Cultura das métricas e da ostentação da eficiência transforma o trabalho em vigilância constante, gera exaustão e reduz a criatividade
Hoje (31), o professor Luli Radfahrer trata em sua coluna da Produtividade de Performance, “mais uma dessas contradições trazidas pelas plataformas e pela cultura competitiva que acredita que tudo tem que ser público e tudo tem que ser medido e comparado. Agora a gente tem uma espécie de produtividade para ostentar, que não tem nenhuma conexão real com a realização de tarefas. Ela vem de uma convergência de três correntes: primeiro, a filosofia besta do vale do Silício, que defende que tudo precisa ser medido e gerenciado. Depois, o trabalho remoto, que criou uma estrutura de vigilância no emprego. E, terceiro, as mídias sociais, que treinam os usuários a viver a vida publicamente. O resultado é que a produtividade se tornou uma parte da identidade para administrar e para ostentar”.
O resultado, segundo ele, é o de que “quando tudo é medido, é natural o usuário se concentrar mais na mensuração do que no processo que está sendo medido. É aquela coisa de ficar contando o número de repetições na academia, mais do que se preocupar com o verdadeiro desenvolvimento físico. A hora que a gente gamifica o trabalho, ou seja, a hora que tudo vira um jogo, uma competição, as conquistas viram um teatro de pontuação. Essa fixação métrica cria uma distorção nas prioridades, tarefas fáceis de quantificar, tipo o número de mensagens respondidas, reuniões atendidas, as tarefas realizadas são priorizadas e as tarefas mais valiosas e mais difíceis como pensamento estratégico, relacionamentos, resolução de problemas acabam sendo deixadas de lado. É uma ironia histórica, quanto mais ferramentas de produtividade, menos produtivos a gente se torna […] Por isso que toda essa estrutura de mensuração e de produtividade está deixando as pessoas muito mais cansadas sem melhorar a qualidade do trabalho”.
“A gente fica com um inventário mental constante de todas as tarefas que não foram concluídas e entra em pânico quando as métricas de produtividade caem. O monitoramento constante da produtividade aumenta o estresse e diminui a produção criativa. A medida em que tudo é constantemente visível, o trabalho se torna infinito. Tem sempre alguma outra coisa para fazer, sempre uma métrica para melhorar, e você vai se sentir extremamente culpado se parar para descansar. É uma dismorfia de produtividade. As pessoas objetivamente produtivas se sentem cronicamente improdutivas, porque as suas métricas nunca correspondem aos padrões idealizados dos influenciadores de produtividade. Você não conseguiu acordar às 5 horas da manhã, escrever um diário, tomar um banho gelado e correr 28 km antes de responder 500 e-mails? Ah, então você é um inútil. Na verdade, o problema é que, com tudo isso, a gente acaba perdendo o acesso ao tempo livre, aquele ócio criativo que costuma ser extremamente produtivo para a vida da gente.”
Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.
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