a criação do ser humano refletiria algo próprio deste, o que era qualificado nas tragédias gregas de Sófocles – reza a lenda, para o oráculo de Delfos –, o segundo homem considerado mais sábio da época, perdendo apenas para Sócrates – como um verdadeiro assombro, o assombro dos assombros, já que capaz das mais maravilhosas coisas e das mais terríveis. Isto é, a IA também seria, sob tal ótica, um verdadeiro pharmacon, veneno ou remédio a depender da dose. Talvez a solução, a saída, como costuma dizer nosso grande mestre Willis Santiago Guerra Filho, seja pela entrada, de onde começamos. É precisamente neste ponto que gostaríamos de destacar novamente a importância da análise interdisciplinar, holística e crítica, retomando os antigos gregos para servir de inspiração.
A ideia é nos apropriarmos de algumas iniciativas que marcaram a história, afinal se diz que todo novo e importante conhecimento se faz nos ombros de gigantes. Diante da necessidade da revalorização desta forma de conhecimento mais lento, não voltado apenas ao curto prazo, que demanda tempo para maturação, a filosofia, desde a crise por que passou, e do desafio lançado há quase 200 anos por Karl Marx que diz que os filósofos não fazem nada além de interpretar o mundo e que precisamos mudá-lo. E é daí que entendemos que para enfrentar alguns desafios se faz necessário voltar alguns passos, para depois avançarmos melhor e com mais rapidez. Com isso, não pensamos apenas na célebre proposta estratégica de Lênin, mas também no “passo atrás”, recomendado por Heidegger, diante do avanço da técnica, para não nos entregarmos ingenuamente a ela, como também para vê-la melhor, com o distanciamento, de olhos bem abertos.
Na antiguidade clássica dos gregos tínhamos os conhecidos Liceu de Aristóteles e Academia de Platão, aquele voltado mais à pesquisa empírica, abordagem prática e sistematização do conhecimento, e esta, mais a uma forma elitizada, com foco na educação física e metafísica. Mas o que gostaríamos de destacar aqui é uma terceira não tão conhecida escola de conhecimento – o Museion de Alexandria, no Egito.
O Museion (ou Mouseion) de Alexandria foi uma das instituições mais influentes da Antiguidade, fundado no início do século III a.C. e dedicado às nove musas gregas – deusas das artes e do conhecimento. Era um verdadeiro hub de conhecimentos interdisciplinar, funcionando como centro de pesquisa e ensino, parte da famosa Biblioteca de Alexandria, integrando ciência, filosofia e filologia, juntando teoria e prática, já que se via não somente o cérebro, mas também o corpo como fundamentais a serem cultivados. Seu propósito principal era atrair os maiores eruditos do mundo e para isso estava aberto a diversos intelectuais de diversas regiões e culturas, e uma das mais famosas foi Hipátia de Alexandria, uma das figuras mais proeminentes da Antiguidade tardia, reconhecida como filósofa neoplatônica, matemática, astrônoma e educadora.
Já em nosso tempo, o exemplo de Museion foi dado por Aby Warburg e sua biblioteca, do que resultou seu monumental Atlas Mnemosyne, “inventário de vestígios da Antiguidade que contribuíram, na época do Renascimento, para forjar o estilo da representação da vida em movimento”, nas palavras de seu autor – o que nos evoca sua “vida póstuma”, para empregar um conceito central deste instigante autor na arte contemporânea por excelência que é o cinema.
Tal perspectiva traz uma reflexão acerca do papel da educação e dos professores e sua valorização em tal época, a considerar, a exemplo do Museion, que oferecia aos scholars salários elevados, moradia gratuita, isenção de impostos e refeições coletivas, criando um ambiente propício para a inovação. Estima-se que abrigava mais de cem eruditos em seu auge, tornando-se um hub cosmopolita que fundia tradições gregas com influências orientais. Muito diferentemente, nos tempos atuais, é comum ouvirmos a pergunta, quando mencionamos que somos professores, sobretudo em áreas da importância do Direito e da Medicina: “Mas qual sua ocupação principal?”.
Depois temos, com certa razão, o questionamento das novas gerações sobre o sentido de um diploma universitário, tempo dispendido e nenhuma garantia de emprego no futuro.
Do que se trata é de repensarmos também o papel da imaginação e a busca de um letramento imaginal – evocando com o termo o desenvolvimento de concepção preciosa da filosofia mística muçulmana devida a Henry Corbin –, indo além do letramento digital, que teria um foco mais no teor tecnológico, pois precisamos de ambos para estarmos preparados para o futuro do trabalho com a IA, já que nesta quarta revolução industrial, com a chamada sexta onda da inovação, parece que o simples treinamento e cursos de curta duração não seriam satisfatórios.
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