sábado, maio 16, 2026
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Na Sé. 50 anos sem Vlado – Jornal da USP


Participar do Ato na Catedral da Sé no 25 de outubro foi uma emoção enorme! Em 1975, quando houve a famosa missa na catedral pela morte do Vlado, eu estava numa aldeia Bororo e só conseguia acompanhar as notícias pela BBC, única estação que pegava em um rádio que felizmente levara nessa viagem.

Cheguei à catedral 17h20 e achava que tudo teria começado às 17h. Engano meu, era às 19h. Com isso, peguei um lugar excelente, logo em seguida aos protagonistas. A catedral lotou de gente vestida de branco! Pude reconhecer de imediato Genoíno, Zé Dirceu, Erundina, Suplicy, Alckmin e sua mulher, Lu Alckmin, José Carlos Dias, presidente da Comissão Arns que, com o Instituto Vladimir Herzog, convocou o ato, os jornalistas Jamil Chade e Juca Kfouri. Estavam lá a viúva de Audalio Dantas, 50 anos atrás presidente do Sindicato dos Jornalistas, que tanto apoio deu à Clarice Herzog e toda sua família, assim como Marcio José de Moraes, o juiz que em 1978 deu a primeira sentença condenando o Estado pela morte de Vlado. Estava lá Maria Rita Kehl, que participou da Comissão da Verdade.

No altar, o cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer, o rabino Rav Uri Lam e a reverenda Anita Wright, pastora adventista, filha do reverendo Jaime Wright, que celebrara a missa 50 anos atrás com Dom Paulo Evaristo Arns e o rabino Henri Sobel. Os três falaram. Emocionante a fala de Ivo Herzog, filho do Vlado. Em 1975, as 8 mil pessoas que foram à missa estavam muito quietas, com medo da reação do Estado, disse ele, ninguém gritou abaixo a ditadura! Agora a presença de Alckmin, vice-presidente em exercício, transformava o Ato em um ato do Estado.

Dois telões enormes ao lado do altar passavam filmes de 50 anos atrás. Emocionante ver Chico, Caetano, Gil, Rita Lee e peças com Zé Celso, Roda Viva entre elas, e as tirinhas do Henfil. As várias fases da família de Vlado.

Teve coral, Cida Moreira tocou e cantou; Cálice do Chico foi cantada duas vezes. A presidente da Anistia Brasil falou, uma mulher negra, uma fala emocionante. O telão trazia as imagens de cada uma das viúvas daqueles que a ditadura matou, começando por Clarice Herzog, Eunice Paiva, Zuzu Angel, e foi seguindo com as fotos de muitas, muitas outras. Marielle Franco foi também saudada, uma das falas é a de que nas periferias a ditadura continua e a violência mata, como matou Marielle.

Emocionante, oportuno e inesperado, ao menos para mim, foi o pedido público de perdão de Maria Elizabeth Rocha, primeira mulher a ser indicada, em mais de 200 anos, como presidente da Justiça Militar da União. “Recebam o meu perdão, a minha dor e a minha resistência”, diz ela. A catedral era um mar de gente de cabelos brancos.

Saí da catedral pensando o quanto de coisas horríveis a ditadura pode trazer e como foi bom nos livrarmos dela. E lembrar que 8 de janeiro de 2023 nos levou bem próximo de uma volta. Andando pela Praça da Sé para pegar o metrô de volta, vejo que nos livramos da ditadura, mas ainda não da miséria e da desigualdade. Ainda são muitas as pessoas dormindo nas ruas…

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