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Da palavra, do corpo, do chão – Jornal da USP


Por Alecsandra Matias de Oliveira, professora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc) da Escola de Comunicações e Artes da USP

Sob o título Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, a 36ª Bienal de São Paulo propõe uma ruptura com os modelos expositivos convencionais que historicamente têm orientado as grandes mostras internacionais. A proposta dos curadores pressupõe a reflexão sobre práticas de humanidade, deslocamentos e escuta, articulando saberes diversos e experiências plurais.

Nesse contexto, torna-se pertinente examinar os fundamentos conceituais da curadoria à luz de uma ideia da escritora Conceição Evaristo — homenageada nesta edição — que afirma ser necessário “pegar a palavra pelo rabo”. Tal expressão sugere a captura da palavra em seu estado de movimento, antes que ela escape, revelando uma postura ativa diante da linguagem e da construção de significados.

Essa formulação está intrinsecamente ligada ao princípio de “escrevivência”, cunhado por Evaristo, que reivindica a centralidade das vivências pessoais e coletivas como matéria literária legítima. Ao “pegar pelo rabo da palavra”, a autora afirma o direito de nomear o mundo a partir de sua própria perspectiva, desafiando os discursos hegemônicos e propondo uma escrita que emerge da experiência vivida — sobretudo aquela marcada por trajetórias de resistência, ancestralidade e exclusão histórica.

A partir das premissas de “escrevivência” e da ideia de “pegar a palavra pelo rabo”, é possível estabelecer uma interlocução crítica entre o conceito interpretativo da 36ª Bienal de São Paulo e sua materialidade espacial — o chamado “chão da Bienal”. Tal abordagem permite observar a articulação entre a proposta conceitual, os visitantes e o espaço expográfico, constituindo um eixo central de análise entre as múltiplas perspectivas suscitadas por esta edição.

A interrogação “é possível caminhar fora das estradas?” emerge como provocação diante da linha programática da mostra, que convoca ao deslocamento de paradigmas e à abertura de rotas não convencionais de fruição estética. Nesse sentido, a experiência dos visitantes — sobretudo, aqueles sem formação específica nas artes visuais ou áreas correlatas — torna-se elemento fundamental para compreender como as proposições se efetivam no contato direto com o espaço e com as obras – eles são os “viandantes”.

A relação entre o corpo do visitante, obra e espaço revela-se como campo de construção de sentidos, em que os atos de caminhar, de observar e de interagir configuram uma prática de leitura das coisas. Assim, o “chão da bienal” não se apresenta apenas como suporte físico da exposição, mas como território de negociações e possibilidades de subjetivação, reafirmando a dimensão política da presença dos visitantes na experiência artística, tornando-se ação de “escrevivência” individual e coletiva.

O verso “Nem todo viandante anda estradas” – que integra o poema chamado Da calma e do silêncio, de Evaristo – guarda interpretações relevantes para o presente exercício de reflexão. Nos versos, a poetisa assinala que a pressa e a interrupção do silêncio podem impedir o processo criativo e a conexão profunda com o mundo. Ao pedir que não a despertem ou a apressem, o eu lírico reivindica o direito de permanecer na aparente inércia, pois é nesse estado que se revela o âmago das coisas. Então, o verso “nem todo viandante anda estradas”, nesse contexto, sugere que o ato de caminhar não se limita ao deslocamento físico, mas também envolve jornadas interiores, subjetivas e sensíveis.

O constructo desta edição da bienal se vale do convite à introspecção, à escuta e à contemplação – tal como o poema, a mostra quer acessar os “mundos inerentes” à experiência humana. Cabe ainda, o desejo de tratar a mostra tal como um livro. E, de fato, a divisão em seis capítulos foi pensada como uma forma de organizar a exposição em núcleos temáticos que dialogam entre si, como se fossem partes de um livro.

Cada capítulo aborda aspectos distintos da experiência humana, como pertencimento, resistência, deslocamento, cuidado, beleza e acolhimento. Os capítulos são: Estuários, que trata dos encontros entre saberes; Gramáticas de insurgência, voltado à resistência e denúncia; Cartografias do silêncio, que aborda memórias apagadas; Corpo político, corpo poético, dedicado às expressões corporais; Tecnologias ancestrais e fabulações do porvir, que explora saberes e futuros alternativos; e O mundo é o teatro do homem, que reflete sobre as encenações da vida.

Essa abordagem difere das bienais anteriores que se apoiaram em discursos teóricos com menos recursos metafóricos – algumas delas herméticas e cheias de polêmicas, mas que sucessivamente encaixavam-se nos discursos hegemônicos. Nesse sentido, a 35ª Bienal de São Paulo – Coreografias do Impossível foi ponto de clivagem entre as anteriores e a atual edição. Nela, o modelo de curadoria coletiva e horizontal, formado por Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel, rompia com a figura do curador-chefe e propunha uma “coreografia” de saberes, marcada por movimentos que enfrentavam o irrepresentável: violências sistêmicas, injustiças históricas e impossibilidades de existência plena. Notadamente, a edição atual parece deslocar suas atenções – dos embates às ferramentas de cuidado e de transformação.

Nessa nova edição, porém, regressa o dispositivo do curador-chefe. Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador, escritor e biotecnologista camaronês, atualmente diretor da Haus der Kulturen der Welt (HKW) em Berlim, foi o escolhido pela Fundação Bienal. Os demais membros da equipe curatorial são: Alya Sebti (Marrocos) – diretora do ifa-Galerie em Berlim, com foco em práticas artísticas do Sul Global; Anna Roberta Goetz (Suíça) – curadora independente com atuação internacional, especialmente em arte contemporânea e crítica institucional; Thiago de Paula Souza (Brasil) – pesquisador e curador com forte atuação em arte afro-brasileira e decolonialidade; cocurador do 38º Panorama da Arte Brasileira no MAM-SP; Keyna Eleison (Brasil) – curadora, pesquisadora e ex-diretora artística do MAM-Rio; cocuradora da 1ª Bienal das Amazônias e Consultora de comunicação e estratégia; Henriette Gallus (Alemanha) – especialista em comunicação institucional e cultural.

Embora, não se tenha nenhuma crítica contundente sobre a atuação de Bonaventure como curador, algumas de suas ideias provocaram intensos debates no meio artístico. Há algum desconforto com relação à sua postura frente ao racismo, por exemplo. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, em 21 de junho de 2024, afirmou que “o racismo está em todos os lugares. É uma distração” – uma declaração que gerou reações diversas. Para alguns, essa visão pareceu minimizar o impacto do racismo estrutural; para outros, consiste em críticas à forma como o racismo é instrumentalizado no discurso público. “Não quero ver a presença do afro-brasileiro apenas como anti alguma coisa” – outra afirmação na mesma entrevista que pode ser interpretada como uma tentativa de deslocar o foco das lutas identitárias para abordagens mais universais. Isso gera alguma resistência entre ativistas que valorizam o enfrentamento direto ao racismo.

A partir do posicionamento do curador-chefe, faz sentido a análise do subtítulo Da humanidade como prática. Bonaventure, aliado ao time de cocuradores transnacionais pretendeu construir uma exposição que não ilustra temas, mas intenta ativar práticas. O termo “humanidade” aqui, visto como verbo, como ação. Na abordagem conceitual, não se trata de representar o mundo, mas sim de tensioná-lo. Para os seus comissários, a 36ª Bienal de São Paulo seria um gesto radical e, simultaneamente, poético, que desloca o eixo eurocêntrico da arte contemporânea para uma presença plural das práticas de humanidade em tempos de crise.

Porém, o termo humanidade é carregado de complexidades. Nas ciências sociais, a noção foi moldada por valores europeus iluministas, que se apresentavam como universais, mas excluíam culturas não ocidentais. Segundo autores como Walter Mignolo e Boaventura de Sousa Santos, esse universalismo serviu para justificar colonialismos e hierarquias raciais, culturais e epistêmicas. Desfazer a conotação dominante de “humanidade” exige um conjunto de práticas críticas, epistemológicas e políticas. Exige, acima de tudo, a abertura de caminhos para reimaginar o que significa ser humano. No fundo, é uma tarefa ética, política e estética — que envolve desaprender, reaprender e imaginar outros mundos possíveis.

Como “imaginar outros mundos” em tempos de genocídios, deslocamentos forçados e colapsos ambientais? Quando, na essência, “ser humano” é algo tão raro? Nas suas intenções, a 36ª Bienal escolhe a beleza como ponto de partida. Mas não uma beleza decorativa, frívola — trata-se de uma beleza insurgente, que emerge da atenção, da coletividade, da ancestralidade. As obras que denunciam genocídios, por exemplo, estão concentradas principalmente no capítulo Gramáticas de insurgências, que reúne práticas artísticas voltadas à resistência contra a desumanização, apagamentos históricos e violência colonial – porém, essa discussão não se faz tão densa nos demais capítulos, o que pode ser visto como um demasiado otimismo.

Como mediadora de vozes múltiplas, essa edição tem ainda como proposição o fato de que as comunidades ao redor do mundo enfrentam problemas similares, mas respondem com formas singulares de convivência e criação. Nessa perspectiva, a exposição coloca-se como um espaço de decolonização curatorial, ao reunir artistas de mais de 30 países cujas obras emergem de contextos locais, mas dialogam com urgências globais.

Bonaventure e seus cocuradores optaram por um estilo altamente conceitual com densidade filosófica e poética. Na exposição, a ênfase de vozes do hemisfério Sul e de artistas não ocidentais é celebrada como uma correção histórica, mas também gera ruídos por parte de quem vê a exclusão de outras perspectivas ou, ainda, uma nova forma de polarização – sem transição, essa abordagem pode ser vista como difícil ou até mesmo inacessível para parte do público.

A imagem da rota das aves migratórias foi adotada pela equipe curatorial como símbolo de um método de trabalho e de uma visão de mundo: como pássaros que cruzam oceanos sem se prender a mapas, a Bienal propõe uma travessia artística em que nacionalidades deixam de ser barreiras.

Outra metáfora relevante: a mostra se estrutura como um estuário — zona geográfica de encontro entre águas diversas — e chama o público a navegar por fluxos de saberes, estéticas e insurgências que não se deixam capturar por categorias fixas como identidade, território ou migração. A escolha dos estuários como imagem expográfica é muito potente: zonas de mistura, de adaptação, de coexistência se colocam no percurso do visitante. Essa imagem guia a montagem da exposição, que se organiza, como já mencionado, em capítulos fluidos, sem hierarquias, e sugere ao visitante a se perder, a errar, a perceber.

Ao caminhar pelos 30 mil m² do Pavilhão da Bienal, o visitante se depara com uma experiência que, embora visualmente instigante, o leva à deriva – seu corpo tem o embate com as obras. Aqui, evoca-se Merleau-Ponty, que entende o corpo como uma condição fundamental da percepção e da experiência estética, comparando-o à obra de arte por sua capacidade de expressar e revelar o mundo de forma sensível e encarnada. O corpo é encarnado, ou seja, está imerso no mundo e participa da construção do sentido — ele vê, sente, age e interpreta.

Porém, a decisão curatorial de não apresentar informações próximas às obras — sob o argumento de promover uma “experiência direta” — resulta em um percurso sem bússola, onde a arte se torna ainda mais ensimesmada. Alguns críticos apontaram para a falta de generosidade informativa. Outros argumentam que a montagem, embora esteticamente sofisticada, reforça o distanciamento entre obra e público.

De todo o modo, os textos explicativos aparecem em colunas distantes, em formato circular, tornando mais difícil a leitura e a conexão com os trabalhos. A proposta de criar “estuários curatoriais” — zonas de mistura e fluidez — acaba por se tornar um labirinto “sem fio de Ariadne”. A ação de desistoricizar as obras, afastando fichas técnicas, nomes de artistas e explicações dos trabalhos expostos pode ser lida como libertadora, mas também excludente.

Alguns críticos, entre eles Fábio Cypriano, discutem que em arte contemporânea, o contexto é parte da obra — ignorá-lo é silenciar vozes, especialmente em uma mostra que se pretende plural e decolonial. Já a educadora Bruna de Jesus responde que o contexto não se limita ao texto, pois pode ser acessado por meio de gestos, imagens, sons, expressões corporais e outras linguagens. A proposta é que o público se relacione com as obras a partir de sua própria escuta, percepção e subjetividade, sem depender de uma narrativa escrita que oriente o olhar. Surgem, então, perguntas fundamentais: o público está disposto a esse tipo de desprendimento? Está aberto a retornar à exposição em diferentes momentos, a construir uma experiência imersiva que se dá na repetição, na escuta silenciosa, na contemplação paciente?

A resposta não é única. Há aqueles que se permitem esse mergulho, que compreendem a visita à Bienal como um processo e não como um evento pontual. Outros, por diferentes razões — estruturais, subjetivas ou culturais —, não acessam essa possibilidade. O espaço expositivo, nesse sentido, torna-se também um espaço de disputa: entre o tempo acelerado e o tempo da escuta; entre o consumo rápido de imagens e a construção lenta de sentidos; entre o espetáculo e a “escrevivência”.

A curadoria, ao propor caminhos poéticos e insurgentes, convoca o público a caminhar fora das estradas já traçadas. Mas essa convocação só se realiza plenamente quando encontra corpos dispostos a escutar, a se perder e a se deixar afetar. É nesse entrelaçamento — entre palavra, corpo e espaço — que a experiência estética se torna escrevivente.

Em síntese, a 36ª Bienal de São Paulo apresenta uma configuração espacial marcada por metáforas vigorosas, mas também por certa instabilidade interpretativa. O “chão da bienal” é belo, mas escorregadio. Ambiciosa em sua proposta curatorial, a edição revela fragilidades nos aspectos relacionados à comunicação e à acessibilidade, o que compromete a fruição plena por parte do público. Ao privilegiar uma abordagem pautada pelo abstrato e pelo lírico, corre-se o risco de reduzir a arte à condição de espetáculo e de converter a noção de humanidade em um modelo distante e até mesmo inatingível.

Ainda assim, trata-se de um marco entre as diversas curadorias de bienais passadas. Essa nova edição tensiona os modelos expositivos tradicionais e propõe a emergência de novos territórios expográficos. Em vez de seguir os caminhos previamente estabelecidos, a exposição opta por abrir rotas alternativas — tortuosas, poéticas e insurgentes — que instigam à experimentação, ao trânsito dos corpos pelo espaço expositivo, mas também ao direito de se perder entre os significados.

(Esse texto foi originalmente concebido para a plataforma digital ARTEINFORMADO)

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