sexta-feira, maio 15, 2026
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O mal-estar pardo e a dimensão sociopolítica do sofrimento na mestiçagem – Jornal da USP


A passagem dos discursos pró-mestiçagem aos discursos racialistas estabeleceu novos paradigmas para as políticas públicas brasileiras. Iniciada em meados da década de 1980, com a redemocratização, tal transformação tem orientado iniciativas e ações afirmativas que passaram a considerar, no combate a violências e desigualdades históricas, não somente marcadores socioeconômicos, mas, também, categorias raciais, aliando soluções redistributivas à justiça por reconhecimento, nos termos da filósofa Nancy Fraser.

Os ganhos são evidentes. Segundo a Agência Brasil, em 2021, pretos, pardos e indígenas somaram 52,4% dos matriculados nas universidades públicas do País, o que representa um crescimento de 66% em relação ao ano de 2001, quando as primeiras iniciativas de cotas foram adotadas. Mudanças expressivas também são observadas no perfil demográfico da população brasileira, que, segundo o último Censo (2022), passou a ser majoritariamente parda, superando, pela primeira vez na história do País, o número de autodeclarados brancos. Atualmente, no Brasil, 55,5% das pessoas são negras, pois se definem como pardas ou pretas, conforme critério de cor ou raça do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Porém, se, por um lado, os novos paradigmas têm promovido ampliação de acesso e maior equilíbrio de forças entre grupos de diferentes origens, tanto em termos raciais quanto de classe, por outro, eles têm produzido mal-estar e novas modalidades de sofrimento, que recaem sobre os potencialmente brancos, potencialmente pretos, que ocupam um lugar que é, também, um não lugar: pardos não são brancos o suficiente para usufruírem de prerrogativas, tampouco são pretos o bastante para terem os direitos garantidos e os sofrimentos reconhecidos, o que traz implicações políticas – e também clínicas.

É desta arena, onde têm se dado dilemas e disputas ideológicas históricas, que parte a pesquisa de mestrado que está sendo realizada no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da USP intitulada O mal-estar pardo, da fronteira ao limiar: uma investigação psicanalítica sobre racismo e mestiçagem no Brasil.

Na pesquisa de mestrado, é utilizada a metodologia do ensaio-flânerie, forjada nos estudos da psicanalista e pesquisadora Rose Gurski. Tal método se constitui como um modo de construir o caminho da pesquisa ao caminhar, cifrando expressões deste mal-estar e enunciando as gramáticas de sofrimento que dele derivam, a partir das produções que pautam o retorno de Lacan a Freud, em diálogo com Frantz Fanon e autores de outras áreas do conhecimento.

Compreende-se que a passagem do pensamento pró-mestiçagem à abordagem racialista trouxe ganhos evidentes. Contudo, a falta de reconhecimento da categoria política negra, que é composta de autodeclarados pardos e pretos, somada à supressão do léxico necessário à narrativização das experiências negro-mestiças, invisibilizaram a população parda e promoveram seu silenciamento.

Ao considerarmos tais efeitos à luz do discurso instituído por instrumentos legais – vide Estatuto da Igualdade Racial –, bem como pelas diversas modalidades de violência e exclusão vivenciadas pela população parda, conforme os levantamentos estatísticos evidenciam ainda hoje, afirmamos que tal mudança de paradigma tem promovido, em contrapartida, o que Miriam Debieux denomina de desamparo discursivo.

Revela-se, no coletivo, por meio de reprovações em bancas de heteroidentificação e por questionamentos acerca da pertinente associação de pretos e pardos na categoria política negra, que tem ocorrido em razão de desvantagens e discriminações históricas compartilhadas.

Na escuta desses sujeitos, tal mal-estar apresenta-se muitas vezes de modo difuso, não articulado como demanda em razão de sua natureza imprecisa, e sem a possibilidade de ser endereçado ao outro, o que tem sido pensado com o apoio do que foi teorizado por Christian Dunker acerca da semelhança entre a impossibilidade de endereçamento e os curtos-circuitos que se dão no processo de alienação do sujeito, que bloqueiam a simbolização. Tal mal-estar pode, também, incorrer em sofrimentos como estranhamento, dificuldade de pertencimento e silenciamento, ou, ainda, em produções sintomáticas que decorrem do incessante confronto com a imagem de si.

Como a pesquisa tem apontado, tais efeitos negativos não podem ser negligenciados – o que não é o mesmo que defender a suspensão ou o desmonte de políticas que têm promovido avanços inegáveis. A questão é que, ao nos orientarmos desde teorias fundamentadas em estudos de relações raciais de alhures, notadamente dos Estados Unidos e de países descolonizados em África, que não refletem os contextos históricos, sociais, culturais e ideológicos nos quais as experiências brasileiras se originam, produzimos desencontros, como há muito alertou o sociólogo Carlos Hasenbalg. Com efeito, promovem-se certos modos de alienação precários e, consequentemente, surgem problemas de ordem sociopolítica, mas também questões de ordem clínica, que precisam ser examinadas.

Neste contexto, colocado em indefinida suspensão, nem totalmente excluído nem devidamente incluído, o sujeito pardo faz de seu lugar-não-lugar aquilo que pode, apoiando-se nas estruturas normativas de sua época. Nesta pesquisa temos articulado tal problemática àquilo que Contardo Calligaris denominou de perversão social. Ao analisar o funcionamento dos grupos, indicou que a dessexualização de determinados discursos promove éticas de policiamento ao se utilizar, justamente, da mais primordial das tendências humanas, que é a paixão instrumental – uma obscenidade que se dá quando se abre mão do desejo, que implica em diferença, para se entregar ao gozo da submissão.

Então, como falar de mestiçagem, se o luto do discurso culturalista ainda está em curso? Como não falar de mestiçagem, se a luta que o luto principia, diante das exigências do método, deflagra que o morto é “semente que tomba e multiplica”, como diz a poética de Raduan Nassar?

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