sexta-feira, maio 15, 2026
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abundância na forma e no conteúdo? – Jornal da USP


É bem conhecida a formulação do russo Roman Jakobson (1896-1982) sobre as chamadas “funções da linguagem”, especialmente por se tratar de um tema não apenas presente nos currículos de ensino médio, mas também por estar entre os assuntos recorrentes no exame nacional do segmento, o Enem.

Pesquisadores com formação mais sólida nas ciências da linguagem, porém, sabem que, a esta altura dos acontecimentos, chega a ser ingênuo limitar as funções que a linguagem assume na aventura humana sobre a terra às seis possibilidades listadas por Jakobson (que organizou de forma bastante competente noções que já existiam sobre o pendor ao referente ou ao emissor e assim por diante).

Ainda assim, com a devida vênia ao nome pretensioso que o assunto continua ostentando, segue sendo produtivo e interessante confrontar a função poética da linguagem às demais, tal como o linguista propõe em seu trabalho Linguística e poética, publicado originalmente em 1960.  Mais do que isso, merece nossa atenção perceber que as escolhas linguísticas cotidianas também podem ser regidas por essa função, que não é, portanto, privilégio dos poetas. Ao que nos parece, o uso frequente dos adjetivos “robusto” e “parrudo” é exemplo disso.

A forma exata a serviço da expressão artística

Grosso modo, a função poética se manifesta quando a forma rouba a cena, sobrepondo-se ao conteúdo. Entre tantos exemplos, podemos citar estes versos de Djavan: em “rajada de vento/ som de assombração”, a sequência de fonemas /s/ no segundo verso leva o cantor a reproduzir o som do sopro ventoso – um “sss” que, em filmes de terror, muitas vezes é realmente pista de que alguma assombração já esteja no recinto.

O mesmo efeito não aconteceria se o compositor optasse por “barulho de fantasma”, em que o som /s/, que mimetiza a “rajada de vento”, desapareceria. Assim, a impossibilidade de substituir a expressão original (“som de assombração”) por um sinônimo (“ruído de alma penada”) revela que a forma de dizer se destaca sobre o conteúdo dito.

Não seria correto dizer que a função poética se limita a questões fonéticas, mas explorar os sons da língua para conferir expressividade ao texto é recurso recorrente na poesia e no cancioneiro popular. O que queremos destacar, contudo, é que isso não se dá apenas nesses contextos.

“O horrendo Henrique”

Roman Jakobson, ainda no ensaio citado, conta uma pequena joia de observação linguística:

“Uma moça costumava falar do ‘horrendo Henrique’. ‘Por que horrendo?’ ‘Porque eu o detesto.’ ‘Mas por que não terrível, medonho, assustador, repelente?’ ‘Não sei por que, mas horrendo lhe vai melhor.’ Sem se dar conta, ela se aferrava ao recurso poético da paronomásia.”

A partir dessa singela historinha – e de outros exemplos igualmente engenhosos –, Jakobson refletia sobre como, em suas palavras, “o estudo linguístico da função poética deve ultrapassar os limites da poesia”. A lição é clara: o encanto sonoro das palavras pode ter tanta força quanto o sentido que carregam.

A preferência por determinadas sonoridades, aliás, não é aleatória: estudos sobre iconicidade fônica mostram que certos sons evocam impressões sensoriais específicas – de leveza, peso, aspereza ou doçura –, o que ajuda a explicar escolhas lexicais aparentemente instintivas. Em suma, o “horrendo Henrique” de Jakobson nos lembra que o falante, mesmo sem saber, é um artífice do som. Ao escolher “horrendo” e não “medonho”, a moça não faz apenas um juízo de valor – ela compõe uma pequena peça de música verbal, em que o ódio encontra a sílaba certa para se alojar. É nessa sintonia entre som e afeto que a linguagem se revela em toda a sua potência poética: mesmo no cotidiano, até o desprezo tem o seu timbre.

Atendendo a esse chamado, arriscamos uma hipótese contemporânea: não seria a súbita popularidade dos adjetivos “robusto” e “parrudo” também um caso de sedução sonora? Talvez a vibração das consoantes, o peso articulatório ou mesmo a “rusticidade” do timbre expliquem parte de seu sucesso – um lembrete de que, muitas vezes, é a música da língua que convence antes mesmo do significado.

Falando de boca cheia

Essa reflexão sobre forma e conteúdo surgiu de uma percepção particular: de uns tempos para cá, temos notado um uso recorrente dos adjetivos “robusto” e “parrudo” para indicar que certo substantivo remete a um referente “forte”, “sólido”, “vigoroso” etc.

Dois exemplos: em documento recente do MEC, orientando a elaboração de itinerários formativos nas escolas, lê-se que “Um IFA [Itinerário Formativo de Aprofundamento] robusto requer organização criteriosa e intencional” (grifo nosso); em matéria da Folha de S.Paulo sobre festivais de música, lê-se que “Empresas como a Rock World, organizadora do The Town, têm poder de compra elevado e fluxo de caixa parrudo” (grifo nosso). As duas palavras, que parecem ter entrado na moda, guardam uma semelhança que não é apenas semântica, que vai além da sinonímia entre elas.

Ao contrário de termos como “forte”, “grande” ou “resistente”, “robusto” e “parrudo” apresentam, em sua sílaba tônica, a vogal /u/ – som posterior e arredondado que, pela articulação e ressonância, produz uma sensação de boca cheia e de força encorpada. Essa associação não é casual: estudos de fonossimbolismo mostram que certos timbres vocálicos podem evocar impressões de volume, densidade ou potência. Por contraste, pensemos em termos como “forte” ou “resistente”: embora semanticamente semelhantes aos outros dois, estes últimos privilegiam vogais anteriores e menos arredondadas, que soam mais agudas e “secas” – seu som, portanto, não remete à mesma ideia de robustez.

Fica a dica

Segundo nossa hipótese, tanto “parrudo” quanto “robusto” teriam caído no gosto dos falantes por trazerem a impressão de algo denso, firme ou imponente. No entanto, como estamos no campo da ciência, mais dados e contrapontos podem vir a fortalecer essa análise inicial.

Estudiosos das letras, animados a enveredar pelos caminhos do “fonossimbolismo”, sem dúvida podem, partindo dessas reflexões preliminares, empreender um robusto estudo sobre o tema. Para nós, seria um orgulho parrudo.

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