sexta-feira, maio 15, 2026
HomeSaúde física e emocionalEscolas do povo Baniwa resgatam saberes tradicionais e incorporam inovação no noroeste...

Escolas do povo Baniwa resgatam saberes tradicionais e incorporam inovação no noroeste amazônico – Jornal da USP


Associações e comunidades transformaram experiência de educação escolar indígena em instrumento de resgate cultural e inovação social

Jovens indígenas sentados em carteiras escolares, dispostas em uma construção de madeira e chão de terra. Ao fundo, há uma grande lousa branca.
Escolas indígenas plurilíngues baniwa e koripako adotam a ideia de “educar pela pesquisa” – Foto: Reprodução/You Tube/ Instituto Socioambiental

 

Os Baniwa são um povo indígena que vive na região das fronteiras entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, tendo como epicentro de sua distribuição geográfica o Rio Içana, um dos tributários do Rio Negro. Sua população em 2025 é estimada em cerca de 20 mil pessoas, distribuídas por várias aldeias e também por centros urbanos. Nos ambientes mais bem informados das grandes metrópoles brasileiras, os Baniwa são conhecidos principalmente por seu requintado artesanato, pela produção da pimenta jiquitaia e pela atuação cultural de alguns de seus integrantes, como o artista plástico Denilson Baniwa e o antropólogo Gersem Baniwa, professor da Universidade de Brasília (UnB). Menos conhecida é uma experiência educacional iniciada pelos Baniwa no final dos anos 1980, que se converteu em instrumento de resgate cultural e inovação social.

Como aconteceu com outros povos indígenas, os contatos dos Baniwa com a sociedade envolvente foram marcados pela extrema violência colonial, pela exploração econômica e por tentativas de apagamento cultural praticadas por missionários católicos salesianos e evangélicos. Um estudo recente, conduzido por Antônio Fernandes Góes Neto, investigou como escolas indígenas plurilíngues baniwa e koripako e organizações comunitárias presentes no território baniwa articulam currículo, projetos de cadeias de valor e saberes tradicionais, promovendo a permanência estudantil, a obtenção de renda e a governança local. Os resultados foram apresentados em capítulo do livro Equalizing the three pillars of sustainability, publicado pela editora Springer.

Homem de pele clara fala ao microfone. Ele veste camiseta e blazer. Está em frente a uma estante de madeira contendo diversos livros.
Antônio Fernandes Góes Neto – Foto: Arquivo Pessoal

Doutor pela Faculdade de Educação (FE) da USP, Góes Neto é atualmente professor visitante na Universidad Andina Simón Bolívar, no Equador. Ele realizou sua pesquisa de campo no âmbito do projeto Educação Escolar Indígena: Saberes Aprendidos e Inovação, coordenado pelo professor Elie Ghanem na FE e apoiado pela Fapesp. Seu capítulo sustenta que escolas indígenas superam o “paradigma irresponsável” dos internatos, escolas bíblicas e antigas escolas agrotécnicas quando significam a vida local, mobilizam saberes do território e reduzem o êxodo das comunidades indígenas, ao articular currículo, língua, economia e gestão.

“Chamamos de ‘paradigma irresponsável’ da escolarização aquela lógica de internatos e vigilância moral, que afastava jovens de suas famílias e interditava conhecimentos indígenas. Nossa pesquisa mostra como as escolas indígenas baniwa e koripako, hoje, são vetores para a reapropriação do território, da língua e da economia pelas comunidades”, diz Góes Neto. “Escola é laboratório de invenção: livros, jogos, mapas, vídeos, brinquedos, artesanato, desenho de cadeias de valor. Inovação, aqui, não é engenhoca; é agência coletiva para resolver problemas reais”, enfatiza.

Educação para fortalecer os saberes

A virada começou com o associativismo indígena das décadas de 1980 e 1990, em meio à crise do garimpo e à mobilização por direitos territoriais. Surgiram, nessa época, entidades como a Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), a Associação dos Professores Indígenas do Alto Rio Negro (Apiarn), a Associação das Comunidades Indígenas de Putyra Kapuamo (ACIPK; Putyra Kapuamo significa “Ilha das flores” na língua yẽgatu). Essas organizações convergiram na formação da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Representando 23 povos do Alto e Médio Rio Negro (Baniwa, Tukano, Desana, Baré, Tariana, entre outros), a Foirn, com sede em São Gabriel da Cachoeira (AM), é hoje uma das organizações indígenas mais importantes do Brasil, atuando em defesa de direitos territoriais, educação, saúde, valorização das línguas e culturas e fortalecimento político das associações de base.

+ Mais

Posted: 28/08/2023

Com a homologação de terras e a criação do Território Etnoeducacional do Rio Negro (Decreto 6.861/2009), emergiu uma escola de base territorial, com gestão e docentes escolhidos pela comunidade. “As associações e as escolas tornaram-se espaços de manobra para preservar e fortalecer os saberes, ao mesmo tempo em que criam alternativas econômicas para que o ato de estudar não afaste os jovens das comunidades. A radiofonia comunitária, implantada com assessoria do Instituto Socioambiental (ISA), foi peça-chave na coordenação entre as associações e escolas”, informa o pesquisador.

O estudo foca a comunidade Cabari, na microrregião Aí Waturá, no município de São Gabriel da Cachoeira, onde a escola municipal homônima, gerida pela ACIPK, organiza currículo e projetos a partir da noção de kupixá (roça ou floresta) e de temas geradores levantados pela própria comunidade: plantas úteis, pesca, cerâmica, resíduos, saúde, história local etc. O modelo é baseado em escolas-piloto do Rio Içana, como a Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali e, mais recentemente, a Escola Baniwa Eeno Hiepole.

“A sala de aula tem fluxo com o território. Os alunos trilham, roçam, pescam, entrevistam os mais velhos, registram seus achados em línguas como baniwa, koripako ou yẽgatu e os apresentam à comunidade. Isso vira material didático. É a escola que constrói seus recursos de apoio por meio da pesquisa”, relata Góes Neto.

A ideia de “educar pela pesquisa” está alicerçada na obra do sociólogo Pedro Demo, Professor Emérito da UnB e ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), um autor referencial no campo da educação. Demo vê a pesquisa como princípio educativo por excelência, mobilizando aluno e professor, com base em critérios como autonomia e pensamento crítico. Sua abordagem foi profundamente absorvida pelos programas de Magistério Indígena no fim dos anos 1990 e início dos 2000.

Pessoas em pé em frente a uma maloca. A maloca é construída com madeira e palha, possui pelo menos quatro metros de altura e suas paredes externas são decoradas com grafismos coloridos.
Maloca da Comunidade Assunção do Içana, onde está em curso um movimento de recuperação do xamanismo tradicional – Foto: Agência FAPESP

Pimenta, turismo e xamanismo

A diversidade sociolinguística é um traço marcante: no Baixo Içana predomina o yẽgatu; do Médio para cima, o baniwa; no Alto Içana, o koripako. A grafia proposta pelo linguista franco-brasileiro Henri Ramirez, nascido na Argélia e chamado pelas associações baniwa para assessorá-las décadas atrás, vem sendo ajustada por professores indígenas. E há demanda para reconhecimento do baniwa e do koripako como patrimônio linguístico, dentro do Diagnóstico Sociolinguístico da Língua e Comunidade Medzeniako (Baniwa-Koripako), uma colaboração da Foirn com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e no Projeto de Documentação Linguística Baniwa e Koripako do Endangered Languages Documentation Programme (ELDP).

O resgate dos saberes ancestrais é uma ênfase. Mas a incorporação crítica de novos saberes, capazes de subsidiar a inovação com vistas ao bem-viver, é igualmente valorizada. Em Cabari e em muitas outras comunidades isso se dá em três frentes: produção de cestaria com motivos tradicionais; produção de pimenta jiquitaia, inclusive com parcerias, visando, por exemplo, à fabricação de cerveja artesanal com pimenta; e turismo étnico, integrando trilhas, leitura de paisagens e de plantas, culinária e narrativas.

“Na produção da pimenta, o desafio foi dominar todas as etapas do processo: cumprir normas sanitárias, padronizar as embalagens e vender com identidade própria. No turismo, a comunidade percebeu que essa atividade só se sustenta quando a escola melhora, com pesquisa e formação de docentes, que são os próprios gestores desse tipo de atividade econômica”, comenta Góes Neto.

+ Mais

Três mulheres indígenas em pé sobre uma trilha de terra, ao lado de uma roça. Há um grupo de pessoas mais numeroso atrás delas.

Posted: 25/09/2025

Dois homens brancos conversam com grupo de jovens indígenas em uma sala de aula na aldeia

Posted: 22/08/2025

A espiritualidade ancestral e as práticas xamânicas foram fortemente estigmatizadas e demonizadas pelas missões católicas e evangélicas. Hoje, a maioria dos baniwa se define como cristã, em uma vertente ou na outra. Mas também nesse campo, especialmente delicado, há uma recuperação em curso. Ucuqui-Cachoeira é reconhecida como uma das comunidades católicas que mantiveram práticas xamânicas vivas, mesmo diante da forte pressão evangelizadora no século 20. Segundo o antropólogo Robin Wright, Ucuqui-Cachoeira foi um dos principais centros de resistência e revitalização do xamanismo baniwa. Pajés dessa comunidade participaram de iniciativas como a Escola de Xamãs, projeto conduzido por Wright nos anos 1990, com o objetivo de registrar, fortalecer e transmitir saberes xamânicos.

Assunção do Içana é outro exemplo. Marcada por ter sido um dos grandes internatos salesianos da região, tornou-se, a despeito disso, um novo polo de fortalecimento do xamanismo. Reflexo da convivência histórica com não indígenas e dos casamentos com mulheres do povo Baré, a maioria dos moradores não fala baniwa, mas yẽgatu, que foi uma língua franca amazônica no passado. Em 2022-2023, foi criada a Escola Viva, um projeto comunitário com a finalidade de ensinar e difundir saberes tradicionais, incluindo o xamanismo e o desejo de voltar a falar a língua baniwa, considerando que ainda há alguns falantes dessa língua na comunidade. A liderança intelectual desse processo vem de pesquisadores e professores baniwa, como Francy Baniwa e Francisco Fontes Baniwa.

“A maloca tradicional vem sendo reconstruída, como recinto cerimonial e centro de convivência. Mas há um consenso crescente de que escola é uma coisa e maloca é outra. A aula pode acontecer na maloca, ou em uma sala de alvenaria, palhoça, roça, porto ou trilha. O essencial é não diluir o tempo escolar e não reduzir a maloca à sala de aula”, sublinha Góes Neto.

Texto de José Tadeu Arantes, da Agência FAPESP. Adaptado pelo Jornal da USP



Fonte