domingo, maio 17, 2026
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Mário de Andrade, intérprete de um Brasil racista – Jornal da USP


“Sua primeira estratégia foi colocar-se junto aos negros e pobres, mas preferiu menos acentuar a condição dos desfavorecidos e mais denunciar a hipocrisia”, analisa Angela no livro. “Em outras palavras, o problema social não vem dos negros e pobres, mas dos brancos e ricos.”

No segundo capítulo, o centro das atenções da pesquisadora é o poema Reconhecimento de Nêmesis, escrito em 1926 mas publicado apenas em 1930, em Remate de Males. Nele, o eu lírico, adulto, é confrontado com um menino que representa sua própria infância. Como a Nêmesis da mitologia, que surge para tirar a alegria das pessoas, a criança aparece para trazer a dor causada pela violência do racismo.

Mão morena dele pousa
No meu braço… Estremeci.
Sou eu quando era guri
Esse garoto feioso.
Eu era assim mesmo… Eu era
Olhos e cabelos só.
Tão vulgar que fazia dó.
Nenhuma fruta não viera
Madurando temporã.
Eu era menino mesmo,
Menino… Cabelos só,
Que à custa de muita escova
E de muita brilhantina,
Me ondulavam na cabeça
Que nem sapé na lagoa
Se vem brisando a manhã.
(trecho de Reconhecimento de Nêmesis)

“Nesses versos de Mário de Andrade, a figura da criança, que ele foi, volta em forma de dor, provocada pela violência do racismo sofrido ao longo da vida e que se torna patente em momentos de rejeição e violência”, escreve a pesquisadora. “O racismo explica os caminhos fechados pelos quais o eu poético procura percorrer.”

Mário também se manifestou a respeito da condição dos negros fora do Brasil. É o que Angela discute no quinto capítulo do livro, quando analisa o poema Nova Canção de Dixie, composto em 1944 e publicado postumamente no jornal Correio Paulistano, em fevereiro de 1946. Nele, o poeta critica a segregação racial nos Estados Unidos e ironiza a hipocrisia de um país que brada ideais democráticos mas convive cotidianamente com o racismo.

“O poema traz uma reflexão crítica de um eu lírico que sofre ao mesmo tempo que expande a denúncia das consequências do racismo da esfera individual para a coletiva e transnacional”, explica a autora. Partindo de uma música do século 19 composta por um branco e que se tornou uma espécie de hino não oficial dos Estados Confederados da América durante a Guerra de Secessão (1861-1865), Mário inverte seu sentido, analisa a pesquisadora. O “bardo mestiço” pede a liberdade a partir da ironia e da recusa, negando-se a ir para a “Terra da Linha de Cor”.

Mas porque tanta esquivança!
Lá tem Boa Vizinhança
Com prisões de ouro maciço;
Lá te darão bem bom lanche
E também muito bom linche,
Mas se você não é negro
O que você tem com isso!

No. I’ll never never be
In Colour Line Land.
(trecho do poema Nova canção de Dixie)

Não é apenas a crítica, contudo, que interessa ao modernista. No conjunto que forma os Poemas da Negra, assunto do terceiro capítulo do livro, Mário subverte as convenções poéticas do seu tempo. Angela aponta como o autor, após ampla pesquisa literária e etnográfica a respeito da produção de imagens da mulher negra – abordada de maneira depreciativa ou essencialmente sexualizada –, rompe com as caracterizações típicas da chamada “poesia do senhor de engenho”.

Divididos em 12 partes, os Poemas da Negra narram o encontro de uma noite do eu lírico com uma prostituta na região do mangue de Recife. Mário se afasta das abordagens preconceituosas e reducionistas a respeito da mulher negra para enaltecê-la e valorizá-la como merecedora de seu amor. Um tratamento que a poesia até então só reservava para as mulheres brancas. “O poeta transgride, ainda, ao lançar mão de um tom elevado no conjunto; pelo discurso alto, retira a mulher da condição de um ofício julgado socialmente como desprezível e a transforma na musa do amor pleno de sua obra poética”, aponta Angela.

Você é tão suave,
Vossos lábios suaves
Vagam no meu rosto,
Fecham meu olhar.

Sol-posto.

É a escureza suave
Que vem de você,
Que se dissolve em mim.

Que sono…

Eu imaginava
Duros vossos lábios,
Mas você me ensina
A volta ao bem.
(trecho do poema III de Poemas da Negra)

Além da análise da lírica de Mário de Andrade, a autora reserva espaço ainda para falar de certas produções, pesquisas e iniciativas nas quais o estudioso demonstrou suas visões e preocupações a respeito da população e da cultura negras. A pesquisadora aborda, por exemplo, os planos para as comemorações do Cinquentenário da Abolição, evento idealizado por Mário quando era diretor do Departamento de Cultura da Municipalidade de São Paulo.

Conforme escreve Angela, as comemorações planejadas por Mário se estenderiam de 27 de abril a 13 de maio de 1938 e envolveriam uma série de setores da municipalidade: Diretoria de Expansão Cultural, Divisão de Turismo e Divertimentos Públicos, Parques Infantis, Discoteca Pública e ainda a Sociedade de Etnografia e Folclore. A programação teria conferências, concursos musicais, concertos, exposição iconográfica, danças e a apresentação da Congada de Atibaia, terminando na coroação do rei negro, pelo prefeito, na Praça da Sé.

Tal era a amplitude da proposta que o ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, chegou a solicitar a Mário um plano também para as comemorações na então capital do País, o Rio de Janeiro. Mas suas ideias acabaram não prosperando em solo carioca. E pouco do seu projeto para São Paulo também foi adiante, já que Mário acabou substituído na direção do Departamento de Cultura, com a mudança do prefeito Fábio Prado por Prestes Maia, no meio dos preparativos para a data.



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