sexta-feira, maio 15, 2026
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ciência e o selo da improvisação – Jornal da USP


O Brasil é, mais uma vez, o país da piada pronta. A cota de importação do CNPq — de US$ 200 milhões para 2025 — acabou antes de o ano terminar. Laboratórios de ponta, que dependem de reagentes, kits e equipamentos importados para suas atividades diárias, ficaram à deriva. A engrenagem que sustenta não apenas a pesquisa, mas a formação de talentos e a inovação que alimenta nossa economia, parou — ou voltou a funcionar no modo “gambiarra”.

A tragédia não é apenas científica; é estrutural. A inovação não floresce nos laboratórios isolados, mas nas pessoas formadas ali que depois empreendem, criam startups ou ajudam empresas a inovar para conquistar mercado no Brasil e no mundo. É dessa ponte entre ciência e produção que surgem as transformações reais. De que serve multiplicar bolsas da Capes e formar doutores se, no fim do processo, o único lugar que oferece perspectiva de futuro é o aeroporto de Guarulhos?

As associações científicas apelam para que a cota suba de US$ 200 milhões para US$ 400 milhões. Mas a questão é mais profunda: qual é a eficácia de dobrar o balde se continuarmos enxugando gelo dentro de uma economia das mais fechadas do planeta? O Brasil está entre as três economias mais fechadas do G20.

Apenas 29% do PIB vêm de comércio exterior — contra 88% na Alemanha e 79% na Coreia do Sul. O resultado é previsível: baixa produtividade, pouca competição, pouco aprendizado tecnológico e escassa incorporação de inovação.

Mesmo nossos melhores centros de ensino, heterogêneos e inchados, ainda têm dificuldade em reproduzir a eficiência e a integração de suas congêneres internacionais.

A educação técnica é insuficiente, e a universidade pública quer abraçar todas as áreas, sem foco, sem escala e com burocracia cartorial que desestimula a produção. Não é coincidência que, enquanto um trabalhador americano leva 15 minutos para produzir algo, um brasileiro leve uma hora.

No meio desse labirinto, o País ainda cultiva sua contradição preferida: governos de “esquerda” e “direita” que se nutrem mutuamente, conservadores ambos, sustentando o mesmo populismo fiscal e o mesmo pacto implícito de mediocridade. De um lado, o Banco Central tenta esfriar a economia para conter inflação; de outro, o governo estimula o consumo e a empregabilidade desqualificada, à custa de déficits empurrados adiante. Uma mão pisa no freio, a outra pisa no acelerador — e a ciência, no meio, é arremessada contra o para-brisa.

A ironia é que setores realmente competitivos — agronegócio, pecuária e mineração — prosperam porque se apoiam em décadas de investimento tecnológico e em políticas de Estado, não em retórica. Mas até esses segmentos enfrentam gargalos logísticos e fiscais que reduzem margens e limitam a agregação de valor.

Se quisermos romper esse ciclo, é preciso discutir a questão para além dos muros acadêmicos e dos gabinetes de Brasília. A questão não é “mais orçamento”, mas como gastar melhor e onde investir para não comprometer o futuro.

Sem abrir a economia, simplificar a burocracia e conectar ciência à produção, continuaremos na armadilha da renda média — um país com doutores sem laboratórios, empreendedores sem competitividade e governos sem projeto de Nação.

A piada pronta já sabemos contar. O desafio é parar de repeti-la.

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