Iniciativa da Faculdade de Medicina da USP destaca ações que transformam pesquisa e extensão em políticas públicas voltadas à saúde e aos direitos das mulheres

O Prêmio de Impacto Social da Faculdade de Medicina da USP reconheceu, em sua primeira edição, projetos que aliam ciência, inovação e cidadania. Entre mais de cinquenta propostas inscritas, o destaque foi o projeto de prevenção e cuidado da violência de gênero, coordenado pelas professoras Ana Flávia D’Oliveira e Lilia Schraiber, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina (FM) da USP. A iniciativa busca fortalecer a resposta da rede pública de saúde às situações de violência contra mulheres e meninas, promovendo acolhimento, encaminhamento e cuidado humanizado.
Três décadas de pesquisa e ação

A professora Ana Flávia D’Oliveira explica que o grupo interdisciplinar e multiprofissional existe há trinta anos, reunindo médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e pesquisadores da área de políticas públicas. “Começamos estudando a prevalência da violência, quando ainda nem existia a Lei Maria da Penha. Os números eram assustadores”, recorda. A partir desses dados, o grupo desenvolveu tecnologias de cuidado voltadas à atenção primária. “Trabalhamos com equipes de unidades básicas de saúde, oferecendo capacitação para identificar casos, acolher sem julgamento e encaminhar as mulheres de forma segura para a rede intersetorial”, explica.
Os resultados foram expressivos: o número de casos identificados e referenciados aumentou 88% nas unidades onde o projeto foi implementado. O material produzido inspirou o Ministério da Saúde a criar um guia nacional de orientação aos profissionais, disponível online, sobre o atendimento a mulheres em situação de violência.
A importância do acolhimento e da escuta
Segundo a professora, o projeto revelou também a complexidade das experiências femininas diante da violência. “Não existe ‘a mulher’, existem muitas mulheres: negras, brancas, jovens, idosas, em situação de rua, trans, dependentes químicas. Cada uma tem um contexto”, explica. Ela destaca que, embora o movimento feminista tenha ampliado a consciência sobre o tema, ainda é difícil nomear o que acontece dentro de casa. “Muitas mulheres sabem que vivem algo errado, mas resistem em chamar de violência. Nosso trabalho mostra que é possível conversar na perspectiva dos direitos, sem impor rótulos, e ampliar o leque de alternativas”, diz.
Entre essas alternativas, estão os centros de referência da mulher e as defensorias públicas, além das delegacias especializadas. “Nem todas podem ir à polícia — seja por medo, dependência ou por viverem em territórios dominados pelo crime. O importante é reconhecer que a culpa nunca é da vítima”, reforça.
Violência de gênero: questão de saúde pública
Para a professora Ana Flávia, tratar a violência de gênero como tema de saúde pública é essencial. “Queremos transformar a rede de assistência em uma rede que garanta direitos e previna doenças físicas e mentais relacionadas à violência”, afirma. O projeto, explica ela, também atua na prevenção intergeracional, ao proteger crianças expostas a contextos violentos. “Cuidar das mulheres é também prevenir a reprodução da violência nas próximas gerações”, diz.
Ao agradecer o reconhecimento da Faculdade de Medicina, a professora ressalta o compromisso social da universidade. “É uma alegria ver a produção científica comprometida com o impacto social. Nosso papel é devolver à sociedade, em forma de cuidado e conhecimento, aquilo que recebemos em recursos e confiança”, conclui.
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